Preservação da memória e documentação em debate

Mesa-redonda vai discutir políticas públicas voltadas para a preservação de acervos em todo o Estado

Cerca de 3 mil pessoas visitam o Museu do Ceará a cada mês. Um público que cresce ano a ano, formado por alunos de escolas públicas, universitários, turistas de outros estados, gente do interior, pessoas de Fortaleza. Para manter seu vigor como espaço essencial de preservação e entendimento da memória, é necessário que se discuta políticas públicas para a área. Este é justamente o tema da mesa-redonda que acontece, hoje à noite, no auditório do Centro Dragão do Mar de Arte e Cultura.

O debate, organizado pela Secretaria da Cultura do Estado (Secult), faz parte das comemorações de 80 anos do Museu do Ceará e também do Arquivo Público do Estado do Ceará. Os dois equipamentos foram criados por decreto em 1932 e existiram juntos por quase 20 anos, primeiro em um prédio na rua 24 de Maio e depois na avenida Alberto Nepomuceno.

Hoje, as duas construções não existem mais, mas as instituições seguem como fonte de pesquisa e preservação da memória do Estado.

Participam da mesa-redonda "Políticas Públicas para a Preservação de Acervos Documentais e Museológicos", o secretário da Cultura do Ceará, Professor Pinheiro, o diretor do Arquivo Público, Márcio Porto, a diretora do Museu do Ceará, Cristina Holanda, a diretora do Instituto Brasileiro de Museus, Rose Miranda e o representante do Arquivo Nacional, Vitor Fonseca. A ideia é colocar em linhas pragmáticas as políticas nacional e estadual em relação a arquivos e museus.

Para Cristina Holanda, as políticas públicas federais passaram por um grande avanço nos últimos anos, com a implementação do Sistema Brasileiro de Museus (SBM), em 2004. A formação de uma rede de parceiros facilita o diálogo entre museus e instituições afins. Uma estratégia reforçada com a criação do Instituto Brasileiro de Museus (Ibram), cinco anos depois. O órgão, vinculado ao Ministério da Cultura, é responsável pela Política Nacional de Museus e pela melhoria dos serviços do setor.

As últimas ações do governo federal resultaram em prêmios, editais e concursos de incentivo aos museus, além de cursos de capacitação e até mesmo de museologia - uma antiga carência no setor. O orçamento para 2012, será 36% maior em relação ao ano passado, chegando à cifra de R$129,5 milhões. Já em âmbito estadual a parceria com o SBM possibilita a troca de experiências e desafios.

Segundo Cristina, isso mostra que os governos têm acompanhado as mudanças conceituais da História e da Museologia. "Se antes o museu era visto como um espaço para abrigar coisas antigas e raridades, objetos ligados a eventos e grandes homens, hoje o museu é considerado um centro cultural", explica. Do mesmo modo, a História também não é mais a mesma e contempla todos os sujeitos sociais. Por isso, entre os planos da atual gestão do museu está a incorporação ao acervo de mais objetos desvinculados de grandes nomes.

Estrutura

O desejo de ampliar e diversificar o acervo, porém, esbarra na falta de espaço do prédio, que o museu ocupa desde 1990. O acervo possui cerca de 15 mil peças, porém apenas um terço delas está em exibição. Apesar de seguir a proposta de expor menos para comunicar melhor, Cristina acredita que um pouco mais de espaço dinamizaria as ações do museu. A sugestão dela é transferir a parte administrativa para um anexo próximo, abrindo mais áreas para exposição, conservação e salas de aula. Além de mais espaço, mais funcionários também contribuiriam para uma instituição mais ativa.

Enquanto a ampliação do museu continua distante, a instituição se prepara para obras de restauração e acessibilidade. Semana passada, a direção do local se reuniu com representantes do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) e do DAE (Departamento de Arquitetura e Engenharia), órgão vinculado ao governo estadual. O projeto arquitetônico está sendo avaliado pelo Iphan, que deve dar seu parecer até o fim da próxima semana. Com isso, o DAE poderá fazer o orçamento das obras.

Arquivo Público

Criado para recolher, conservar e organizar os documentos oriundos da administração da antiga Capitania, Província e atual Estado do Ceará, o Arquivo Público tem seu acervo composto por objetos provenientes dos Poderes Executivo, Legislativo, Judiciário (Extra-Judiciário) e de particulares, desde o século XVII.

Márcio Porto, diretor do local, acredita que é preciso consolidar a cultura do arquivo público. Dos nossos 134 municípios, somente Farias Brito, Caucaia e Pacoti possuem seus arquivos catalogados. Realidade que pode mudar com o Sistema Estadual de Documentos e Arquivos, que terá o Arquivo Público como órgão central.

Segundo Porto, já foi organizado um levantamento de dados e diagnóstico, que resultaram em um projeto apresentado pela Secult ao governador Cid Gomes. O projeto está orçado em R$ 1,6 milhão até 2014, com recursos do Tesouro do Estado.

Mais informações:

Mesa-redonda "Políticas Públicas para a Preservação de Acervos Documentais e Museológicos". Em seguida haverá a apresentação de violão clássico do músico e funcionário do Arquivo, Jorismar de Freitas. Hoje, às 18h, no auditório do Centro Dragão do Mar de Arte e Cultura.

MÔNICA LUCAS
ESPECIAL PARA O CADERNO 3