Poesia não precisa de pressa

Diego Vinhas publicou em revistas e antologias no Brasil, EUA, Portugal. Já editou uma coleção de poemas, em 2004, e prepara outra, Nenhum Nome Onde Morar
Diego Vinhas publicou em revistas e antologias no Brasil, EUA, Portugal. Já editou uma coleção de poemas, em 2004, e prepara outra, Nenhum Nome Onde Morar
Pensar em um poema novo como algo que exija "um esforço de procura, de tentativa e erro, que seja diverso de tudo o que já tenha feito antes". É assim que Diego Vinhas se relaciona com a poesia. Diz não possuir um método de composição, nem produz em série. É que para Diego, a poesia não precisa de pressa. "Este jogo meio errático é o que procuro, o que não garante, lógico, que renda necessariamente bons poemas", avalia.

Diego não crê na inspiração como uma epifania, mas como aquele instante em que um gatilho interno deflagra um estado de inquietude, um modo diferente de captar o ao redor, e que se alastra até virar um poema, "ou uma tentativa-de", como ele diz complementando que tudo pode ser matéria de poesia. Afinal, beleza e o absurdo estão em toda parte.

O interesse pela palavra começou por volta dos nove anos de idade, quando começou a brincar de escrever letras para canções imaginárias, influenciado por bandas nacionais de rock, que Diego escutava obsessivamente. "Estes escritos não tinham qualquer valor ´literário´, mas representam a minha memória mais remota de quando me vi minimamente capturado em algum tipo de esforço de embate com a linguagem".

Crítico severo de seus próprios textos, Diego publicou em 2004 o livro "Primeiro as Coisas Morrem", pela editora 7 Letras. "Entraram pouco mais de 20 poemas, de um total de quase 70 escritos ao longo dos quatro anos de ´gestação´ (e hoje talvez eu suprimisse mais um ou dois). E agora tenho um novo no prelo, com cerca de 40 poemas, selecionados de uma produção de quase oito anos. Não é muito, mas é o que meu filtro, e também certa preguiça de escrever tanto, se comparado com o puro deleite de ser só leitor, me permitiram", argumenta.

A produção literária de Vinhas não tem o peso de uma localização geográfica e sim da própria vida. "Meu recorte de vida, minha respiração, certamente engloba dados que perpassam o espaço que habito, o Sol que suporto, os caminhos diários, etc. Viver no Ceará é parte de minha condição, então se incorpora também na escrita, mas não como uma temática explícita".

Diego rejeita o que chama de "costume arraigado em nosso Estado", em que alguns autores alimentam um "ciclo vicioso de elogios recíprocos, de uma pretensa crítica que se vale de termos datados, figurativos, mas de conteúdo invariavelmente raso". "Uma falta de comunicação ´extra muros´, fora da redoma da tal ´literatura cearense´, bem como a ausência de uma real problematização da linguagem, em especial por parte da crítica, que parece sempre muito orgulhosa e satisfeita. O que não é bom sinal. De qualquer forma, acho que esse ranço provinciano não é exclusividade do Ceará", provoca.

Para Diego, a poesia pode se desenvolver à margem de qualquer pressão mercadológica, como uma espécie de corpo estranho. "A maior parte da poesia contemporânea que me interessa é praticamente ignorada pelos grandes veículos midiáticos, provavelmente pelo fato da linguagem não ser no nível da usualmente consumida". Mas isso não chega a ser um problema para o poeta.

Mantém conversa constante com escritores cujo trabalho lhe interessa. Cita nomes como Carlos Augusto Lima, Cândido Rolim, Érica Zíngano, Rodrigo Marques, Rodrigo Magalhães, Júlio Lira, Henrique Dídimo, Ruy Vasconcelos e Eduardo Jorge. Dos poetas relevantes para sua formação, fonte de uma "nutrição de impulsos", Diego apresenta nomes consagrados como o do estadunidense William Carlos Williams, o Drummond de "Áporo", o Bandeira de "O Cacto" e "Boi Morto", ou quase tudo do João Cabral; até autores mais contemporâneos, como Régis Bonvicino, Carlito Azevedo, Ricardo Aleixo, Fabiano Calixto, Júlio Castañon ou Sebastião Uchoa Leite. Dentre alguns dos "escritores novos" que mais impressionam Diego estão Leonardo Gandolfi, Franklin Alves Dassie, Eduardo Sterzi, Renato Mazzini e Eduardo Jorge.

DALVIANE PIRES