Prevért para crianças possíveis. E impossíveis.

Eduardo Jorge discute a infância a partir de dois livros recém-lançados em português, do ainda desconhecido Jacques Prevért

Criança gosta de bicho. Frase simples, um axioma. Mesmo que maltrate o animal de tanto ‘carinho’, para trazer à tona a imagem de Felícia, a garotinha do desenho animado Tiny toons. Ou então um certo pavor, um medo, mas que ainda assim requer uma certa atenção no olhar. Dizem também que, quando pequeno, o contato com os bichos provoca o imaginário infantil, exercendo um certo fascínio e ao mesmo tempo um certo didatismo para aprender alguma coisa, alguma moral vinda de alguma fabulação. Basta retomar aqui a idéia dos bestiários medievais, uma coleção de fábulas moralistas ou religiosas sobre animais mitológicos e reais.

Parece que o homem deslocado da sua humanidade se permite aprender mais com o que é não-humano, animal. E esse outro, o outro: animal. O filósofo franco-argelino Jacques Derrida, em “O animal que logo sou”, faz o cerco: “É uma palavra, o animal, é uma denominação que os homens instruíram, um nome que eles se deram o direito e a autoridade de dar a outro vivente”. E ainda, para esticar mais esse fio, palavra que abriga as mais diversas espécies, demarcadas por diferenças; basta que se veja que a mesma palavra, animal, abriga tanto a formiga quanto o elefante.

Mais próximo da realidade, esse agrupamento de animais em um determinado espaço (para que outros humanos possam visitar) recebe o nome de zoológico. Lugar freqüentado inclusive por muitas crianças. Acredito que cada criança sonha um zoológico para si ou possui o seu zôo imaginário. Inclui-se aí o poder de ter muitos animais para brincar. Que sonho!

Entretanto, o fácil nem sempre é o pedagógico, o que ensina a. E entrar em um caminho sem moral da história, criar e propor um outro jogo com a linguagem, sobretudo para as crianças, é um dado de que realmente é preciso grafar algo que não está a serviço do que é didático simplesmente. Assim se apresenta Jacques Prévert (1900-1977), como uma dada possibilidade, a da linguagem como um desvio, como uma diferença.

Prévert, poeta francês que recentemente começa a ter sua produção publicada aqui no Brasil, nasceu em 1900. Entre 1925 e 1930, fez parte do grupo surrealista e depois, por desentendimentos com André Breton, deixou o grupo. Daí o que fica de dado importante é que o cotidiano passa a ser desautomatizado, esvazio de sua própria repetição, por uma construção lógica do que é pouco provável ou nem o é.

Jacques Prévert, poeta que tinha uma produção muito dispersa, teve uma obra que circulou copiada a mão ou datilografada e seus poemas ainda assim tinham uma boa circulação, pois havia várias pessoas que sabiam seus poemas de cor, quando não se tornaram canções. O que pode ser interessante de se pensar em uma época que para se firmar poeta, escritor, se precise de um livro.

Só para lembrar que Prevért já esteve no caderno de tradução de Carlos Drummond de Andrade e teve uma edição brasileira selecionada e traduzida, em 1985, por Silviano Santiago. Passadas algumas décadas, Prevért nos chega em livro, em poesia (2004) e em prosa (2007), via dois poetas - Carlito Azevedo e Alexandre Barbosa. A recém-tradução de Alexandre Barbosa de Sousa para “Contos para crianças impossíveis” soma-se à de Carlito Azevedo, de Dia de folga. Livros que podemos pensar em um diálogo possível, onde os animais, talvez descontentes com sua maior categoria taxonômica, tramam (e geralmente não fazem parte da trama do pedagógico e da moral da história) uma poesia cuja linguagem não é domada e ainda assim é muito divertida. Sim, Jacques Prevért, no Dia de Folga, nos chega mesmo imbuído de toda uma linguagem fácil, a do assobio nas ruas, ou melhor, de um ritmo marcado pelas solas dos sapatos, desgastadas de tanto caminhar e, como em uma canção medieval que não poupava qualquer criança, nos diz na voz de um gato que causou um rebuliço na aldeia: ´nunca devemos deixar as coisas pela metade´. Ou: ´o homem gosta dos animais, mas prefere seus móveis...´, como divaga um elefante-marinho em “Contos para crianças impossíveis”. Este último, escrito durante a ocupação nazista na França em 1947, traz como possibilidade a utilização da estrutura de contos clássicos, que pensa em torno da desobediência e do questionamento da autoridade.

Escrever algo para as crianças pensarem. Ou algo que não as subestimem, seja essa uma surpresa agradável em ambos os livros. Mesmo em toda a sua coloquialidade propõe um jogo mental com um poema que troca a repetição do dia-a-dia por uma maneira especial de olhar pinceladas sobre o invisível (ver o poema Para fazer o retrato de um pássaro, que abre Dia de folga). Com essa carga à imaginação crianças de todas as idades, possíveis e impossíveis, vão sair tramando zoológicos não só com animais selvagens, mas com poemas e textos que ainda não foram domesticados.

EDUARDO JORGE
Escritor*
*Escritor, Especialista em Estudos Culturais e Literários - UFC.

UM CONTO
O elefante-marinho
(tradução de Alexandre B. de Souza)

Aquele é o elefante-marinho, mas ele não quer nem saber. Elefante-marinho ou escargot da Borgonha, isso não tem a menor diferença: ele não está nem aí para essas coisas, não faz questão de ser ninguém.

Ele está sentado de barriga pra baixo porque se sente bem desse jeito:

TODO MUNDO TEM O DIREITO DE SE SENTAR COMO QUISER.

Ele está muito contente porque o zelador lhe dá peixes, peixes vivos.

Todo dia, ele come quilos e quilos de peixes vivos, é chato para os peixes vivos, porque depois disso eles ficam mortos, mas

TODO MUNDO TEM O DIREITO DE COMER COMO QUISER...

Ele come sem cerimônia, bem depressa, ao passo que o homem, quando come uma truta, primeiro a joga na água fervente e, depois de ter comido, ainda fala sobre ela durante dias, dias e anos.

´Ah, aquela truta, meu caro, lembra que delícia?!´ etc. etc.

Ele, o elefante-marinho, apenas come. Ele tem um olhinho muito bom, mas quando está com raiva, o nariz dele, em forma de tromba, se dilata e dá medo em todo mundo.

O tratador cuida muito bem dele... Mas nunca se sabe o que pode acontecer...

Se todos os bichos se zangassem, a história seria bem diferente.

Imaginem vocês agora o seguinte, meus pequenos amigos: o exército de elefantes da terra e do mar chegando em Paris. Que confusão...

O elefante-marinho só sabe comer peixe, mas isso é uma coisa que ele sabe fazer muito bem. Antigamente, parece que havia elefantes-marinhos que faziam malabarismos com cristaleiras, mas não dá para saber se é verdade... ninguém quer emprestar a cristaleira!

A cristaleira poderia cair, o vidro poderia quebrar, gerando despesas; o homem gosta dos animais, mas prefere seus móveis...

...Quando ninguém incomoda o elefante-marinho, ele fica feliz como um rei; muito mais feliz do que um rei, porque pode sentar de barriga pra baixo quando bem entender, enquanto o rei, mesmo no trono, está sempre sentado sobre o próprio traseiro.

(Do livro ´Contos para crianças impossíveis´)

POEMA
DIA DE FOLGA
(tradução de Carlito Azevedo)

Pus o meu quepe na gaiola
e saí com o pássaro na cabeça

Como é que é
não se bate mais continência?

Perguntou o comandante
Não
não se bate mais continência
respondeu o pássaro

Ah bom
queira me desculpar eu pensei que se batesse continência
disse o comandante

Está desculpado qualquer um pode se enganar
disse o pássaro.

(Do livro ´Dia de Folga´)

CONTOS: Cosac-Naify 2007 - 64 páginas - R$ 33. "Contos para crianças impossíveis", de Jacques Prévert

POEMAS: Coisac-Naify 2007 - 48 páginas. R$ 29. "Dia de folga", de Jacques Prévert