Moradores relembram os dias que precisaram deixar suas casas

Em Ubajara, providências emergenciais foram tomadas, mas a ameaça de rompimento do Açude Granjeiro deixou marcas. Famílias de áreas rurais sentiram na pele o medo de verem as moradias desaparecerem nas águas

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Kid Júnior

Não tiveram malas. Foram só com as roupas do corpo mesmo. Em certos casos, conseguiram pegar panelas e amarrar os colchões. Faltava tempo e as águas podiam chegar. Tudo bem que naquela região não se tinha notícia de ameaça semelhante. Mas quem confiaria? Era março de 2019. Trizidela, distrito de Ubajara, no Ceará. A ordem foi sair do caminho. Apesar da resistência, sabiam os nativos: o vale está na linha da barragem. Se rompesse, a comunidade desapareceria. Cerca de 513 famílias deixaram as casas.

A dona de casa Francisca de Sousa da Silva, 69 anos, quando soube da possível ocorrência foi “arrastada pelo braço” por uma moça que a ajuda em casa. “Não sou bem legal do corpo. Peguei a minha vareta e fui bater em cima”, indicando a partida para Ubajara. A poucos quilômetros dali, o agricultor Anselmo Lima, de 59 anos, tinha decidido não sair de Trizidela. Como deixaria a casa construída com esforço, os cachorros e as galinhas?

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Em Trizidela, distrito de Ubajara, o alívio dos moradores virou história para contar Kid Júnior

Habitantes de um lugar que poderia submergir. Isto porque no dia 13 de março deste ano, a Agência Nacional de Águas (ANA) realizou o embargo provisório da Barragem Granjeiro, em Ubajara, propriedade particular, devido à ameaça de rompimento da estrutura. Medidas emergenciais de segurança foram tomadas e a opção racional era sair. 
Não teve muito tempo para emoção. Os medos, os choros, as dores, as angústias, o nervosismo, a falta de conhecimento, tudo isso era o que menos ajudaria naquele local, naquela situação. Ainda assim, não senti-los era o que menos se sabia fazer. Sair era deixar uma vida para trás. Sem garantia de manutenção do que se havia experimentado ali. Não sair era o risco de não ter a vida para frente.

Movimento 

A Prefeitura interveio e a Defesa Civil convocou e os moradores a partirem. Francisca foi serra acima. Anselmo se guardou em casa, apesar dos clamores da mulher e dos quatro filhos. Passada a primeira noite em Ubajara, Francisca voltou para Trizidela, mas ficou na casa do rapaz que ajudou a criar. Do outro lado do Açude. Anselmo ficou em casa e fazia contato com a família. Não dormia, diz ele. Nem sentia vontade de comer. 

Nos dias seguintes, novamente veio a notícia, ainda mais enfática: todos deveriam deixar Trizidela. Francisca foi para a terceira casa do percurso. Recusou o abrigo disponibilizado oficialmente pelo poder público. Na lembrança, a pequena casa de seis minúsculos compartimentos. Erguida com barro e coberta de telha e madeira bruta.

“Meu marido ia olhar a casa. Eu só ficava deitada. Ele que ia e voltava. Antes de ir, soltei os quatro cachorros pra não morrer. Minha filha dizia: mãe você saia de casa porque vai pegar lá. Eu tomava remédio e dormia. Naquele rebuliço, nós ‘achava’ graça e tudo, e quando queria atacar (a sensação de nervosismo), eu pegava o remédio pra passar”. 

Anselmo tentava equacionar emoções frente aos riscos. Tinha uma suposta rota de fuga na cabeça, caso as águas do Granjeiro encontrassem seu lugar. Correria rumo à parte alta da propriedade. “Eu me baseei pela distância. Que ela não vinha com velocidade. Dava tempo eu correr. Mas Deus me defenda. Eu passava a noite toda acordado e ia deitar cinco horas da manhã. Nunca tinha passado por ameaça assim. Saí daqui em 1978 pra Nova Veneza. Fui para Pacajus, Horizonte, Fortaleza. Vim de volta em 2001 e nunca passei por algo assim”. 

Saída

Na terça-feira, 19 de março, equipes de trabalho abriram um novo sangradouro para escoar 50% do volume do Granjeiro. Antes disso, os moradores que ainda permaneciam apressaram-se para sair definitivamente da localidade. “Bora Pacajus (como Anselmo é chamado), eu venho te buscar aqui. A barragem 10h vai romper. Você não vai morrer aqui”. Eis a mensagem de um amigo para Anselmo. O agricultor não mais aguentou e seguiu. Foi a única noite que dormiu fora de casa durante todos os dias de risco. 
Com o reforço das operações de segurança, veio a bonança: quem saiu de casa, pode voltar. O assombro parecia ter ido embora. Anselmo “segurava os nervos com Deus” e voltava para a residência rodeada pela pequena plantação. Findaram os sete dias de desespero e incerteza. 

Francisca também voltou assim que recebeu a ordem. “Toda vida, eu tive medo de passar o inverno aqui. Quando ela (barragem) tá cheia é demais. Mas o pior de todos foi este ano. Eu pensei que minha casa ia ‘simbora’ toda. Eu penso demais. Não tenho outro lugar pra ir. Essa casa foi feita toda de empréstimo. Fico preocupada pensando na barragem arrombada. Mas caio no sentido de novo e digo: não vai arrombar não”. 

As casas continuam lá. Assim como as águas do Açude Granjeiro. A vida aparentemente voltou ao normal. Das visões apocalípticas da localidade destruída ao alívio que virou história que se conta. Nada disso é passado. A memória reativa os sentimentos. Recontar aqueles dias é narrar-se outra vez e talvez perceber ainda tantas outras fragilidades. A moradia perdeu o posto de lugar seguro. 

Com alto risco, Barragem segue monitorada 24h

No processo de ação emergencial, a barragem do Granjeiro teve um novo sangradouro aberto no dia 19 de março. Uma vala, com quatro metros de extensão e 10 metros de altura. Atualmente, segundo a Agência Nacional de Águas (ANA), o Granjeiro segue com alto risco de rompimento em razão do período de chuvas e por isso é monitorado 24 horas por dia. As possíveis intervenções emergenciais foram concluídas. Na época da abertura do sangradouro, o prefeito de Ubajara, Rene Vasconcelos, informou, que todos os gastos da operação estavam sendo contabilizados e deveriam ser ressarcidos ao município pela Defesa Civil Nacional e pela ANA. A Agência, por sua vez, diz que a manutenção é de inteira responsabilidade do proprietário. A barragem foi construída para dar suporte à usina da Agroserra Companhia Agroindustrial Serra da Ibiapaba, cujo proprietário é Avelino Forte. A reportagem tentou contato com ele. Via rede social, foi informado que Avelino está viajando e o número telefônico não foi repassado. 
O atual processo de monitoramento da barragem, além da ANA, envolve o Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden) e a Prefeitura de Ubajara que, emitem, segundo a ANA, alertas à Defesa Civil. 

A Prefeitura de Ubajara também foi contatada, no entanto, até o fechamento desta edição, não respondeu aos questionamentos. 

A ANA garantiu ainda que o empreendedor já foi notificado pelo órgão sobre a situação, mas “ainda não respondeu a nenhuma solicitação”.