O escritor, um habitante de uma terra sem nome

EZ: O poema é quem diz os lugares por onde passa e sabemos que as letras no papel lembram estrelas lá no céu
EZ: O poema é quem diz os lugares por onde passa e sabemos que as letras no papel lembram estrelas lá no céu
Um pássaro exigente acompanha a poeta Érica Zíngano. Esse pássaro chamado poesia vai com Érica por todos os lugares que habita. Atualmente, faz doutoramento de Literatura em Estudos Portugueses, na Universidade Nova de Lisboa, onde estuda a obra da portuguesa Maria Gabriela Llansol (1931 - 2008). É uma das autoras do livro "fio, fenda, falésia" (2010). O projeto pode ser acessado no o blog do projeto: http://fiofendafalesia.blogspot.com.

Os voos de suas leituras começaram na infância. Na escola, achava o máximo quando a professora subia na cadeira e, de forma teatral, recitava versos de Castro Alves. Tudo encantava a menina: a beleza do poema dito, os versos, o ritmo. Érica já escrevia naquela época "o que cabia nas folhas dos cadernos". Escrevia textos em prosa e "poema com cara de poema". Escrevia tão bem que chegou a ganhar dinheiro com isso. Ela conta que vendia redações para os colegas que não gostavam de escrever.

Érica tem uma poesia sofisticada, envolvente, delicada. Para ela, escrever é habitar uma terra sem nome, sem fronteiras. "A única fronteira que existe é a da língua e a língua é elástica, se dobra, se desdobra, e maleável, toca outras línguas: as linhas mudam de lugar", diz a poeta, que foi convidada para participar do Festival de Poesia de Berlim, em junho próximo. "O Brasil tem um literatura muito inventiva e acho que isso chama a atenção de quem tem interesse pela nossa cultura. Mas o fato de Brasil estar na moda não é devido à nossa literatura. A literatura entra de tabela, no rescaldo das atenções, que são divididas entre muitos outros interesses, políticos, sobretudo".

Do mundo

A arte de Érica Zíngano tem raízes aéreas e para ela, os livros transitam sem apresentar passaporte, "por mais que muitas vezes existam territórios entranhados em suas páginas, como um pano de fundo, uma paisagem que circula, mas é sobretudo para abrir passagens para o imaginário". Desde muito cedo aprendeu a ver o mundo mais do longe. "O poema é quem diz os lugares por onde passa e sabemos que as letras no papel lembram estrelas lá no céu, como nos ensinou Leminski".