Seu nome é Dedé Podre

Documentário "Tudo que é belo é podre" tem a missão de retratar um marcante personagem da cena punk cearense

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Um novo capítulo está sendo escrito em relação à memória de José Mendes de Sousa. Este cearense, assassinado em 1990, não concretizou feitos como gravar discos, escrever livros e estampar capas de revistas. Longe dos holofotes, trafegou por uma Capital composta por bueiros e invisibilidade. Sinônimo de resistência em meio a uma realidade árida, Dedé Podre, como era conhecido, representa um recorte da cena punk cearense fincada nos anos 1980.

>Feio, sujo e rápido 

>Manual de um sobrevivente 

>No olho do furação

O documentário "Tudo que é belo é podre", com exibição marcada para hoje, às 16h, no Auditório do Centro Dragão do Mar de Arte e Cultura (CDMAC) se lança como um resgate das histórias que envolvem este punk. Inédita, a obra vasculha os diversos pontos geográficos por onde Dedé circulou, e apresenta depoimentos de personagens da cena underground cearense, ex-companheiros de movimento punk, familiares e personalidades do cenário político-cultural daquele período.

Após a exibição, será realizado um debate sobre a obra. A mesa conta com a diretora Flor Fontenele e o doutor em Educação pelo Programa de Educação Brasileira da Universidade Federal do Ceará (UFC), Robério Sacramento. A programação conta com apoio da Associação Cultural Cearense do Rock (ACR).

Contextualização

Pesquisador dedicado ao temas das juventudes e da educação, Robério aponta que é preciso lançar um olhar sobre a Fortaleza na qual Dedé estava inserido. "Nos anos 1980, Fortaleza ainda tinha a presença da Ditadura. Mesmo que não tenha tido uma repressão ideológica como em outros estados. A repressão policial era muito grande. Era uma época em que a cidade estava transitando de uma forma mais antiga para a globalização dos anos 1990", contextualiza.

Dedé representa a precariedade dos jovens locais em adquirir instrumentos e formar um grupo. Outro elemento que salta aos olhos é o contingente de punks que mediavam subempregos e a baixa escolaridade com o desejo de se expressar e formar resistências.

Grande parte deste cenário está registrado em imagens captadas por Alexandre Veras e Rui Abtibol. Este acervo de imagens resgata um festival punk realizado no Teatro São José, na Praia de Iracema, em 1989. As imagens estão no YouTube com o nome "Movimento Punk de Fortaleza Dec de 80". Parte delas está no filme sobre Dedé Podre.

Flor Fontenele conhece bem este registro. Era uma das heroicas e heroicos jovens que participaram do festival. Três décadas depois, sua atitude está representada pela atuação atrás da câmera. A diretora aponta que o filme apresenta a visão de familiares e figuras que conviveram direta ou indiretamente com Dedé Podre. "Vamos conhecer Dedé sobre o olhar de outras pessoas. Está emocionante", assevera.

Dedé Podre ganha um registro necessário à memória da cultura fortalezense. Com o filme, não está sendo resgatado apenas os passos de uma isolada criatura. Sinaliza todo um caos social ainda presente nesta cidade desigual. Outros fizeram a cena, sejam eles a Flor, o Grilo, Bicudo, Cléber, Jomar Hendrix, Jorge AP, Mano (já falecido), Simão, Giri; ou as bandas Repressão X, Xerox Suburbana, Estado Mórbido, Explorados, Profetas do Lixo, Conflito Mundial, Zueira, Grillus Sub, Resistência Desarmada, HLV3+ e Estado Indigente; onde tiver resistência, Dedé Podre estará.

Mais informações:

Exibição do documentário "Tudo que é Belo é Podre". Sábado (26), às 16h, no Auditório do Centro Dragão do Mar de Arte e Cultura (R. Dragão do Mar, 81 - Praia de Iracema). Gratuito. Contato: (85) 3488.8600