As 16 formas de enxaqueca e seus sintomas em comum

Na maioria dos casos, as crises de enxaqueca não indicam a existência de doenças associadas. Só o médico pode avaliar

Dr. João José Carvalho
"Não há indicação de eletroencefalograma ou mapeamento cerebral em pacientes com enxaqueca" diz o Dr. João José Carvalho foto: FERNANDA SIEBRA

Ela pode ser episódica ou crônica, como no caso das pessoas que têm crises por mais de 15 dias num mês, conforme descreve o presidente da Sociedade Brasileira de Cefaleia, Marcelo Ciciarelli. Mas o fato é que as 16 formas de apresentação da enxaqueca partilham sintomas em comum. São eles que possibilitam o diagnóstico do problema e o diferenciam de outros tipos de cefaleia, como a tensional (ou tipo tensão), que atinge 97% das pessoas em algum momento da vida.

Entretanto, não bastassem a dor e os sintomas sistêmicos, algumas crises vêm acompanhadas de sinais neurológicos chamados auras, que se manifestam de diferentes formas. Dentre as mais comuns estão a visual, a sensitiva e a disfásica. Repentinas, elas normalmente antecedem as crises e duram de alguns minutos até uma hora. A boa notícia é que as sensações, embora perturbadoras, são completamente reversíveis.

Tipos de aura

A aura visual, segundo João José Carvalho, se caracteriza pelo aparecimento de pontos brilhantes ou escuros em meio a um borramento da visão. Normalmente, ela evolui por um intervalo de 10 a 15 minutos e, quando desaparece, vem a dor de cabeça.

Já a aura sensitiva se manifesta por formigamentos que começam na mão e sobem pelo braço até chegarem ao rosto. O tipo disfásico, por sua vez, deixa o indivíduo com dificuldades de se expressar, atingindo inclusive a capacidade de articulação da fala.

"Essas são as mais comuns, mas temos também a motora (hemiplégica), a do tronco cerebral, que pode vir com tontura, e a aura retiniana, que pode deixar o indivíduo sem enxergar metade do campo visual", cita o neurologista, acrescentando que, apesar das diferentes formas, a enxaqueca sem aura corresponde a 80% dos casos.

Outras doenças?

E, sabendo que a dor não é um processo normal, é até comum pensar que o desconforto geralmente sinaliza que algo mais no organismo não vai bem. Quando se trata de uma cefaleia como a enxaqueca, então, as especulações - e preocupações - propagadas pelo senso comum só aumentam. Será que as crises indicam uma doença associada? Na maioria dos casos, não.

"Se um paciente me diz que está com dor de cabeça, ele está me dizendo que o alarme da cabeça dele está tocando. Quando esse alarme toca, há duas situações: pode ter algo na cabeça fazendo-o disparar - essa dor de cabeça é chamada de secundária e esse 'algo' pode ser uma meningite ou um tumor cerebral, por exemplo - ou, na verdade, pode ser uma dor primária, como a enxaqueca, ou seja, uma desregulação do mecanismo cerebral de controle da dor".

Cefaleia primária

De fato, quase sempre não há nada a ser "investigado". O médico, que é especialista em dor pela Academia Brasileira de Neurologia, aponta que, de cada 100 pacientes que chegam a uma emergência, 90% recebem diagnóstico de algum tipo de cefaleia primária.

Nos atendimentos realizados em consultórios, segundo ele, esse porcentual chega a 98%. Para identificá-las, é suficiente conhecer a história do paciente e realizar o diagnóstico clínico. Exames complementares como tomografias e ressonâncias são necessários apenas numa minoria de casos.

Fatores de alarme

Mas em que situações uma dor de cabeça merece atenção redobrada? O próprio corpo dá os sinais, por meio dos fatores de alarme. Quando a crise surge com uma mudança de postura, é relacionada com esforço ou exercício físico, chega ao pico em menos de um minuto ou, ainda, é refratária ao tratamento, uma avaliação médica precoce é essencial.

"Se um paciente me diz: 'Doutor, eu tenho dor de cabeça há muitos anos, mas de um tempo para cá mudou', ele deve ser avaliado. Se for na emergência, com uma tomografia. No consultório, com uma ressonância magnética. Vale ressaltar, porém, que não há indicação de eletroencefalograma ou mapeamento cerebral na abordagem de pacientes com enxaqueca", afirma o médico.

Quando a crise se confunde ao AVC

Para as pessoas que têm enxaqueca, sobretudo com aura (sintoma neurológico que se manifesta de diferentes formas e pode ocorrer antes e, às vezes, durante uma crise de cefaleia), um episódio pode ser confundido com uma das doenças que mais levam ao óbito no mundo atualmente: o Acidente Vascular Cerebral.

A dúvida acontece porque, no caso da aura hemiplégica, o enxaquecoso começa, repentinamente, a sentir fraqueza em um dos lados do corpo, que chega a ficar paralisado. A sensação permanece, em média, por cerca de 30 minutos, seguida por uma forte dor de cabeça.

O problema é que, ao contrário de outros tipos de auras que duram, no máximo, uma hora, a hemiplégica, em alguns casos, pode ser sentida por até um dia, o que confunde mais ainda.

"Essas pessoas devem procurar imediatamente, de qualquer modo e sob qualquer circunstância, um hospital para serem adequadamente avaliadas e tratadas", recomenda o médico neurologista João José Carvalho.

Como um fator de risco

Adicionalmente, diversos estudos comprovam que a enxaqueca, sobretudo a do tipo com aura, figura hoje como fator de risco para a doença vascular cerebral. Desse modo, os enxaquecosos com mais de 40 anos devem adotar um controle mais rigoroso dos já conhecidos fatores de risco para o AVC, tais como: a hipertensão arterial, o colesterol elevado, o sedentarismo e o diabetes, além do tabagismo e do uso abusivo de álcool.

"O controle desses fatores de risco deve ser mais enfático, porque esse tipo de cefaleia já é, por si só, um fator de risco para a doença vascular. Se você o soma a outros preditivos, obviamente terá um risco aumentado de sofrer um AVC", reforça o médico.

Atenção, mulheres

Por isso, para as mulheres que têm crises de enxaqueca com aura, há, ainda, uma outra recomendação: não usar anticoncepcionais combinados. Ele explica que existem dois tipos dessa classe de medicamentos: os que são à base de progesterona e os combinados, compostos também por um outro hormônio, o estrógeno.

O alerta está no fato de que o estrógeno presente nos anticoncepcionais combinados possui uma ação pró-trombótica, que facilita a formação de trombos. "Assim, se você toma uma medicação que facilita a formação de coágulos e tem predisposição para a doença vascular, isso não é bom", explica. A indicação, portanto, é que as mulheres - mais acometidas pela enxaqueca com aura - conversem com o ginecologista sobre a possibilidade de usar anticoncepcionais à base de progesterona.

SAIBA MAIS

Doutor, quando devo me preocupar e buscar ajuda médica imediata?

Quando identificar como sendo a primeira ou a pior dor de cabeça que já teve até então. Atenção especial se o início do processo doloroso for súbito, como uma explosão. Isso pode indicar um aneurisma cerebral;

Quando é uma dor de cabeça iniciada após os 50 anos de idade, ou seja, quando trata-se de uma pessoa que nunca mencionou uma dor e começou a queixar-se. Neste caso, é preciso avaliar bem, pois pode tratar-se de uma arterite temporal;

Quando o indivíduo relatar uma dor de cabeça que se tornou cada vez mais intensa e frequente. Uma avaliação minuciosa é necessário, pois pode ser um tumor;

Quando a dor de cabeça atinge pacientes com diagnóstico de câncer ou de Aids;

Quando a dor de cabeça ocorre em pessoas que apresentam uma má alteração no exame neurológico. Caso: o exame neurológico era normal e, após a dor de cabeça, o exame apresentou uma alteração;

Quando o paciente apresenta dor de cabeça associada a febre ou sinais de irritação meníngica;

Quando a dor afeta pacientes com traumatismo craniano;

Quando a pessoa apresenta mudanças nas características da dor ou crises persistentemente de um só lado da cabeça.

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