Prepare-se para uma nova safra de filmes polêmicos

Filmes inéditos irão causar manifestações. Religião, pedofilia, política e sexualidade na ordem dos protestos

Anunciou, nem começou e desistiu. Aconteceu com o humorista Renato Aragão. Ele planejava filmar "O Segundo Filho de Deus", uma comédia sobre um homem comum que recebe de Deus a missão de cumprir uma tarefa que ele mesmo não conseguira finalizar. Ao receber agressivas reações de evangélicos e cristãos, os quais o atacaram e ameaçaram pela Internet, o Didi desistiu do filme, que já tinha recebido a aprovação da Agência Nacional de Cinema e estava prestes a liberar parte do orçamento.

O filme "Caça aos Gangsters" entrará em cartaz sem a censura da cena de um tiroteio em uma sala de cinema

Não agradou aos religiosos de plantão, a ideia de um filme abordar um "Jesus Cristo fracassado", mesmo que em uma comédia que tinha o eterno Didi como ator e produtor.

"Era uma Vez Eu, Verônica" nem estreou e já está causando celeuma. A produção pernambucana dirigida por Marcello Gomes, exibida no recente Festival de Toronto, no Canadá, e premiada na última segunda feira no Festival de Cinema de Gramado, logo em sua abertura, traz uma sequência de orgia em uma praia em plena luz do dia. Houve reações.

O cineasta conta que para obter a naturalidade na composição da cena, também despido com o elenco. A ideia era a de todos ficassem à vontade.

"Eu queria que as cenas de sexo fossem bastante muito naturalistas porque o filme todo tem este tom", revelou Gomes. "O Brasil tem várias contradições. Uma delas é a questão do nu", argumenta, salientando que mulheres com biquínis ousados e sumários se tornaram coisa natura, mas "se uma mulher faz topless vira um escândalo", finaliza.

O livro é um sucesso de 40 milhões de exemplares em todo o mundo e deve bater o recorde mundial como o romance mais vendido, no próximo ano estará nas telas dos cinemas. "50 Tons de Cinza", de E. L. James (cujo nome verdadeiro é Erika Leonard, 49, executiva de uma emissora de televisão e que mora em Londres), chamado de "o pornô das mamães" pela imprensa britânica, acaba de ser adquirido em parcerias de dois estúdios de Hollywood, a Universal e a Focos Features.

E.L.James (cujo nome verdadeiro é Erika Leonard) é a autora de "50 Tons de Cinza". O best-seller pornô acaba de ser adquirido por estúdios de Hollywood

O livro, cujo lançamento ocorreu em 2011 pela estadunidense Randon House após ser recusado por diversas editoras que o consideraram "inadequado", já virou uma trilogia, a qual está sendo lançado no Brasil pela Editora Intrínseca.

O romance trata do relacionamento apaixonado entre um empresário manipulador, Christian Grey, e uma ingênua estudante de literatura, Anastasia Steele, a qual é introduzida no mundo do sadomasoquismo.

As especulações para a escolha dos atores já começaram. Ian Sommerhalder (da série "Vampire Diaries"), Armie Hammer (de "Espelho, Espelho Meu"), Ryan Gosling (de "Drive"), Chris Hemworth (o "Thor") e Matt Bomer (das séries "Chuck" e "White Collar")

A história de Anna Maria, uma operadora de aparelhos de raios-x casada com um muçulmano egípcio (e que retorna inesperadamente em uma cadeira de rodas) e cuja ferrenha religiosidade católica a faz se autoflagelar, caminhar pela casa de joelhos e percorrer as casas em busca de adeptos para a cristandade, causou choque e polêmica no Festival de Veneza deste ano. Não pelo enredo, mas pela cena em a personagem tira um crucifixo da parede, a acaricia, beija e se masturba com ele.

A cena, citada pela imprensa como "chocante e perturbadora", está no drama religioso "Paradise Faith", produção austríaca dirigida por Ulrich Seidl. "Sempre que faço um filme, eu procuro uma maneira de mostrar a verdade, ou pelo menos a verdade como eu a vejo", disse o cineasta em entrevista ao Hollywood Reporter. "Mas levo em conta que alguém pode não gostar de ver a realidade que estou retratando. Para a história da personagem no filme, é certo mostrar ela se masturbando com uma cruz, porque ela está tentando fazer amor com Jesus, procurando satisfazer seus próprios desejos. Só porque se trata de um tabu não significa que não vou mostrar isso. Eu prefiro tumulto ao silêncio", finalizou.

É certo que o Vaticano e as entidades religiosas irão protestar quando o filme tiver a sua estreia anunciada na Europa, especialmente na Itália.

Outro já está programado para provocar barulho: "Far From the Madding Crowd" (no Brasil deverá ser "Longe da Multidão", título do romance editado pela Europa-América).

O dinamarquês Thomas Vinterberg está em negociações dirigir a adaptação cinematográfica, atualmente em pré-produção pela Fox Searchlight e a BBC Films. A atriz Carey Mulligan é um dos nomes da produção e viverá a personagem central, Bathsheba Everdene, uma mulher que se divide entre três pretendentes - um pastor, um fazendeiro e um soldado devasso. Escrito em 1874, o romance descortina a Wessex britânica da época com a sua repressão sexual e puritanismo.

Vinterberg, um dos criadores do movimento dinamarquês Dogma, saiu recentemente do Festival de Cannes com a fama de provocador ao apresentar "The Hunt" - já adquirido para o Brasil e uma das atrações da Mostra Internacional de Cinema de São Paulo -, um drama de um homem injustamente acusado de pedofilia em uma pequena cidade da Dinamarca.

Mesmo com o tema polêmico, a obra de Vinterberg conquistou o Prêmio Ecumênico do Festival e saiu de lá consagrado pela crítica, a qual o citou como um filme "de partir o coração".

Outro filme também em pré-produção que já está sendo de polêmica é "The Great Wall" (A Grande Muralha), um épico histórico na linha de "O Último Samurai", de Edward Zwick, com Tom Cruise. Zwick se comprometeu a dirigir "The Great Wall", mas a sua visão está entrando em choque com os produtores, os quais não descartam tirá-lo do projeto a fim de manter a integridade do projeto.

O enredo resgata uma história da China no século 15, e o confronto de soldados britânicos que protegem a construção da muralha contra os guerreiros mongóis, mas se deparam com coisas sobrenaturais.

A Casa Branca está de olho na filmagem de "The Butler", um drama adaptado de um artigo publicado no jornal "The Washington Post" sobre um mordomo que ali trabalhou para oito diferentes presidentes ao longo de 30 anos. Forrest Whitaker, ganhador do Oscar por "O Último Rei da Escócia" (2006), de Kevin McDonald, interpreta Cecil Gaines. A Casa Branca teme que o filme possa revelar acontecimentos até então mantidos em segredo. Os irmãos Weinstein adquiriram o filme, que tem a direção de Lee Daniels e Oprah Winfrey, Mariah Carey, John Cusack, Jane Fonda, Melissa Leo, Vanessa Redgrave, Alan Rickman e Robin Williams no elenco.

Adiado logo após o massacre de Aurora, quando James Holmes entrou em um cinema e matou 12 pessoas que assistiam a "Batman - o Cavaleiro das Trevas Ressurge", o policial "Caça aos Gangsters" (Gangster Squad), de Ruben Fleischer, não teve cortada a cena em que um gângster entra em um cinema e dispara uma metralhadora contra a plateia. Já há quem defenda a retirada da cena do filme, que estreia nos EUA em 11 de janeiro e aqui em 1° de fevereiro.

Tendo por base a história real de Eluana Englaro, uma italiana de 21 anos que após um acidente de carro fica em estágio vegetativo e durante 17 anos seus pais lutam para que os aparelhos que a mantêm viva sejam desligados e esbarra na resistência de entidades religiosas, "La Bella Addormentata" (A Bela Adormecida), provocou imensa polêmica em Veneza e em Toronto.

Certamente prevendo polêmica sobre a eutanásia, Bellochio postou trailers que vão de 30 segundos a três minutos e meio, mas sem dar nenhuma pista do tema que aborda. Em tom emocional e procurando a neutralidade, "A Bela Adormecida" ingressou nos cinemas italianos com restrições da igreja, mas não ocorreram os aguardados protestos. Está adquirido para exibição no Brasil pela Califórnia Filmes.

Quem também está na lista dos candidatos à polêmica em 2012 é Roman Polanski. Ele está filmando "Venus in Fur" (A Vênus das Peles), a peça de David Ivens. Ambientada no século 19, acompanha um jogo de poder e sedução entre um roteirista e uma atriz desesperada pelo papel principal de uma peça, os quais iniciam uma relação sadomasoquista. Emmanuelle Seigner, mulher de Polanski, e Louis Garrel, são os atores centrais.

Outro que fez muito barulho nos festivais, "Michael", de Markus Schleinzer, trata da pedofilia. Numa narrativa a qual a crítica destaca como "tensa", acompanha a rotina do personagem-título, um pedófilo de 35 anos que tem um garoto de 10 anos em cativeiro.

"A pedofilia é quase sempre tema dos jornais sensacionalistas", falou o diretor em entrevista. "Pretendi buscar novas respostas e abordar o assunto de maneira franca, o que a ficção no cinema me permite fazer", disse, assegurando ainda que as história não se baseia em fatos reais.

O problema foi que o filme, apesar de não mostrar nenhuma cena de intimidade entre pedófilo e vítima, logo suscitou comparações com acontecimentos reais, como ocorrido na própria Áustria, onde um pai manteve a filha presa em casa por 24 anos, estuprando-a e engravidando-a sete vezes ao longo das décadas (o criminoso em questão, Joseph Fritzl, foi desmascarado e preso em 2008).

Chocou determinadas pessoas por mostrar a relação de ambos como "normal": conversam, passeiam nas ruas parques, assistem TV juntos. E também questionada a situação do ator mirim David Rauchenberger, o qual, segundo o diretor, foi orientado sem eufemismos.

Os estadunidenses preparam-se para reviver um chocante caso real em "Devil´s Knot", que reconstitui um dos crimes mais chocantes já registrados na nação, ocorrido em 1994, no Arkansas, quando três rapazes mataram oito crianças de oito anos em um ritual satânico.

Registrado pela imprensa como "West Memphis Three", o caso chocou e comoveu como uma tragédia. Um dos rapazes foi condenado a morte e os outros dois receberam a prisão perpétua. A questão envolvida era a de que os rapazes eram metaleiros, não satanistas. As penas dividiram as opiniões.

Atom Egoyan dirige e o lenço é composto por Stephen Moyer (da série "TrueBlood"), Reese Whitherspoon, Colin Firth, Amy Ryan e Kevin Durand. O lançamento será em 2013.

CRÍTICO DE ARTE
PEDRO MARTINS FREIRE