De passagem pelo Ceará, casal realiza sonho de contornar o País num motorhome após superar câncer

Há 60 dias, o lar de Margaret Santos Silva e Achiles Finardi são todas as paisagens Brasil afora; aportados em solo cearense, eles contam os detalhes e superações intrínsecos à experiência de partir

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O sentimento de liberdade absoluta é experimentado pelo casal em cada novo local explorado Foto: Helene Santos

De repente, o turbilhão da vida nos assalta e nós nem percebemos. Ralo adentro, vão sonhos, ousadias, possibilidades: tudo soterrado pela ideia de que é impossível parar e abrir a fresta da rotina para deixar que o novo venha e nos surpreenda. Tratando-se de Margaret Santos Silva e Achiles Finardi, contudo, a história é diferente. E tão mais inspirador que somente ressaltar o nadar contra a corrente de ambos é narrar a empreitada tocada por eles neste momento.

Faz 60 dias que o casal de empreendedores - ela, baiana, e ele, paulista - está contornando o País a bordo de um motorhome (espécie de casa móvel, semelhante a um trailer), com o projeto que batizaram de "Viver sem roteiro". Saindo do litoral norte de Salvador (BA), onde mantinham residência fixa, há poucos dias estavam aportados em Fortaleza, após ter passado por outras cidades dos cinco estados que outrora visitaram, a saber: Sergipe, Alagoas, Pernambuco, Paraíba e Rio Grande do Norte.

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No motorhome apelidado de Bibi, Margaret e Achiles atravessam o País Foto: Helene Santos

Para além da Capital alencarina, os passos dados pelos dois incluíram também os municípios de Aracati, Cascavel, e as praias de Cumbuco, Morro Branco, Canoa Quebrada, Flecheiras, entre outras. "Desde que saímos de casa, somos muito bem tratados em todos os locais que passamos. Não temos o que reclamar. Mas, ao entrarmos aqui no Ceará, a hospitalidade foi tão grande, as pessoas nos tratam tão bem, que a gente não tem nem mais o que esperar do Estado. Só podemos dizer obrigado", agradece Achiles.

O gosto por promover cada uma dessas incursões é justificado: a dupla tomou a decisão de viajar após descobrir o desenvolvimento de um câncer.

"Tive um câncer em 2011 e, ele, em 2015. Na verdade, ainda estou fazendo o tratamento, que é por 10 anos, e o tipo que ele desenvolveu é muito raro e agressivo. Ter passado por isso foi o que fez a gente iniciar o projeto", explica Margaret. "Um dia, paramos pra conversar e vimos que poderíamos ter morrido e não realizado nosso desejo".

Na estrada

No clima de gratidão pelas experiências proporcionadas com os atravessamentos diários, Margaret e Achiles dimensionam o cotidiano do estar na estrada. A logística da dupla, garantem, é bastante comum. Acordam, fazem as atividades de casa, ele sai para dar uma caminhada (por ordem médica) e ela cuida de outros afazeres.

Parte do dia também é dedicado ao ofício que desenvolvem, responsável por manter financeiramente o projeto. Eles alimentam uma plataforma de lojas virtuais e atuam diretamente com desenvolvimento de sites e blogs.

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O Iveco 1998, comprado online, é estruturado com sala, cozinha, banheiro e quarto Foto: Helene Santos

"Durante a semana, começo a trabalhar às 13h e vou até as 18h sentada em frente ao computador. Depois disso, à noite, a gente sempre fica conversando. Às vezes, tem visitas de pessoas que seguem a gente nas redes sociais e, no dia em que temos um lugar muito bacana pra ir, invertemos nosso horário de trabalho. É tudo muito comum, só que dentro de um carro", conta Margaret, cujo debruçar-se sobre o artesanato está abrindo portas para que ela brevemente lance um curso online de habilidades manuais.

"A gente só muda o escritório pra trabalhar, porque o que realmente precisamos é apenas de um computador e um bom sinal de internet. Tanto é que só paramos em lugares que nos ofereçam essa possibilidade de acesso à rede", explica, especificando os detalhes do ofício.

Apelidado de Bibi, o motorhome de 12m² - um Iveco 1998 com sala, cozinha, banheiro e quarto - foi comprado via e-commerce após o casal reunir economias e colocar à venda a casa em que moravam para financiar o sonho. "Até agora, ela ainda não foi vendida, mas a gente não esperou isso acontecer para começar a viagem", confessa Margaret.

Pelo tamanho interno reduzido do veículo, os dois adiantam estarem aprendendo a viver conforme o necessário, sem exageros. "Até porque não temos uma despensa onde colocar o excesso". Por outro lado, um dos maiores desafios está sendo conciliar as despesas, já que continuam arcando com os gastos da casa ainda não vendida em Salvador e os custos inerentes à viagem, relacionados a combustível e mantimentos.

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Detalhes do interior do veículo, recanto afetuoso da dupla: memórias e positividades para seguir o caminho Foto: Helene Santos

"Também precisamos sintonizar a troca de um lugar para outro com o horário de trabalho. Às vezes, estamos num local maravilhoso, que se deixar, a gente só quer passear e fazer fotos; ao mesmo tempo, porém, precisamos trabalhar. Então, o maior desafio talvez seja esse", explica.

Aprendizados

Na conta do que fica para sedimentar a existência diária, ambos aprenderam que é preciso saber, a cada manhã, para onde vão. "E é importante conhecer também as condições da estrada, saber a segurança dos lugares onde vamos ficar. Temos uma preocupação grande em nos informar sobre isso. Participamos de vários grupos de motorhomeiros e estamos sempre trocando ideias", contam.

E de promover diálogos o casal se destaca. Ao aportar em uma nova cidade, o interesse é por mergulhar na cultura dos nativos, em como se vive ali. Isso tem feito, conforme sublinham, que vários aprendizados sobre eles mesmos estejam surgindo. "Vemos que podemos viver com muito pouco, que precisamos ter muita paciência, tolerância e gratidão por tudo o que está acontecendo na vida da gente", desabafa Margaret.

"Achiles e eu tínhamos uma urgência das coisas, queríamos tudo pra ontem. E estamos vendo que não é assim. As coisas acontecem quando têm que acontecer. Fora que também aprendemos muito sobre as pessoas, o cotidiano e as características delas. No corre-corre do dia a dia normal, nos preocupamos muito em trabalhar, trabalhar, trabalhar, e ter dinheiro e comprar coisas. Por vezes, envolvidos nesse processo que desgasta, a gente se esquece de conversar e se conhecer".

Sempre cumprindo com o lema do projeto, de não possuir rumo definido, o casal, ao documentar cada passo nas redes sociais - eles seguem angariando mais seguidores ao manter um diário de bordo - pretendem consolidar o registro completo da viagem em algo mais encorpado, permanente. "Estamos tentando aprimorar essa parte".

Até que mais paisagens sejam contornadas, fica o recado da dupla que desconhece limites para transpor barreiras. "Esperamos que todo mundo faça algo do tipo principalmente pela experiência de vida, pelos aprendizados. Esquecer todo esse consumismo, toda a rotina deslumbrante de shopping, de comprar, e viver um pouco mais olhando para dentro de si, para as pessoas que estão ao redor", recomendam.

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Ceará é o sexto estado atravessado pela dupla na jornada que se iniciou há 60 dias Foto: Helene Santos

"Pra viver na estrada, precisamos abrir mão de uma série de coisas. Mas com o coração, de verdade, pra não sofrer. Tudo para ter uma vida mais simples e com qualidade". Sem roteiros e fronteiras em direção à felicidade de existir plenamente.

> Acompanhe

É possível acompanhar a viagem de Margaret e Achiles pelo Instagram, Facebook, Youtube e site. Em cada plataforma, o casal apresenta a movimentada rotina de passeios, amplificando os detalhes sobre cada lugar visitado. Para isso, um diário de bordo sempre atualizado dá conta de aprofundar as experiências vivenciadas e fornece informações sobre a própria história da dupla. No Youtube, os seguidores também conferem dicas ligadas à organização de casa, como aprender a fazer uma mesa lateral com cabides ou um pufe organizador, por exemplo. 

Assista a um dos vídeos gravados pelo casal:

> Lugares favoritos do casal no Ceará

1- Morro Branco
Localizada em Beberibe, a 83 quilômetros de Fortaleza, a praia ficou em primeiro lugar na lista de locais favoritos do casal no Ceará devido à hospitalidade dos nativos e à riqueza natural. “As falésias nos encantaram. E lá tem bicas de água mineral jorrando pela cidade inteira. Fora o mar, que é lindo, e as pessoas sempre muito atenciosas. Se alguém precisa conhecer algum lugar no Estado, que seja Morro Branco”.

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Imagem registrada pelo casal em Morro Branco Foto: Arquivo Pessoal

2- Canoa Quebrada

A charmosa vila de pescadores, no litoral leste do Ceará, município de Aracati, ficará guardada na memória de Margaret e Achiles pelo visual paradisíaco. Lá, apesar de terem passado pouco tempo, destacam novamente a receptividade da população local e a calmaria do ambiente.

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A beleza de Canoa Quebrada atraiu o casal Foto: Arquivo Pessoal

3- Cumbuco

Conhecido como o paraíso das dunas em solo cearense, a 23 quilômetros do centro da Capital, foi o lugar em que a dupla ficou extasiada com a quantidade de pedras na praia. “Eu fiquei enlouquecida. As pedras vêm do fundo do mar, a onda vem e traz para a areia. É lindo. Tem também lagoas maravilhosas e, mais uma vez, o povo é muito bacana”, considera Margaret.

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Esta poética fotografia foi registrada por Achiles no Cumbuco Foto: Arquivo Pessoal