25 anos de humor

Ao comemorar as bodas de prata de um feliz casamento com sua personagem, a estouradíssima Rossicléa, Valéria Vitoriano faz um retrospecto da carreira. Ao Zoeira, relembra o começo e fala sobre a cena humorística

Aos 43 anos, Valéria Vitoriano se consagrou no cenário humorístico na pele da personagem Rossicléa. Considerada a dama do humor cearense, ela começou a carreira aos 17, no ano de 1988, em um tablado, na Praia de Iracema, durante uma manifestação política.

Para dar vida à Rossicléa, Valéria se inspirou na personagem de Regina Duarte em "Roque Santeiro", a viúva Porcina FOTO: BRUNO GOMES

A ideia para dar vida à personagem surgiu anos antes, como uma forma de brincadeira. "Antes de levar a Rossicléa para a rua, eu joguei a voz dela no rádio. Sempre brinquei muito com a voz, sempre fui de criar tipos e sofria de insônia todos os dias. De madrugada, naqueles programas de rádio que o pessoal ligava para mandar beijo para a família, para o amigo, eu ligava, como ouvinte, e fazia a voz da Rossicléa. Logo em seguida, as pessoas ligava rindo, elogiando minha performance. Eu fazia isso brincando, para gravar a voz em uma fita e mostrar para as amigas no colégio".

Hoje, já conhecida nacionalmente e um dos principais nomes do humor cearense, Valéria coleciona fãs por onde passa. Para ela, o sucesso veio desde o primeiro momento em que arrancava gargalhadas das colegas de classe. "Minha ideia de sucesso era aquilo ali. Me sentia bem com minhas amigas rindo. Eu sou filha única e estudei a vida toda em um colégio de freiras. Meus pais queriam que eu fosse advogada, professora... e a mulher resolve ser artista", comenta aos risos.

No começo, relembra, foi difícil. Depois da primeira apresentação improvisada, a partir de uma carta de recomendação feita por um jornalista conceituado da época, Valéria começou a se apresentar em bares e restaurantes. Em 1989, no Pirata Bar, fez o que considera seu primeiro show de humor de fato, ao lado de Meirinha (Karla Karenina).

"Minha família não aceitava no início. Tinham medo do meu envolvimento com drogas, com coisas erradas, mas tive uma boa formação. Uma vez, um amigo do meu pai foi ver uma apresentação minha. Ele quem incentivou meu pai a ir me assistir e, assim, eles perceberam que tudo estava indo bem", conta.

Já em carreira solo, no programa "Rossicléa Vai", na extinta TV Manchete, veio o primeiro convite para se apresentar fora do Ceará. "A diretora do programa da Hebe [Camargo] quis levar a Rossicléa para todo o Brasil", conta. De lá pra cá, Valéria passou pelas maiores emissoras do País, até chegar ao "Show do Tom", onde ficou até a última gravação, em 2011.

Inspiração

O batismo, como Rossicléa, surgiu a partir do nome de uma empregada que trabalhava na casa de sua avó. "Ela se chamava Roseclea. Eu queria uma coisa mais vogal, mais acesa. Troquei o ´Rose´ por ´Rossi´ e acho que funcionou".

Inspirada também na viúva Porcina, personagem de Regina Duarte na novela "Roque Santeiro" (1986), o processo de criação do visual da personagem foi lento. "Eu pegava o que tinha. Usava o resto de maquiagem da minha mãe, roupas bem coloridas e o penteado ficava por conta da minha avó, que fazia uns cachinhos", explica.

Hoje, com um acervo recheado de perucas e vestidos com cores exuberantes, Valéria leva cerca de 50 minutos para se transformar no seu alter ego. Ela é a responsável por tudo: prepara a pele, escolhe a melhor sombra, o melhor batom, o cabelo que mais combina com o tom da roupa e as bijus.

"Rossicléa" completa 25 anos; veja vídeo




Humor no Ceará

Na época em que começou, faz questão de contar, o cenário humorístico no Ceará praticamente não existia. "A única referência que tínhamos era Renato Aragão e Chico Anysio, que, para a gente, era um universo muito distante".

Hoje, completa, com vários artistas locais se destacando pelo País, ser comediante e cearense é um cartão de visitas. Há seis anos à frente do show da Lupus Bier, como produtora e atração exclusiva às terças, quintas, sextas e sábados, Valéria diz que receber o carinho do público é gratificante.

"É muito bom ver o reconhecimento ao nosso trabalho. Quando vão ao show, os turistas dizem que é melhor ver ao vivo do que na TV. Esse feedback é muito importante", comenta.

Sobre um dos momentos mais marcantes da carreira, destaca ter atuado ao lado de Dercy Gonçalves.

No palco

Em 2007, Valéria teve a oportunidade de subir ao palco com a "lenda" em apresentação única. Do grande dia, ficaram boas lembranças. "Ter estado com a Dercy foi um grande presente, pois respeito muito o que ela passou. Eu me sinto abençoada por ser uma centelha de luz na frente de todas essas estrelas".

Em 2007, se apresentou ao lado de Dercy Gonçalves FOTO: DIVULGAÇÃO

Como ídolos, ainda cita os conterrâneos Renato e Tom. "Ver o ´Show do Tom´ acabar foi uma das minhas grandes dores. Só não doeu mais pois sei que ele está bem, morando em Los Angeles, fazendo cinema. Já o Renato, quando soube que ia contracenar com ele, passei três dias com medo, achando que não ia conseguir. Quando estava de frente com o Didi, me lembrei de toda a minha infância. Todo domingo meu era para ver ´Os Trapalhões´ na TV".

Com um programa na web - o "Rossicléa na Gandaia", no ar toda terça-feira por meio do canal "TV Somzoom" (http://.youtube.com/user/WebTvSomzoom) -, Valéria comemora a chance de estar mais próxima do público. "O humor na internet veio pra ficar e estou achando maravilhoso poder fazer parte de mais uma vertente", diz.

O sucesso é tanto, que, em um vídeo onde faz a cobertura do show da Beyoncé em Fortaleza, Rossicléa atingiu mais de 18 mil visualizações.

A comediante também acaba de lançar um novo CD com doze canções inéditas, o "Rossi Hits", à venda nas lojas e no site da humorista (rossiclea.com.br). "Cantar também é uma necessidade minha. As músicas foram feitas em parceria com o Ricardo Diamante e com o Sérgio Sampaio, que também é meu marido. É muito gratificante ver que criei uma personagem que não cansou, que está sempre se renovando e recebendo o carinho do público", diz.

Os clipes de quatro músicas - "Casa de Madeira", "Bonde do Buxão", "Dormi no Terminal", e "Peguei meu namorado com uma quenga" - também já estão disponíveis em seu canal do YouTube (/humordeprimeira).

Nas redes sociais, Rossicléa é sinônimo de sucesso. No Facebook, sua fan page, em menos de seis meses, reúne mais de 78 mil seguidores. No Instagram (@rossiclea), aos poucos, também ganha seu espaço.

Confira entrevista de Rossicléa para a TV DN




Comedida

De cara limpa, confessa, é mais comedida. "A Valéria é mais quietinha, mais na dela. O que não posso falar como Valéria, falo como Rossicléa. Talvez eu seja mais calma como Valéria para virar um furacão quando subo no palco", analisa.

A humorista também comemora a boa fase na vida particular. Em seu segundo casamento, é mãe de dois filhos (um menino, de 12 anos, e uma moça, de 19) e administra uma academia. "Nunca estive tão bem", comemora.

Cheia de planos, revela estar tocando mais projetos, que ainda não podem ser revelados. Mas uma coisa é certa: quer voltar a cursar Jornalismo, que começou há alguns anos e não terminou. "Nunca consegui fazer por conta das viagens, dos shows, mas agora que estou estabilizada em Fortaleza, quero continuar. Gosto muito de comunicação. Se eu não fosse humorista, seria jornalista ou professora. De qualquer maneira, eu estaria em cima de um palco, me mostrando".

"A primeira vez que eu vi a Rossicléa foi na Ponte Metálica. Ela chegou toda espalhafatosa para divulgar um show no Pirata Bar e eu achei muito engraçado. Na época eu tinha 17 anos, e, como não tinha dinheiro para a entrada, fazia questão de assistir à apresentação da grade".

Luís Antônio Costa
Humorista

"Conheci a Rossicléa na década de 90. O que mais me chama atenção nela é seu pensamento rápido, seu timing. Hoje em dia tenho o enorme privilégio de estar perto da Valéria, inclusive fazer parte de seu novo CD. Na minha opinião, ela é atualmente a melhor humorista do Brasil".

Ricardo Diamante
Compositor

JACQUELINE NÓBREGA
REPÓRTER