Sopros de vitalidade

Quinta edição do Festival Harmônica Brasil fechou com boas atrações. Gaitistas comprovaram a versatilidade do instrumento

Diferente de outros eventos musicais do calendário das artes no Ceará, o Fórum Harmônica Brasil não é um festival, em que as atrações se restringem ao que passa pelo palco. Com proposta de formação, de novos músicos e de público, a quinta edição do Fórum aconteceu no fim de semana passado, com apresentações musicais e oficinas, realizadas entre quinta-feira e domingo.

Uma das propostas do Fórum, que se ouviu da boca tanto dos organizadores quando dos músicos convidados, foi a de apresentar a gaita em sua complexidade. Interessava desfazer a inevitabilidade do laço que atava o instrumento ao blues. Não que fosse o caso de torcer o nariz para o gênero (tanto que Diogo Farias, organizador e uma das atrações desse ano, toca numa banda de blues). A ideia era simplesmente mostrar que, assim como os demais instrumentos, a harmônica não se limita a esse ou aquele estilo musical.

As apresentações da última noite do evento foram uma tradução precisa desse discurso. O paranaense Benevides Chiréia Jr. e o pernambucano Jehovah da Gaita se apresentaram acompanhados de músicos locais, em sets distintos entre si, mas marcados pela ausência do blues. Para contrapor-se a ausência desse, uma miscelânea que incluia jazz, tango, bossa nova, frevo e outras latinidades difíceis de definir. Tudo isso tendo a gaita de boca à frente.

Merece destaque a organização da noite. Essa começou sem os atrasos habituais em espetáculos musicais. Cuidado que enriqueceu ainda mais o bom nível dos músicos, do repertório escolhido e a qualidade do som (limpo e num volume nada agressivo). O público respondeu lotando o anfiteatro do Centro Dragão do Mar de Arte e Cultura - como já havia feito nas duas noites anteriores.

Aprendizes

A última noite do 5º Fórum Harmônicas Brasil foi aberta por uma atração inesperada. Vinte e quatro crianças atendidas pela Fundação Raimundo Fagner, que participaram de uma oficina introdutória à gaita de boca, improvisaram uma orquestra harmonicista e tocaram "Asa Branca", de Luiz Gonzaga e Humberto Teixeira. Foram "regidas" por Di Lennon Ribeiro e Rodrigo Bezerra, músicos e arte-educadores responsáveis pelo trabalho com a meninada.

Na sequência, Benê Chiréia entrou em cena, acompanhado pelo violonista cearense Cainã Cavalcante. Difícil crer que, como foi dito no palco, a dupla tenha se conhecido na semana passada, tamanho foi o entrosamento mostrado na performance. Destacaram-se, sobretudo, ao interpretar tangos. Tanto que, não poucas vezes, foi possível ouvir ecos do tradicional ritmo argentino em músicas de outras raízes. Caso de "Manhã de carnaval", tema de Luiz Bonfá e Antônio Maria, que abriu o show da dupla.

Seguiram para um terreno legitimamente argentino, recriando "Adios Nonino", composta por Astor Piazolla em homenagem ao pai falecido. Foi um dos grandes momentos da apresentação, alternando momentos de calmaria e tempestade, como os tradicionais agudos dramáticos do tango feitos na gaita, enquanto o violão contrabalançava, mais suave que o esperado.

Outro grande momento foi "Mercedita" (mais conhecida na interpretação do conjunto tradicional gaúcho Os Serranos), um tango de balanço mais latino. Aqui o destaque foi o arranjo quase flamenco de violão. Com o público já devidamente conquistado, Chiréia e Cainã ofereceram uma versão certinha (mas não desprovida de sentimento) do "hit" "Por una cabeza", de Carlos Gardel e Alberto Lepera - que ficou imortalizado na dança de Al Pacino, em "Perfume de Mulher". Também não faltaram bossas, mais jazz e até a caipira "Luar do Sertão".

O mestre

Jeohvah da Gaita subiu ao palco acompanhado por uma banda completa. Baixo (Miquéias dos Santos), bateria (Jó dos Santos) e Robson Gomes (teclados). Bem humorado, Jeohvah brincou com o plateia e ganhou sua simpatia antes mesmo de mostrar o que sabia. Gaitista experiente, como mais de 50 anos de prática no instrumento, ele fez um show pautado num repertório em que não faltaram outros mestres da música.

Abriu com uma versão de "Vou vivendo", de Pixinguinha, e fechou com a funkeada "Cantelope Island", de Herbie Hancock. No meio, voltou a encarnar Astor Piazolla ("Vuelvo al sul" - com destaque para a bateria jazzy de Jó dos Santos), João Donato ("A rã" - que teve um vigoroso e aplaudido solo de baixo), Hermeto Pascoal ("Bebê"), o tema de jazz latino "Saint Thomas", além de trechos de peças clássicas de Bach e de Frevo. Tudo com um acento mais dançante e quase pop.

E foi o mestre quem recebeu, no palco, os discípulos, para uma jam session, que reuniu os gaitistas que participaram dessa edição do Fórum.

DELLANO RIOS
REPÓRTER