Criação com apego: pais e filhos juntos no brincar resgatam jogos tradicionais

Convivência saudável e repleta de saberes e lições é reflexo da união de crianças e adultos em contextos lúdicos

img1
Confeccionar e soltar pipa integra convivência de Luana, Kauan e Luka Foto: Fabiane de Paula

A cor da infância de Luana Caetano de Medeiros transita entre o verde e o laranja. Tem o tom das seriguelas. As frutas, tímidos pontinhos em elevada altitude, justificavam o subir apressado na árvore do quintal da casa dos avós paternos, Francisco e Lourdes, localizada na Praia de Iracema. "Pegar seriguela era só desculpa para se aventurar", lembra. "Hoje, aquele pé está tão pequeno... Mas ainda existe lá. Até levei meus filhos para subir".

img3
Subir em árvores é costume para Luana, Luka, Kauan e Maria Foto: Fabiane de Paula

Apoiados no tronco, próximos do firmamento, os pequenos Luka, de oito anos, e Kauan, de seis, sentiam o vento, apreciavam o sabor do fruto e, de quebra, perpetuavam a tradição do livre brincar alimentado pela mãe até hoje. São cúmplices. Juntos - aliados também à avó, Maria Silva, de 71 anos - os quatro suam, correm, pulam, confeccionam e soltam pipa, pescam, nadam. Vivem. Seja no reduzido espaço do quarto ou na extensão de verde no condomínio em que residem, no município de Maracanaú, dividem experiências, saberes e as energias que o desbravar alimenta.

Assista ao vídeo com depoimentos das famílias entrevistadas:

"Sempre procuro realizar atividades lúdicas e recreativas durante todo o ano que façam o resgate das brincadeiras populares. Mas elas ficam mais intensificadas neste período de férias, em que busco mostrar a eles, da melhor maneira possível, que existem outras formas de diversão. Não é só o videogame, a parte eletrônica. É brincar na piscina, subir em árvore, fazer piquenique, convidar os amigos para estar junto. Ao transmitir jogos passados de geração em geração, como pega-pega, esconde-esconde e pedra, papel e tesoura, por exemplo, aproximamos diferentes tempos", explica Luana, professora da rede estadual de ensino.

img3
No lago próximo à casa onde moram, no município de Maracanaú, prevalece o compartir Foto: Fabiane de Paula

Ela tem razão. Divertir-se como se entretinham nossos pais, avós e bisavós, oportuniza que sejamos parte. E para além da cola que agrega descendências, os sentimentos depositados em cada atitude reverberam cuidado, aconchego e aprendizados maiores, válidos para toda a vida.

"Enquanto adulta, saio do meu mundo e passo a enxergar tudo com o olhar de criança. Daí sinto bem-estar, paz, harmonia, coisas boas, que fazem evoluir. E eles também. Crescem com possibilidades, a partir de vivências reais, deles. Amadurecem independentes".

img2
Unidos também à avó Maria, os pequenos apreendem saberes do brincar Foto: Fabiane de Paula

Desenvolvimento

Os percursos que Luana escolheu para seguir com os pequenos não são avulsos, tampouco capricho de uma criação dada a liberdades. Têm reflexo teórico e dialogam com diferentes vertentes dos estudos na área de Pedagogia. Não é só brincar por brincar. O contato entre pais e filhos no momento da recreação gera relevantes amplitudes, conforme explica a professora da Faculdade de Educação da Universidade Federal do Ceará (UFC), Cristina Façanha Soares.

O ato de entreter-se, não sem motivo, é o primeiro gesto de afirmação da vida da criança. "Desde que mundo é mundo, se brinca. É uma prática que contribui para o pleno desenvolvimento do sujeito porque, ao se divertir, há a possibilidade de criar, imaginar, ter protagonismo na brincadeira. Quando os pais brincam junto ou potencializam esses momentos e observam seus filhos, há muita aprendizagem para os dois lados", considera a estudiosa.

img5
Brincar é primeiro gesto de afirmação da vida da criança; pais próximos otimizam crescimento Foto: JL Rosa

Ainda de acordo com Cristina, o jeito como os de menor idade se comportam nessas dinâmicas - a maneira como manipulam os objetos, como correm ou as falas que proferem quando estão no movimento da recreação - pode inclusive refletir comportamentos futuros.

"No caso da tradicional brincadeira de casinha, por exemplo, aquele brincar do faz de conta dá possibilidades para a criança. Porque ela vai definir papéis. Uma será a mamãe, outro o papai, outro o filho. Saem, então, do lugar de crianças para criativamente tomarem o dever de um adulto, representando aquele papel".

Os gestos potencializam, portanto, descobertas, já que a garotada explora o mundo assim, com a simplicidade do lúdico. Cabe, porém, uma ponderação: é de suma importância, além do convívio próximo aos pais ou responsáveis, deixar com que tenham também momentos a sós.

"É essencial organizar o espaço, tempo e materiais para que as crianças possam brincar sozinhas, sem a interferência do adulto. Em momentos assim é que elas ficam mais livres para definir os papéis de que já falamos. Isso fortalece muito a relação", complementa Cristina.

União

E de entrosamento com os filhos o educador físico Yuri Gondim e a assistente social Ana Paula Miranda entendem bem. Pais de Lucas, 7 anos, e Gabriel, 4, eles enumeram os jogos que gostam de realizar com a duplinha: atividades envolvendo tampinhas, tabuleiro, futebol de botão, bila e outras que fizeram parte da infância de antes que se repercutem no hoje.

Indagado sobre qual a necessidade de não se conformar em ver apenas as crianças se divertindo, mas ir ao encontro delas para interagir, Yuri sublinha: "Ter a experiência do livre brincar é muito importante. Porque é nesse momento que eles constroem sua personalidade. No convívio com outras pessoas e crianças, conseguem resolver situações-problemas que vão aparecer, sem precisar do adulto por perto. Crescem com isso".

img4
Jogar bila une Yuri Gondim, Ana Paula Miranda, Lucas e Gabriel Foto: JL Rosa

O pai também enfoca na construção da autonomia e do estímulo à criatividade ao elucidar que, nas escolas, por conta da maioria das atividades serem direcionadas, ficam quase nulas as perspectivas de desenvolvimento natural.

"Cada vez mais nosso dia está cheio de atividades a preencher nossa agenda. E a gente acha que está fazendo um bem para a criança enchendo ela de várias coisas para fazer, quando, na verdade, elas precisam da liberdade também para criar. É o que chamamos de ócio criativo".

Brincar, assim, é sempre. Exercício que se ressignifica e traduz, no palmilhar da amarelinha, no roda-roda do pião ou no ruidoso estalar das bilas, universos inteiros de expressões juntas e nossas, as que estão aqui e as que ainda estão por vir. A pergunta que fica é: do que vamos jogar hoje?

img6
A bola é brinquedo principal na casa de Yuri Gondim, junto aos filhos Lucas e Gabriel Foto: JL Rosa

- Saiba Mais: Mapear diversões

Com o programa "Território do brincar", os documentaristas Renata Meirelles e David Reeks - acompanhados dos filhos e com apoio do Instituto Alana, organização de vertente nacional voltada para o desenvolvimento integral da criança - percorreram o Brasil visitando comunidades rurais, indígenas, quilombolas, grandes metrópoles e interiores, revelando o País por meio dos olhos de nossos pequenos. Tatajuba, no litoral cearense, foi registrada pelo casal a partir da prática de confecção de barquinhos.

Em entrevista ao Verso, Renata explica que, na comunidade, onde passaram 45 dias, eles conheceram um repertório de brinquedos e brincadeiras muito ativo, presente e vivo. "Ali, a relação intergeracional é sempre muito forte e presente porque as crianças têm muito contato com os pais, geralmente pescadores que trabalham perto deles. A autonomia de uso de materiais, como madeiras, folhas e isopor, vêm muito dessa proximidade. Entendo, então, que um olhar cuidadoso e atento não é necessariamente o estar junto o tempo todo, mas um olhar que acredita na criança, que confia na sua potencialidade e permite com que ela vá explorando e lidando, à sua própria maneira".

* Campanha: Durante o mês de julho, o Sistema Verdes Mares aborda o tema "Criação com Apego", sobre a relação entre pais e filhos, cuidadores e crianças