Dono da Costa Mendes já dormiu na padaria, perdeu o estoque em incêndio e hoje tem 4 lojas

Iran Alves mantinha o negócio aberto 24 horas por dia aos fins de semana até realizar o sonho de “ser grande”

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Para conseguir o capital necessário à abertura do negócio, Iran pediu emprestado parte do estoque do pai, e passou a revender produtos como açúcar, cachaça e sabão para outros mercadinhos Helene Santos

Uma aprovação em um concurso nacional há 27 anos poderia ter mudado o futuro de Iran Alves de Lima por completo e a realidade de mais de 400 funcionários das quatro unidades da rede de padarias Costa Mendes que ele gerencia atualmente.

A ideia de ser um funcionário público, na verdade, era um desejo da mãe. Com a reprovação na prova, decidiu então seguir o sonho de empreender, ter independência financeira e “ser grande”.

A série 'Por Dentro do Negócio' traz histórias de empreendedorismo de empresas que atuam no Ceará, dos percalços ao sucesso, para inspirar você no sonho de abrir o próprio negócio.

Hoje, aos 49 anos de idade e com 25 à frente da padaria, o empresário viu que fez a aposta correta, mesmo tendo enfrentado muitos obstáculos pelo caminho. “Durante três anos, a conta não fechava, e cheguei a criar uma dívida. Mas falei para mim mesmo que iria me dedicar totalmente a isso, peguei minha rede e fui dormir na padaria, pra não ter mais hora para fechar e abrir”, lembra.  

Fora o desejo, o fator crucial para iniciar a empresa foi o incentivo do pai. "Passei a ter ele como meu ídolo, me inspirar nele, nas coisas que ele fazia e na forma como trabalhava no mercadinho que tinha”, destaca Iran, que usou o conhecimento prático de administração aprendido com o pai para conduzir o próprio negócio.  

Para conseguir o capital necessário à abertura do negócio, há quase três décadas, pediu emprestado parte do estoque do pai, e passou a revender produtos como açúcar, cachaça e sabão para outros mercadinhos. Em dois anos, transformou R$ 5 mil em produtos em R$ 30 mil de caixa.

O dinheiro foi suficiente para a compra de equipamentos como cilindro, forno e modeladora, e para a reforma do ponto, localizado em um endereço que pertencia à família, na rua Professor Costa Mendes, mas não sobrou para ter um fundo de caixa e nem para comprar o principal: o trigo do pão.  

“Quando aprontei a padaria, não tinha mais nenhum tostão. Acabou o dinheiro total. Não tinha nem para farinha de trigo. O cara que montou o meu forno ficou com pena e pediu cinco sacas de farinha emprestadas para um outro amigo dele. Obviamente, que depois paguei”, recorda.

Irmãos e familiares fizeram uma vaquinha para reunir um saco de moedas para poder passar troco no estabelecimento. “Foram dois pontos importantes e marcantes nos primeiros momentos da montagem da empresa”, acrescenta. 

Entre as primeiras conquistas desse período conturbado, o empresário guarda até hoje a balança eletrônica cuja compra foi parcelada em seis vezes. "O dinheiro só deu para comprar uma balança de dois pesos, que ficava dentro da padaria.

Quando o cliente comprava alguma coisa que era necessário pesar, como um biscoito, eu chegava no padeiro e pedia licença. Foram seis meses assim. Eu até hoje tenho ela como relíquia, por conta da dificuldade em pagar. Foram seis pagamentos, atrasei, mas paguei", destaca.  

No vermelho  

Com doze funcionários e o pão como seu principal produto, ao longo de três anos, Iran não via a conta fechar. No máximo, ficava no empate. Para completar, já tinha um saldo negativo em seu nome de R$ 1.820. Com o incentivo e a quitação da dívida pelo pai, Iran decidiu praticamente morar no estabelecimento.

"Meu pai disse para não desistir. Falou que iria pagar, mas pediu que não o decepcionasse, que eu deveria ter mais atenção. Conselho de pai", aponta. 

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O ponto em que a padaria foi instalada era da família de Iran Alves e ficava na rua Professor Costa Mendes, no Montese Helene Santos/ Reprodução

Nessa época, conta o empresário, o local ficava aberto praticamente 24 horas, enquanto tivesse clientes e pedidos. Com os bons ventos, a melhora no faturamento permitiu uma ampliação do espaço, nova vitrine e mais produtos no cardápio, entre eles as famosas tortas.

“Contratei um confeiteiro e, um mês e meio depois, ele disse que não ia trabalhar mais. Ele estava com pena de mim porque toda torta que fazia, ia para o lixo”, lembra o empresário, que chegava a descartar cinco bolos da produção por falta de compra, ao longo de três meses.  

Com a divulgação por meio de panfletos, as encomendas começaram a surgir e o próprio Iran fazia as entregas, na hora do almoço. “Depois coloquei uma pessoa na bicicleta, em seguida na moto e agora são 20 motos para entrega só na matriz”, contabiliza.

Os sabores Sensação de Morango e Bem Casado, entre as mais de 25 opções, são os mais requisitados na Costa Mendes. Junto às tortas, veio a ideia de fazer kits de aniversário, inspirada na extinta confeitaria Bom de Vera.

89 reais
É o valor do do kit festa da Costa Mendes atualmente, que inclui uma torta doce, 100 salgados fritos, docinhos e refrigerante

A torta de morango é a receita mais vendida, e cada unidade produz, diariamente, 14 kg do produto, segundo Iran. Já os kits para festas recebem, é média, 250 encomendas por dia.

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No início da produção das tortas doces, o empresário chegava descartar os produtos pela falta de clientes, até começar a fazer ele mesmo a divulgação Helene Santos/ Reprodução

 
Estrutura abalada  
 
Em 2007, dois anos depois de ter aberto uma filial no bairro Vila União, o negócio sofreu um baque: a matriz foi atingida por um incêndio, causado por um problema no ar-condicionado, destruindo teto, fiação e todos os alimentos que estavam expostos dentro da loja.   

Ainda na madrugada, o empresário chamou um eletricista para retirar os fios do chão, limpou a sujeira acumulada derivada da combustão, colocou um tapume no chão e fez uma entrada alternativa para vender pães normalmente. O esforço de Iran para reerguer a padaria logo foi abraçado pelos 27 funcionários que ele coordenava.

“Eles se reuniram no primeiro dia e deram uma força dizendo que não precisaria pagar salário para eles naquele mês, para colaborar. Mas, foi tudo tão bem, que não precisei fazer isso. Aquilo para mim foi muito importante", afirma.  

 Peça-chave  
 
Manter o pilar de qualidade, atendimento e ambiente em cada uma das unidades é o segredo de diferencial no mercado, segundo Iran. Além disso, ele aposta na variedade como elemento-chave para cativar novos clientes e manter os já tradicionais do lugar.  

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A loja matriz da Costa Mendes tem mais de 2 mil metros quadrados onde são fabricados e vendidos mais de 1.900 produtos Helene Santos

A loja matriz, por exemplo, tem mais de 2 mil metros quadrados onde são fabricados e vendidos mais de 1.900 produtos, entre pães, bolos, salgados e pizzas, além de sopas e sushis – sem contar os menus self-service e à la carte. Para completar, resgatando a experiência comercial de quando trabalhava com o pai na mercearia, Iran sempre pergunta aos clientes como ele pode melhorar o atendimento.

Por isso, dispõe nas prateleiras mais de três mil produtos, de iogurte a itens de higiene pessoal em sua loja. “A persistência em acreditar e a força de vontade foi o que fez toda a diferença. E, obviamente, com muito trabalho é possível chegar ao seu objetivo”, determina. 

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