Poesia que veio de berço

Filho de poeta, Raphael B. Alves escreve haicais. O primeiro livro tem nas entrelinhas uma bela história de amor

Aos 14 anos de idade, Raphael B. Alves encontrou-se com a poesia de Manuel Bandeira. Primeiro com um poema cheio de graça chamado "Haicai Tirado de Uma Falsa Lira de Gonzaga" - "Quis gravar ´Amor´ / No tronco de um velho freixo: / ´Marilia´ escrevi". O encanto foi imediato. Foi ler a obra completa de Bandeira e perceber que gostaria de fazer algo parecido. Mas a relação de Raphael com a poesia, no entanto, não começou aí, "veio de berço", como ele costuma dizer.

"Meu pai é poeta, tem um livro chamado ´Coisas Livres´, fortemente influenciado pela Guerra Fria e a bomba atômica. Foi a primeira relação que eu tive com poesia, consciente. Queria fazer alguma coisa parecida, mas não tinha vivência suficiente, então copiava os poemas para mim e dizia que eram meus", recorda.

Autor de "Como um Estalo", livro publicado em com apoio da Secretaria de Cultura do Estado do Ceará através do Prêmio Caetano Ximenes de Poesia do Edital Autores Cearenses 2010, Raphael costumava escrever em um blog de mesmo nome, que tinha como epígrafe um conselho de Italo Calvino: "Quanto mais tempo economizarmos, mais tempo poderemos perder". "Publicava tudo que eu conseguisse dizer com poucas palavras. Foi uma fase que eu estava fissurado em concisão, estudava isso à exaustão, tentando escrever tudo com o mínimo de palavras", conta. O blog já estava desativado quando Patrícia Dourado, com quem é casado, viu os poemas impressos, gostou e quis publicar em formato livro.

"Eu não via mais aqueles poemas como meus, porque fazia tempo que os tinha escrito. Mas ela me mostrou o livro pronto, com os poemas, capa e ilustrações. Botou o livro para concorrer edital e deu certo".

Raphael trata com leveza a relação poesia versus mercado, quando questionado sobre a poesia não ser um gênero que vende. "Poesia vende, porque ela está em tudo, num carro, numa casa, num bolo. O que não vende muito é poema, mas quem disse que ele quer virar produto? Ele é vendido à revelia", brinca.

Fala sério quando arrisca uma alternativa para tornar a poesia mais acessível na formação de um leitor. "Mais amor em casa. A criança é um poeta nato. Qualquer poema a criança acha legal, mesmo não entendendo, porque está no mesmo nível de construção semântica que ela tem em mente. Ou seja, nada faz muito sentido, ela procura encontrar um sentido pelo binômio erro-acerto", argumenta Raphael mandando um recado aos pais: "parede pode ser um amigo, do mesmo jeito que a colher pode ser um objeto de tirar sopa da boca. Cada vez que a gente diz que colher só serve para botar sopa na boca, a gente mata um poeta". Raphael finaliza afirmando que, para fazer poesia, é preciso confiança. "Minha poesia só nasceu porque eu estava com a barriga cheia, tinha amigos por perto e sabia quase todas as histórias que eles contavam de cor".

O poeta

Raphael B. Alves é jornalista. Mora no Crato e trabalha em Juazeiro do Norte, no Cariri. "Como um Estado" ainda não foi lançado em Fortaleza. Tem um segundo livro de poemas chamado "Digital e Cheio de Dedos", que está pronto, mas ainda sem previsão de publicação. A ideia é fazer uma triologia de poemas curtos, cada livro como se fosse um verso, onde no final teríamos um haicai em três tomos. (DP)