Pop sofisticado

Ed Motta volta ao pop em "Piquenique" (Trama), remetendo ao alto-astral funk e soul de "Manual Prático Para Festas, Bailes e Afins" (1997), sem deixar de lado os "condimentos" harmônicos manipulados em "Dwitza" (2002) ou "Poptical" (2003). Seu 10º álbum lança a parceria com sua mulher, Edna Lopes, à exceção da faixa "Nefertiti", com Rita Lee. Já "Turma da Pilantragem", em duo com Maria Rita, não faz mais uma homenagem a Wilson Simonal, como ele esclarece nesta entrevista

Esta sua volta a uma linguagem mais pop mantém uma continuidade com os trabalhos mais jazzy. Como você chegou a esse resultado?

Musicalmente, o fato de ter ficado mais pop é meio reflexo de algumas músicas, das maquetes que eu estou sempre fazendo em um laptop, que hoje em dia resolve a vida de um músico... Estou sempre fazendo maquetes, experimentando os arranjos com a facilidade que tem hoje desses sons digitais para fazer isso. Antes tinha o taxímetro caro do estúdio rodando, tendo que resolver o quanto antes. Nessa maquete, já defino 50 por cento da veia que eu vou fazer na frente. "O Mestre e o Aprendiz" teve umas duas ou três maquetes. Eu pretendo até mixá-las, todas, e lançá-las na internet.

E como foi a parceria com o Silvera na produção?

Eu queria que em cima destas maquetes que eu faço, viesse um toque moderno. A minha escola é mais anos 70, soul, funk, ele é um cara antenado em tudo o que tem hoje, nos estúdios... E o Silvera também faz os vocais e toca vários instrumentos. Foi um cara importante, assim como o MarioLeo, responsável pela gravação e mixagem, também... E o gringo (Herb Powers Jr, responsável pela masterização) fica com os créditos (risos)...

Como foram as parcerias com Edna, desde "A turma da pilantragem", que, segundo consta, iria para o álbum anterior?

É, a música de "A turma da pilantragem" é sobra do disco em inglês ("Chapter 9", 2008), e acabou sendo a primeira música que a gente fez a letra, esse ano. Bom, as músicas estavam prontas, como eu sempre faço com meus parceiros... Tinha a maquete. Sem os detalhes, mas já com as levadas, melodias, que eu faço na voz... Outra que veio do disco anterior foi a "Nefertiti", minha terceira parceria com Rita Lee.

Essa música tem a Maria Rita, ela de certa forma é mais uma homenagem ao Simonal, cuja obra anda sendo bastante reverenciada este ano?

Não é, estou sempre tendo que esclarecer isso. A turma da Pilantragem é encabeçada pelo Nonato Buzar e o Carlos Imperial... Simonal foi um dos caras que cantou temas inspirados na estética. Não tem nada a ver. Era um Bob Marley da "Pilantragem", mas não é o pai dela... E ele era intérprete... Com todo o respeito, jamais homenagearia um intérprete, mas sim quem cria alguma coisa, que tem um espaço diferente na minha consideração... E a música tem um certo erotismo inocente do Nonato Buzar e do Imperial.... Anos 60, Mel Brooks... Um humor, brincadeira que eu pude dividir com a Maria Rita, o que só aumenta a confusão porque o pai dela, César Camargo Mariano, fazia arranjos pro Simonal, era produtor dele.

Por falar nisso, como anda a Trama? Otto andou falando que a gravadora lhe fez uma proposta pífia para a gravação de seu novo CD...

Não sei, estou lançando meu disco, fazendo minha música, tocando no rádio. Não tive nenhum tipo de limitação, e olha que meu orçamento foi bem diferente daquele que o Otto falou. Tive uma pré-produção muito grande. Foi a mixagem que demorou mais em toda a minha carreira, uma música por semana.

O disco tem sons mais outonais, como "Carência no Frio", jazzy, com uma música cinematográfica que imagino que deve ter dado muito prazer, "Nicole versus Cheng", e temas mais alto astral como "Mensalidade"...

"Nicole" é a letra mais legal que já trabalhei. Cada um fez uma frase. Foi uma das últimas, por isso também acho que é a melhor, já tínhamos começado a pegar um jeito de fazer, a tendência é melhorar. E a ideia é essa, cada vez burilar e sofisticar mais aquela linguagem, elevar aquela ideia ao máximo, fazer um pop com talher de prata. "Mensalidade" tem essa característica radiofônica bem forte, como várias músicas do disco. Mesmo a "Carência" é uma balada com potencial radiofônico, acho o disco mais radiofônico que eu já fiz... Acho mais pop do que o "Manuais", tem uma pegada mais jazzística, esse é um disco mais na veia dessa estética de pop. Tem uma simplicidade de festa como característica. Pra isso, tenho ao meu lado minha banda e ainda Silvera e Liminha, nosso John Paul Jones, que tira do seu baixo um som que não existe mais, legal pra caramba, em "Pé na Jaca"...

ED MOTTA
Cantor e compositor

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Suingue e intimismo

O suingue continua firme, mas as camas introspectivas voltam no fim de "Piquenique". Entre sua guitarra, baixo, violões, piano e programações e os mesmos instrumentos do coprodutor Silvera, Ed Motta divide seu soul, em umas três faixas, com Ricardo Fonseca (teclados) e Robinho Tavares (baixo). As duas primeiras "Minha vida toda com você" e "Mensalidade" transitam entre o soul e o funk, aquela com mais pegada. Em ambas, é bom reouvir Ed mais descontraído. O alto-astral vem ainda em "Pé na Jaca", que tem no baixo Liminha, afirmando o soul de Ed em seu teclado. Outras que seguram a onda do funk mais pop são "Bel Prazer"e a bem mais direta "Tanto faz". Mais do que pelo duo com Maria Rita, "A Turma da Pilantragem" ganha pelo arranjo sujo, groove funk com metais abafados, "papapás" e palmas, mais "pilantra" ainda pela letra, entre massagens à beira-mar... Clima vintage bem mais inocente na faixa-título, em duo com Marya Bravo, do jingle "Cremogema". Já "Carência no frio" e "O Mestre e o Aprendiz" saem desse clima. Bem mais orgânica, "Nefertiti" remete à parceria com Rita Lee. O clima cinematográfico se materializa em "Nicole versus Cheng", simbolizando uma sequencia noir, com efeitos especiais e theremin.

HENRIQUE NUNES
REPÓRTER