Casas ilhadas acirram drama histórico nos locais de risco em Granja

Com as cheias na Região Norte, o Rio Coreaú chegou a ficar 3,60 metros acima do normal em abril. Residências voltaram a ser inundadas. Medos históricos voltaram a atormentar aqueles que moram no curso das águas

Granja
A maior cheia do Coreaú em Granja foi em 2009. Uma década depois, a história se repete, em menor proporção. Casas ficaram ilhadas. Foto: Kid Júnior

O batente recém-construído na porta da sala da casa, no leito do Rio Coreaú, em Granja, revela a tentativa de impedir que a água adentre. A estratégia é conhecida. A residência abriga cinco moradores. Já foi de taipa e hoje é de alvenaria. Sempre em área de risco. Quando a cheia ameaça, os habitantes divergem. Se fosse por Maria Alves Rodrigues - a mãe -, juntava a família e seguia. Já o desejo de Henrique Rodrigues - o pai -, que aterrou o local em que mora, é de continuar "fazendo melhorias na área". Retratos de um conflito duradouro. Margear o apreciado Rio e padecer quando o mesmo avança rumo ao lugar que é seu por natureza. Habitar terra de ninguém e sofrer os efeitos disso.

Nos bairros Barrocão e Lagoa Grande, em Granja, o cenário não surpreende. Muito embora nos últimos anos, não se tenham visto o Coreaú tão volumoso. A maior cheia do rio foi em maio de 2009, quando a cidade ficou devastada pela inundação. Uma década depois, a história se repete, em menor proporção. O mesmo recurso hídrico, que percorre oito municípios cearenses e espalha-se por Granja, encontra obstáculos semelhantes: as vida humanas e suas obras.

Ocorrências

No início de abril, pelo menos, 122 famílias do Barrocão e da Lagoa Grande foram atingidas pelas inundações. Sair e entrar em casa virou risco. Ser levado pela correnteza era o grande temor. Materializável a qualquer momento, visto a força das águas em dias atípicos. Bem sabe a família da comerciante Maria Alves, cujo entorno da casa que é também ambiente de trabalho, devido à barraca construída pelo marido, foi inundado.

Um imóvel momentaneamente ilhado. Um, dentre tantos outros, em condição semelhante em Granja. Para chegar ou sair, a única opção era uma canoa. Durante cinco dias, o pequeno barco serviu também para transportar alimentos para consumo próprio e o possível atendimento na barraca. Ainda que os clientes, devido às ocorrências, nem sequer tivessem coragem de ir ao local nos dias de cheia.

A casa da família Rodrigues, de tão dentro do Rio, forma uma bifurcação. Uma barreira, que o Coreaú, neste ano, ultrapassou se dividindo em dois braços e contornando.

Nos últimos seis anos, aconteceu (a cheia) no ano passado e neste. Fico nervosa. Os meninos nem dormem aqui. Vão dormir lá pela tia deles. Mas ele (marido) não quer sair de jeito nenhum. No ano passado, só foi um dia. Já nesse ano, começou encher na segunda e passou a semana toda".

A casa é dividida em níveis. Em 2018, quando a residência ficou ilhada por um dia, a cama foi colocada em cima de outros móveis. Solução para passar a noite supostamente sem risco.

Além do casal, três filhos habitam a residência: uma criança de 4 anos e dois adolescentes de 12 e 13 anos. Para irem à escola em dias de cheia, ou se usava o barco ou atravessava a pé com água na altura das pernas. "Eu fiquei dentro de casa. Não saio daqui não. Passamos a semana toda ilhada. No ano passado, ela botou num dia e no outro já tinha baixado. Pode encher do jeito que encher, eu não saio daqui. Porque sei que ela (água) vem e volta. Se ficasse direto, aí fazia medo", diz Henrique.

O terreno, segundo ele, foi adquirido há seis anos por R$15 mil. "Quando eu comprei aqui, era uma cabaninha de taipa bem miudinha. Eu já sabia que alagava. Era um buraco, eu aterrei e plantei ao redor", explica. Passadas as chuvas intensas, os moradores continuam vigilantes. O Rio, em época chuvosa, se enche de água doce, e segue sendo observado regularmente.

Histórico

Em Granja, a exposição aos riscos de desastres naturais é histórica. A realidade ganha notabilidade ciclicamente, mas já é constatada há décadas. Pesquisa divulgada, em 2018, pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) com dados referentes a 2010, o quadro de regiões suscetíveis a desastres naturais como inundações, enxurradas e desabamentos foi diagnosticado.

O estudo chamado "População em áreas de risco no Brasil", elaborado junto com o Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden), apontou que Granja tinha 986 domicílio em área de risco, com 3.764 moradores em condição de perigo. Em 2010, a população estimada na cidade era de 52.645 pessoas. A projeção é que este estudo seja replicado após o Censo 2020.

O poder público tem ciência do assunto, mas garante ser complexo o problema. O coordenador da Defesa Civil do município de Granja, Francisco Aquino, relata que nas cheias de 2009, as áreas de risco foram mapeadas pelo Serviço Geológico do Brasil, vinculado ao Ministério de Minas e Energia. Na época, 220 casas foram entregues na sede de Granja e nos distritos de Timonha e Ubatuba. Mas, boa parte da população, lamenta ele, retornou para as áreas de risco.

A gente monitora o Rio e se a água aumentar retira as pessoas. Essas construções irregulares vêm de 40 a 50 anos. Herdamos de administrações passadas. Não tem como no momento intervir".

Outro dilema, explica ele, é a ausência de dados. Pois, a atual gestão de Granja alega, não tem nenhuma informação sobre quem recebeu os imóveis na grande cheia de 2009.

Intervenção

Para amenizar o drama sazonal, Francisco garante que um dique - obra estrutural para represar água - deve ser construído na margem do Coreaú, na Lagoa Grande, com uma extensão de 1,5km, dando continuidade à estrutura existente.

A cidade, sem recursos, aguarda liberação de emendas parlamentares para efetivar a intervenção. Mas, assim como não há dinheiro, também não há prazo certo para nenhuma ação estrutural. Alheias a isto, as águas seguem levando o que atravessa o caminho. Bens daqueles que também parecem indiferentes à condição natural do Rio.