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Búzios e concursos

E stou em férias. Um direito e necessidade de todos, mas algo bem mais simples e seguro de se tirar no serviço público. Na iniciativa privada, conheço vários amigos que ficam estressados imaginando se não serão demitidos logo após seu retorno. Graças ao concurso, minhas férias são mais tranquilas. Por conta do descanso, fui para Armação de Búzios, famoso balneário no Rio de Janeiro. E por qual razão uma coluna vem falar desses assuntos para quem talvez esteja sem tempo, férias ou grana para ir a Búzios ou qualquer outro lugar legal? Ou para quem férias seja um desejo distante? Não estou tirando onda. Se fosse para tirar, estaria em Búzios. Estou aqui para lhe animar, falando sobre as férias que você vai merecer, lá. Ou em outro lugar que preferir.

Se você quiser uma casa de praia, vá ser empresário, artista, jogador de futebol, coisa parecida. Os vencimentos do serviço público são excelentes, mas limitados. É uma opção de vida: você não vai ficar rico, mas também não vai perder o que tem da noite pro dia, nem vai viver estressado e sem horários como empresários, artistas e jogadores vivem. É uma escolha pessoal. Ah, os caras que estão roubando no serviço público e têm fortunas? Claro que não esqueci deles. Mas não vale a pena. Conheço vários e ainda não encontrei um que tenha paz. Alguns são pegos mais cedo ou mais tarde e aí o crime não compensou. Quanto aos que nunca são pegos (e existem alguns), já percebi que não são felizes, não têm paz.

Voltemos a Búzios. Fui caminhar pela praia, descalço, esposinha do lado, uma maravilha. A praia tem o nome de Ferradura por que é exatamente esse seu desenho. A praia é técnica e geograficamente falando, uma pequena enseada. Assim, não vi o oceano Atlântico no início mas, no exato meio da praia, é possível vê-lo claramente. Viciado em concurso é assim mesmo: pensei nos concursos. Imaginei que se o mar fosse o objetivo, seria preciso estar no meio da praia para vê-lo melhor e perceber que a entrada da praia podia até ser pequena, mas que dá para passar por ali.

Se você estiver se achando sem saída em algum problema de sua vida, seja ele seu casamento, seu emprego, seus sonhos ou seu cargo público, provavelmente sua questão é de ângulo. Você está vendo as coisas do ponto de vista errado, ou obliquamente, ou muito do canto, ou sem ver de cima, da perspectiva exata. Se você não está vendo o mar, camarada, é porque está meio de lado. Vá para o centro de sua vontade, de seu sonho, de seus planos. Dali, a entrada é suficientemente grande e o mar, visto dali, enorme, bonito, perfeitamente possível. Quando estiver navegando na enseada, em direção ao mar, lembre-se do provérbio romano que diz: "se não houver vento, reme". Assim, focado, com ou sem vento, remando, o mar é um destino. Como digo no mantra número 7, "O concurso não é um obstáculo, o concurso é um caminho." Esse mantra foi inspirado em Amyr Klink, que diz que "o mar não é um obstáculo, o mar é um caminho". Por isso Amyr Klink é um navegador; por isso nós somos concurseiros.

William Douglas é juiz federal, professor universitário, palestrante e especialista em provas e concursos