Conheça a cearense Raquel Lopes, destaque no Caldeirão do Huck ao combinar pandeiro e rock

Desde os sete anos, a artista dedica-se à música, trilhando um caminho de transformação social pela arte e descoberta de novos sons

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Tendo a música como inspiração para projetos e atividades, Raquel Lopes segue desbravando vários caminhos Foto: Thiago Gadelha

Caso receba ligação até o começo da tarde, Raquel Lopes atenderá. Mas, de modo direto, deixará tudo bem claro: "Possivelmente vou te ouvir pouco. Estou rodeada de crianças". Nem precisa aguçar a escuta do outro lado da linha para saber que é verdade. De perto, o som de vozes-meninas se achega com força e é impossível disfarçar o batuque. Provavelmente estão em círculo, a repetir lições melódicas, numa ciranda de fazeres e saberes onde a professora de 26 anos ocupa lugar central.

Raquel considera-se inserida no mundo da música desde os sete anos de idade. À época, feito a garotada para quem dá aulas hoje, de quarta a domingo, na Casa do Menor São Miguel Arcanjo - localizada num dos chalés do Condomínio Espiritual Uirapuru (CEU) - também achava que descobrir novos sons era como ganhar o mundo. E era mesmo, ela comprovaria depois com a própria vida.

Natural de Fortaleza, a musicista foi um dos destaques, no último sábado (9), do "Gonga La Gonga", quadro do programa Caldeirão do Huck. Exalando carisma e criatividade, combinou o som do pandeiro ao heavy metal, unindo dois universos sonoros a princípio bastante distintos.

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Figurino para apresentação no quadro "Gonga La Gonga", do Caldeirão do Huck Foto: Arquivo Pessoal

"O interesse em participar do programa surgiu por meio de um amigo cantor de Juazeiro do Norte, que se inscreveu e, por coincidência, fomos juntos", explica. "No ato da inscrição, intitulei a apresentação de 'Rock no pandeiro', com a proposta de fazer algo inusitado, que prendesse a atenção das pessoas. Fui para isso".

Deu certo. A audiência reagiu entusiasmada à performance e nos fez voltar o olhar para a artista, a fim de saber qual trajetória ela dilui nas mãos por meio de indomável talento. Foi, assim, ponte para conhecermos alguém que vive para a música e contribui para que outras pessoas assim também o faça.

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Raquel leciona aulas de percussão na Casa do Menor São Miguel Arcanjo, no Condomínio Espiritual Uirapuru Foto: Thiago Gadelha

Inspirações

Se hoje Raquel é professora na Casa do Menor São Miguel Arcanjo, é porque sua vida está diretamente ligada ao lugar. A mãe, Maria Gorette Lima Lopes, 55 anos, foi mãe social do abrigo, o que fez a musicista residir lá com o irmão, Samuel, e dar os primeiros passos no universo do som.

"Sempre quis tocar, mas minha família não tinha condições de comprar instrumentos. A primeira oportunidade apareceu aos 7 anos, quando viajamos ao Rio de Janeiro para participar da inauguração de outra Casa do Menor lá. Era preciso uma apresentação musical, e passei um mês me preparando para ela".

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Quando começou a tocar, em 2001 Foto: Arquivo pessoal

Ao retornarem a Fortaleza, ela começou a participar de um grupo de percussão na casa de onde saiu, abrindo outras portas no ramo. Prova disso foi a turnê empreendida, anos depois, pela Europa. Pouco a pouco, os horizontes musicais iam ficando mais bonitos e intensos para a artista.

A partir dali, por exemplo, a musicista participou de projetos feito o Maracatu Solar e outros. Também integrou a Orquestra do Grupo Pão de Açúcar durante quatro anos, sendo ainda aluna das residências artísticas dos festivais Jazz & Blues e Música na Ibiapaba.

"Toquei com grandes músicos do Ceará e do Brasil. Após ser vista pelo produtor do sanfoneiro Waldonys, fui convidada para fazer shows pelo Nordeste em homenagem a Jackson do Pandeiro, além de várias outras iniciativas".

Há dois anos, é percussionista na banda Nigroover. O grupo investe numa pegada que transita entre várias sonoridades, da black music e samba funk ao drum and bass, rock nacional e MPB. Tudo misturado. O ecletismo justifica a escolha pela apresentação no programa global. "Agora me procuram nas redes sociais, admirando meu trabalho, já que foi algo bem inusitado", confessa.

E completa: "As pessoas veem o pandeiro como instrumento de samba, mas, para começo de conversa, a origem do instrumento não é brasileira, é árabe. O pandeiro é um instrumento de percussão completo e bem difícil de se tocar, pois exige resistência física e coordenação motora. Por ser percussionista e tocar vários gêneros musicais, além de sempre ter gostado de rock, juntei uma coisa a outra".

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Registro da apresentação na Itália, com grupo de crianças Foto: Arquivo Pessoal

Ela ainda explica que o pandeiro pode ser tocado de forma similar à bateria, alternando apenas a forma de tocar, o que abre margem para diversas experimentações.

Social

Raquel também vincula a arte ao social. Junto à médica hematologista Paola Torres, integra um grupo de música nordestina há três anos, difundindo tradicionais melodias em equipamentos como o Teatro Celina Queiroz, Theatro José de Alencar e Caixa Cultural.

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Com o Grupo Batuque na Periferia, na ativa desde 2016, Raquel empreende contato íntimo com a percussão Foto: Arquivo Pessoal

E, desde 2016, teve aprovado um projeto de percussão na Secretaria da Juventude de Fortaleza, intitulado "Batuque na periferia", cujo foco é dar aulas para crianças e adolescentes do bairro Dias Macedo, onde mora, e adjacências.

"Muitos dos participantes têm o primeiro contato musical ali. Em poucos meses, aprenderam 11 ritmos e se apresentaram com banda profissional e cantores no teatro do Cuca Mondubim. A maioria nunca tinha visitado um teatro, foi um dia incrível", recorda, emocionada.

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Junto à médica hematologista Paola Torres, realiza trabalho de difusão da música Foto: Arquivo Pessoal

Por sinal, a partir de terça-feira (19), às 14h, a musicista iniciará a oficina de formação artística "Pandeirada Nordestina", com entrada gratuita, no Centro Cultural Banco do Nordeste Cariri, em Juazeiro do Norte. Tocar, no fim das contas, é isso: represar conhecimentos para fazê-los correr nas estradas dos outros.

"A arte é um instrumento poderoso para a mudança de uma sociedade, pois, sem ela, não conseguimos abrir a mente para o novo, o diferente, e muito menos valorizamos o que é nosso. A riqueza da mistura de raças e suas formas de expressão é esperança para sairmos de um cenário racista, ideológico e radical", opina.

Mulher, negra e periférica, Raquel segue sustentando essas bandeiras tanto porque acredita no alcance da cultura como para driblar ações pelas quais já vivenciou. Certa vez, foi agredida por um músico durante uma apresentação. Em outras, várias, chegou a ser assediada, tendo ainda que pôr uma roupa masculina num show para não parecer mulher.

"Essa é a realidade", lamenta. "Mas sou música. O som é universal, sensível, entendível, mesmo que não se saiba a língua. Tenho o sonho de levar meu som pelo mundo. O desafio maior é chegar lá, conseguir apoio e oportunidades. Tenho muita fé e garra, irei conseguir". Alguém duvida?

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Mulher, negra e periférica, Raquel Lopes enfrenta desafios para continuar na arte. Mas, é preciso seguir Foto: Thiago Gadelha