Um universo muito maior que o livro

Ayla Andrade: acho que brinco de O médico e o monstro na minha literatura. O poema é o médico: acurado, cheio de labor, fechado, quase sombrio; e o conto, claro, o monstro: verborrágico, fanfarrão, sexual
Ayla Andrade: acho que brinco de O médico e o monstro na minha literatura. O poema é o médico: acurado, cheio de labor, fechado, quase sombrio; e o conto, claro, o monstro: verborrágico, fanfarrão, sexual FOTO: RODRIGO CARVALHO
Para Ayla Andrade, a poesia é um processo laboral de encontrar sempre a palavra mais certa. É quase-dor

As referências literárias de Ayla Andrade são muitas. A contista Dorothy Parker esteve, durante muito tempo, entre suas principais leituras. "Pesquisei, vi filme, apresentei trabalhos e hoje Dorothy Parker está meio adormecida", diz a poeta que também visita Drummond, Clarice Lispector, Manuel Bandeira, Hilda Hilst, entre tantos outros. "Mas acho que, de todos, o que mais influenciou minha escrita foi Mário Quintana. A forma como ele deixava você completar o poema, num fôlego seu, reticências, como se o poema não tivesse fim nunca e continuasse existindo. Sempre achei genial e singelo", explica.

A relação de Ayla com a literatura remete à infância. Ela teve o privilégio de ter uma biblioteca em casa. Os pais dela sempre liam e tinham livros novos, o que serviu de estímulo para que a menina se tornasse uma grande leitora. Não demorou muito para que quisesse contar suas próprias histórias. "Escrevi o meu primeiro poema porque me apaixonei por um carinha na escola. Ele nunca leu. Não tive coragem de mostrar. Mostrei a uma amiga e ela copiou e mandou pro namorado dela. Era um poema romântico, mas sensual, cheio de pieguice de beijos, corpo, mãos. Clichê total, mas acho que funcionou pra minha amiga", recorda Ayla.

Ayla tem uma ligação forte com a poesia local. Cita Uirá dos Reis, com que mantém um constante diálogo, Léo Mackellene e Ylo Barroso. "Vimos nossa literatura se desenvolver e fazer parte disso é muito valoroso", diz a poeta que durante algum tempo esteve à frente do Projeto Literatura de Lua, na Livraria Lua Nova, onde a leitura dos escritores locais acabou se tornando um hábito.

Os prazeres

A poesia de Ayla tem um quê de intimidade. "É um processo laboral de encontrar sempre a palavra mais certa, a que resume melhor aquele sentimento. É quase-dor". Vivências, dores, desamores, partidas são algumas das temáticas impressas em seus poemas. "Acho que brinco de ´O médico e o monstro´ na minha literatura. O poema é o médico: acurado, cheio de labor, fechado, quase sombrio; e o conto, claro, o monstro: verborrágico, fanfarrão, sexual". O que inspira Ayla é quase sempre é a cidade e o que vê acontecer da janela do carro, do ônibus, das pedaladas. "Pequenos acontecimentos, que não parecem ter muito significado, mas que ficam ruminando na minha cabeça e me dá uma coceira na mão até eu escrever", diz.

Ayla diz que uma das dificuldades de ser poeta está na falta de leitores. "Nem falo de grandes lançamentos de livros, festas exuberantes e reconhecimento de toda a sociedade cearense, mas uma maior aproximação do público local com essa literatura. As livrarias e os eventos, mesmo que pequenos, ainda ficam presos aos livros e autores de última hora e renomados".

Por que o brasileiro lê pouco? Ayla acredita que o leitor brasileiro sempre escuta que livro é caro. "Esqueceram de dizer a ele que existem bibliotecas e sebos. E depois, porque a gente aprende tudo errado. Que ler é chato, que a gente lê pra fazer prova, pra preencher ficha de leitura. E quanto ao poema, a gente aprende que é coisa difícil e que precisa de muito tempo pra entender". A poeta propõe uma desmis-tificação da poesia e afirma que "a leitura é um universo muito maior do que um livro".

A poeta

Ayla Andrade é assistente social de formação, escritora por teimosia. Publicou nas revistas Caos Portátil, Academia Onírica (PI), nas Antologia de poemas MassaNova e Encontos e Desencontos e tem um blog: umaescadaparaonada.blogspot.com. Está todas as segundas com o Projeto BadTripa em um bar do Benfica. Pedala pela cidade, tem na cabeça e nas mãos alguns projetos do coração e agora espera um filho. (DP)