Sanfonas, o sertão em sol maior

Climério Moura: “Em tudo quanto era cirquinho vagabundo eu tocava e nos forrós. Deu nos ouvidos, dava nos dedos”
Climério Moura: “Em tudo quanto era cirquinho vagabundo eu tocava e nos forrós. Deu nos ouvidos, dava nos dedos” Francisco Sousa
Uns dizem que esta gaita de foles, ou acordeão, foi inventada na França, por um certo monsieur Buffet, em 1827, outros por um anônimo vienense. Que diferença faz? E que outro instrumento se adaptou tão bem à multiculturalidade brasileira? Dizem que teria chegado ao Nordeste no tempo da Guerra do Paraguai (1864/1870), mas parece ter nascido aqui, em algum pé de serra, ou no oco do sertão

Evoca um universo de xotes, xaxados, e baiões, e tem em seu panteão, o “rei” Luiz Gonzaga, tradição brasileira, que se atualiza com Dominguinhos, Waldonys, e tantos tocadores anônimos, que fazem a festa, mesmo sem motivos para comemorar.

Sanfona que ecoou no Brasil inteiro, da caatinga à fronteira, acompanhada por uma zabumba, e um triângulo, nos terreiros, nos programas de auditório, e nas praças das metrópoles, onde se exibe um trio nordestino, ou quando, solitária, resfolega nas mãos do cego pedinte. Mais que um instrumento, um jeito de viver o mundo.

CLIMÉRIO MOURA

Nascido nas Contendas, a 12 léguas de Morada Nova, em outubro de 1919, Climério se mudou, em 1928, com o pai Luiz Moura, a mãe Maria Gomes, e onze irmãos, para Horizonte, então distrito de Pacajus.

O pai tivera umas terras, que foram do avô, onde plantava, mas os negócios desandaram. Morreu quando ele tinha 12 anos, e deixou a família sob a guarda do menino, que teve pouco tempo para estudar, já que a responsabilidade o levava para o trabalho, no caso para a música.

“Em tudo quanto era cirquinho vagabundo eu tocava, e nos forrós. Deu nos ouvidos, dava nos dedos”, faz o balanço hoje.

Casou em 1940, com dona Nair, e tiveram quatro filhos, nenhum sanfoneiro.

É grato ao maestro Coutinho, de Morada Nova, que o “abraçou” e, anos depois, chegou à conclusão de que Climério “tinha os dedos ligados nos ouvidos”.

Uma curiosidade é que improvisava na sanfona, como o pessoal do “jazz”, ou como os emboladores do coco, ele compara, “que estão dizendo, na hora, o que estão vendo, e tudo dá certo”.

Cantou até comprometer as cordas vocais, mas gostava mesmo dos solos, e tudo o que tocava era composto por ele. Guardava tudo na memória e, juntava fragmentos que resultavam em outras músicas, variações de um mesmo tema.

Outro fato digno de registro é sua capacidade de fabricar e afinar instrumentos. Como a sanfona de oito baixos oferecia poucas possibilidades improvisou, com o carpinteiro Joaquim Anastácio, uma de quarenta baixos, com armação de madeira, e botões de peças de rádio, que ainda hoje toca.

Também tocou sanfona “a piano” ( de 80 e 120 baixos) . E faz questão de tocar as duas, o que ficou explícito no disco que gravou para um selo paulista, em 1982.

Admira Luiz Gonzaga, mas “só gostei de tocar música minha”, diz categórico.

Aos oitenta e quatro anos, sem ter conseguido se aposentar, mora em uma casa no centro de Pacajus, em cuja varanda pontificam as pinturas primitivas de Chico Rita: paisagens do sertão, cenas de mar, e uma Iemanjá que encima o painel. Na garagem, uma sanfona desmontada, e um fuscão preto velho de guerra.

Conseguiu juntar alguns bens, teve uma fase boa, em que tocava muito, e comprou uns terrenos, onde construiu umas casas.

Reclama da vida, diz que há dez anos vive doente, queixa-se de “trabalho feito”, mas se transforma quando abre o fole da sanfona e executa suas composições. Difícil não se emocionar com a força que emana, com seu talento, com o som que os nostálgicos chamam de “pé-de-serra”.

Às vezes, toca com uns amigos, que se reúnem em sua casa, nos finais de semana, mas não faz festas. Ficam o eco e a memória de sua sanfona, neste mundo mágico do sertão.

CHICO PAES

Francisco Paes de Castro nasceu no sítio Felipe, a cerca de 40 km de Assaré, dia 23 de outubro de 1925. O avô, João Saturnino do Prado foi violeiro e rabequista, e o pai, João, agricultor, tocou sua sanfoninha, até morrer, em 1972.

Estudou pouco, “nas escolas de antigamente”. Aos oito anos de idade, Chico aproveitava quando o pai ia para a roça para mexer na harmônica: “eu tinha medo dele brigar”.

Um dia seu João, já desconfiado, abriu a porteira bem devagar, e flagrou o menino “bulindo” na harmônica. Ao invés da surra esperada, veio a palavra de estímulo: “meu filho, pode tocar, não precisa ter medo de mim não”.

Aprendeu olhando o pai tocar, e passou a acompanhá-lo nas festas, a partir dos dez anos. Quando tinha sono, conseguiam uma rede para o menino, que tirava um cochilo e, ao acordar, acompanhava o pai até raiar o dia.

Chico se notabilizou tocando em tudo quanto era festa, e, muitas vezes, acompanhou Patativa, que recitava, e depois saia de cena, para a poeira subir do chão.

O pai, autodidata, improvisara uma velha harmônica, até comprar a primeira, em Juazeiro do Norte. Chico começou na oito baixos, e depois passou para a sanfona “a piano”, que tocou durante vinte e dois anos, porque estava na moda, até compreender que sua relação com o “pé-de-bode” era visceral, e voltar de vez a ele.

Tem composições, que vão da marcha à valsa. Uma delas, “De Fortaleza a Messejana”, foi composta na volta a Assaré. O baião “Selma” faz o forró pegar fogo, mas a preferida é “Dedo Amarrado”, que exalta sua performance na sanfoninha, onde a tecla pressionada dá dois sons sucessivos e diferentes, no abrir e no fechar do fole.