Uma história de Frei Tito de Alencar

"Morrer para viver", biografia do cearense Frei Tito de Alencar, escrita pelo o holandês Ben Strik ganha tradução. O livro será lançado amanhã, no Museu do Ceará, com a presença do autor

Tito de Alencar Lima contava 28 anos quando morreu na pequena Évreux, nos arredores de Lyon, na França. O Brasil estava longe, mas o frei dominicano carregava na bagagem a memória dos sofrimentos que passara no País. Corria no ano de 1974, e com ele se chegava à triste marca de uma década do regime militar brasileiro. O sofrimento ao qual Frei Tito havia sido submetido - variados tipos de tortura física e psicológica - ainda era imposto a muitos dos opositores do regime. Ainda atormentado pelas dores da tortura nas mãos dos militares, Frei Tito deu fim a sua própria vida em 10 de fevereiro daquele ano. Registrou num bilhete: "só posso viver ser morrer".

Essa história, mais um dos dramas políticos do período negro da Ditadura Militar, é recontada no livro "Morrer para viver". Mais extensa biografia daquele que é considerado um dos mártires da ditadura brasileira, a obra foi escrita pelo holandês Ben Strik. Lançado originalmente em holandês em 2005, o livro acaba de ganhar tradução para o português. Strik lança seu livro em Fortaleza, na terra de Tito, amanhã, às 18h30, no Museu do Ceará.

O livro, impresso na Holanda, traz mais de 700 páginas de texto, com ilustrações que mostram cenas do período em que o dominicano esteve vivo, e de repercussões a sua morte, que chegam aos dias de hoje. Strik não se prende apenas aos episódios da vida de Frei Tito. Sua reconstituição é panorâmica, procurando dar uma ideia do clima político do País, entre os anos 1960 e 1970. Veterano da II Guerra Mundial, onde combateu os nazistas, Strik viveu no Brasil entre 1950 e 1972, trabalhando com povos indígenas e camponeses. Foi embora por conta do clima repressivo.

Convergência de dramas

O olhar de estrangeiro de Strik, sua preocupação em apresentar ao leitor europeu a pouco conhecida história política brasileira, dá ao livro um tom didático. Isso faz com que, apesar da profundidade do texto, ele seja acessível mesmo para aqueles que não estão familiarizados com a história do religioso cearense. O prefácio do livro é assinado por Frei Betto, dominicano brasileiro, amigo e companheiro de lutas políticas de Tito. Betto é o autor do best-seller "Batismo de Sangue" (1982), que conta a história do envolvimento de um grupo de freis dominicanos na luta contra a Ditadura, e que termina com a violenta repressão que levou Tito à tortura, à morte longe de casa, mas sem esquecer o que sofreu nas mãos da equipe do delegado Sérgio Paranhos Fleury (1933 - 1979). O corpo de Frei Tito só retornou ao Brasil em 1983, às vésperas da abertura política, e quando a anistia de 1979 já havia permitido o retorno ao País de muitos de seus companheiros de ideologia.

FIQUE POR DENTRO

HISTÓRIA DE FREI TITO FOI RECONTADA EM OUTROS LIVROS E EM PROJETOS DE DIVERSAS LINGUAGENS

Publicado pela primeira vez em 1982, "Batismo de Sangue: os dominicanos e a morte de Carlos Marighella" logo ganhou traduções para o italiano (1983) e para o francês (1984), onde se chamava "Os irmãos de Tito". A obra de Frei Betto (foto) não contava apenas a história do cearense, mas do grupo de dominicanos engajado na luta contra a Ditadura Militar do qual ele fez parte. Betto relata o sofrimento de seus companheiros Frei Ivo e Frei Fernando, também torturados para entregar aos militares a localização do líder guerrilheiro Carlos Marighella (1911 - 1969). Enquanto Tito se manteve calado, seus companheiros não suportaram a violência dos torturadores. Já Tito não se livrou das marcas deixadas pelo delegado Sérgio Paranhos Fleury. O livro ganhou uma nova edição em 2007, com a adição de novos dados sobre o assassinato de Maringuella.

Em julho de 1992, estreou em Fortaleza "Frei Tito, vida, paixão e morte" (foto), peça de teatro com texto do dramaturgo cearense Ricardo Guilherme, com direção de B. de Paiva. O texto foi encenado por atores de uma companhia de Brasília, a Escola de Teatro Dulcina de Moraes. A peça descrevia a trajetória de Tito de forma linear, partindo de seus primeiros contatos com os movimentos políticos, ainda na Capital; sua entrada na ordem dominicana e o subsequente apoio à guerrilha; a tortura e a morte no exílio. À época, a peça dividiu opiniões da crítica. Elogiadas por uns, foi acusada de ser demasiado simplista ao tratar o conflito entre a Ditadura e seus opositores, além do próprio drama de Tito de Alencar. Em cena, a produção usou recursos como slides, a "edição" com músicas da época e um narrador que dava notícias da época.

Em 14 de setembro de 2005, foi aberta no Museu do Ceará a exposição "Sala Escura da Tortura", para marcar os 60 anos de nascimento de Frei Tito de Alencar. A mostra ficou em cartaz até o 30 de novembro daquele ano. A exposição criava um círculo de imagens fortes, formado por sete quadros de 2 metros cada, trazendo figuras humanas em tamanho natural, reproduzidas em tons de cinza. Quadros produzidos no início da década de 1970, na França, a partir dos relatos do religioso. As obras são assinadas por artistas como os argentinos Julio Le Parc e Alexandre Marco, o uruguaio Gamarra e o brasileiro Gontran Guanaes Netto. O Museu do Ceará ainda mantém a exposição permanente "Memorial Frei Tito", com objetos pessoais do religioso; e lançou o livro "Frei Tito: em nome da memória", de Régis Lopes e Martine Kunz.

Em 2007, o livro de Frei Betto ganhou uma adaptação para os cinemas. Dirigido por Helvécio Ratton, "Batismo de Sangue" trouxe no elenco Daniel de Oliveira (Frei Betto), Cássio Gabus Mendes (Delegado Fleury), Ângelo Antônio (Frei Oswaldo) e Caio Blat (foto), no papel de Frei Tito de Alencar. O filme segue a mesma estrutura do livro, acompanhando o envolvimento dos jovens religiosos com a esquerda. O longa-metragem foi bem aceito pela crítica e incluído em listas dos melhores filmes brasileiros do ano. No Festival de Brasília, o longa-metragem venceu nas categorias "Melhor diretor" e "Melhor fotografia" (Lauro Escorel). Surpreendeu a direção de Ratton, cineasta veterano mais conhecido pelo leve "Menino Maluquinho". Ao contar o drama dos dominicanos, o diretor não economizou cenas fortes, para reproduzir a violência da tortura.

BIOGRAFIA
"Morrer para viver"

Ben Strik
Tradução: Dolly Jurrius e João Bosco Feres
716 páginas
2009
BRASILHOEVE
Lançamento amanhã, às 18h30, no Museu do Ceará (Rua: São Paulo, nº 51 - Centro). Contato: 3272-3823 / 8631-6386 / 3101-2610


DELLANO RIOS
REPÓRTER