Os males universais

Ganhador do Oscar e do Globo de Ouro na categoria de Filme Estrangeiro, "Em um Mundo Melhor", da diretora dinamarquesa Susanne Bier, retrata a tensão da globalização da violência

Nos anos de 1960, o pensador canadense Marshall McLuhan (1911 - 1980) cunhou o conceito de "aldeia global", para descrever um mundo que se convertia numa comunidade planetária de bilhões de pessoas. O história realizou sua profecia com o fenômeno da globalização, com a comunicação dando as rédeas.

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Em seu filme "Em um Mundo Melhor", a cineasta dinamarquesa Suzanne Bier coloca seus personagens nessa aldeia global para tratar de dois temas: a violência com o alastramento da vingança e a ausência de comunicação entre as pessoas. Nesse processo, a realizadora indica que o mundo globalizado está longe de eliminar alguns de seus impasses, como a desigualdade social, a miséria, a exploração e a violência. Como resultado disso, sofrem tanto os africanos explorados e devastados pelas guerras civis, quanto os ricos e desenvolvidos países do Primeiro Mundo, os quais estão sempre envoltos em crises internos ou transnacionais.

A aldeia global de Bier é uma comunidade de infelizes e sofredores. Em razão de que? Em razão dos extremismos de várias naturezas: fanatismo religioso ou político-partidário, analfabetismo funcional, o chauvinismo machista, o feminismo militante, desagregação da família, abandono das crianças, da corrupção generalizada, das guerras pelo poder, etc.

Monstros

A recente ação do extremista Anders Behring Breivik, que executou impiedosamente 76 pessoas em seu país, a Noruega, se encaixa perfeitamente no bojo de "Em um Mundo Melhor". Quem esperaria que a pacífica e tranquila Noruega fosse ter um extremista de direita capaz de promover um massacre? Agora a Noruega terá de conviver com o seu 22 de julho da mesma forma que os EUA convivem com o seu 11 de setembro.

E como são gerados monstros como Breivik? Bier responde secamente através do enredo de seu filme: pelo sentimento de vingança. Para situar essa questão - e outras que virão -, Bier coloca duas famílias em exposição. Primeira, a de Anton (Mikael Persbrandt), médico dinamarquês que divide a sua vida entre o trabalho num campo de refugiados africanos e as visitas ao lar, onde reencontra os dois filhos pequenos e a insatisfação da mulher, Marianne (Trine Dyrholm), que quer o divórcio em função de sua ausência. Mas isso é apenas circunstancial no enredo. O que interessa a Bier é focar a amargura e sofrimento de Elias (Markus Rygaard), o filho mais velho, vítima de bullying na escola.

A segunda família, a de Claus (Ulrich Thomsen), é ainda mais complicada. Este deixou Londres e retorna ao país após a morte da mulher, vítima de câncer. Ele não percebe a inconformidade do filho, Christian (Johnk Nielsen), com a morte da mãe, cujo processo gerou um extremo rancor. Esse desajuste psicológico de ódio ao pai gera um sentimento de vingança que só pode ser aplacado com uma ação incisiva. Christian irá manipular o inseguro Elias e levá-lo a uma ação de vingança.

Bier adentra os dois lares para destacar a ausência de comunicação e da incapacidade dos pais em identificar as insatisfações de seus filhos. E mais: de se fazerem entender, em suas posições sobre fatos que, na cabeça dos jovens, contrariam tudo aquilo que aprenderam no cotidiano. Bier expõe esse sentimento como universal através das meninas africanas violentadas por integrantes de um grupo armado que promove o terror e a violência na região, e as crianças "civilizadas" que, no interior do processo de educação, a escola, onde deveria ocorrer somente o aprendizado da tolerância e do conhecimento, reine um dos mais cruéis modelos de violência da sociedade moderna: o bullying. Existe diferença, pergunta Bier, entre os guerrilheiros estupradores e os praticantes do bullying?

Incomunicação

É nesse conturbado processo que Bier coloca a figura dos pais. Tanto Anton quanto Claus não revidam à violência que sofrem e procuram transmitir aos filhos a inocuidade do revide, o qual apenas intensificará a violência. Mas essa demonstração não sensibiliza os garotos. Como se vê o pai sendo esbofeteado e ele não revidar? Como entender que o agressor é apenas um idiota, como diz o pai? No cotidiano da aprendizagem deles, seja na televisão, no videogame, nas ruas ou na escola, alguma reação tem de existir, seja imediata ou posterior.

Assim, Bier trafega pelas dificuldades humanas em lidar com momentos de crises, com as dores das perdas e em controlar as emoções. Isso vale tanto para os jovens em flerte com a vingança quanto para adultos que a executam. No filme, a cineasta nos deixa uma pergunta inquietante: podemos controlar os males da sociedade como tentamos controlar nossas próprias ações? Sem se desgarrar da esperança, Bier nos indica a necessidade do exercício do amor e da pratica do perdão como fontes de combate aos males do mundo. Mas, será que estamos preparados para isso? Leia mais no Blog de Cinema

MAIS INFORMAÇÕES

Em um Mundo Melhor (Haevenen, Dinamarca-Alemanha, 2010), de Suzanne Bier. Salas e horários no caderno Zoeira.

PEDRO MARTINS FREIRE
CRÍTICO DE CINEMA