O sucesso incontestável de um som improvável

Surgida nos começo dos anos 90, a banda celebra a carreira com relançamento de primeiro álbum em vinil

John Ulhoa é observador privilegiado de uma das épocas mais difíceis para o rock brasileiro: o começo dos anos 1990. O gênero sumia das rádios, bandas eram dispensadas das gravadoras e, segundo ele, "o império da lambada" se estabelecia. Nessa época, o guitarrista, que chegara a se mudar de Belo Horizonte para São Paulo com a sua banda, o Sexplícito, voltava para casa, desencantado, a fim de abrir uma loja de instrumentos musicais "para ganhar dinheiro e tocar projetos musicais por prazer". Ali, por incrível que pareça, ele começaria o caminho rumo a "Rotomusic de liquidificapum", primeiro álbum do Pato Fu, um dos nomes mais aclamados da geração 1990 do rock nacional, junto com Skank, Raimundos, Planet Hemp e Chico Science & Nação Zumbi.

John Ulhoa (sentado no sofá, à esquerda): "É louco imaginar que esse som tão improvável sustentaria a nossa carreira. Hoje, seríamos catapultados ao anonimato"

Para comemorar os 20 anos da estreia fonográfica do grupo mineiro, a Polysom faz o relançamento do disco dentro da série "Clássicos em vinil". Com a remasterização de 2008, o álbum retorna ao mercado em caprichada edição em LP, formato desprezado na época de seu lançamento - apenas mil cópias em vinil do "Rotomusic" foram feitas na época, e logo se transformaram em raridade entre colecionadores.

"É louco imaginar que esse som tão improvável sustentaria a nossa carreira. Hoje, seríamos catapultados ao anonimato", acredita John, para quem o advento do Patu Fu marcou uma importante mudança de pensamento em sua vida. "No Sexplícito, a gente fazia o possível para não cometer nenhum clichê, e isso foi algo que nos custou em popularidade. Depois de formar o Pato Fu, eu comecei a ver os clichês com mais cinismo. A gente não queria uma reação água-morna, então passamos a usar os elementos da música pop com certa ironia".

Originalmente lançado pelo selo independente mineiro Cogumelo (especializado nas bandas mais casca-grossa do heavy metal, como Sepultura e Sarcófago), "Rotomusic de liquidificapum" foi uma surpresa no cenário, com seu senso de humor amalucado, que poderia ser percebido tanto na absurda condensação de estilos musicais das canções (que vão do metal à dance music, passando pelo hip hop e blues), quanto nas letras ( "Meu coração é u´a privada", "O processo de criação vai de 10 até 100 mil" e "O mundo não está pronto" são alguns dos títulos das faixas). O hit (ou quase isso) do disco foi uma recriação desconjuntada do "Sítio do pica-pau amarelo" de Gilberto Gil.

Nascido de um projeto de John com o amigo Bob Faria, o Patu Fu começou a tomar forma mesmo com a chegada da cantora Fernanda Takai (cliente da sua loja de música, que havia deixado uma fita demo com suas músicas) e do baixista Ricardo Koctus (balconista do estabelecimento). Antes de partir para a primeira fitinha, a "Pato Fu demo" ("Juro que não percebi que tinha esse trocadilho!"), John se preocupou em montar um show que fosse divertido.

Surgimento

"A ideia de fazer o Patu Fu, eu tive depois de ver shows dos Mulheres Negras e do Defalla, bandas que não tinham hits radiofônicos, mas faziam apresentações muito boas de se ver", diz ele, que optou por não ter baterista, contando com seus "128 japoneses" (ou seja, baterias eletrônicas, sequenciadores e sintetizadores programáveis) para fazer a base rítmica e melódica do ao vivo. "Fui apresentado a esse equipamento em uma feira em São Paulo. Ele era usado para jingles, dance music, mas vi que dava para fazer algo mais com ele. Os ´japoneses´ facilitaram bastante o nosso show, que era bem barato, dava para levar a todo lugar". "Rotomusic de liquidificapum" foi gravado em abril e maio de 1993, no estúdio Ferretti, de Haroldo Ferretti, baterista do Skank, que foi técnico de gravação e mixagem do disco.

"Propusemos um negócio barato para o (dono da Cogumelo) Zé Eduardo, as gravações custaram 500 dólares. O disco virou o patinho feio da gravadora, foi resenhado em revistas nas quais não deveria ser. Mas tudo bem, o cinismo nos permitia isso". Lançado o disco, o Pato Fu seguiu com seus shows ainda mais divertidos, seja com os músicos vestindo camisas de times de futebol, ou interagindo com os bonecos do grupo Giramundo (que voltaram a segui-los alguns anos atrás no "Música de brinquedo").

Numa apresentação no Circo Voador, o fotógrafo Mauricio Valladares os convidou para seu selo na BMG, o Plug. Daí, o grupo lançou em 1995 o CD "Gol de quem?" e o sucesso bateu à porta, com "Sobre o tempo" e "Qualquer bobagem" (dos Mutantes). "Estamos devendo agora um disco de inéditas...", admite John, ocupado com a produção de discos alheios (o último de músicas novas do Pato Fu saiu em 2007, "Daqui pro futuro")".

SILVIO ESSINGER
AGÊNCIA O GLOBO