O bordado da escrita

Autor de obras que podem ser vistas em praças e igrejas, o escultor José Rangel (1895 - 1969) é tema do novo livro de Gilmar de Carvalho

Gilmar de Carvalho tem um olhar raro, comprovado na leitura de seus textos, mesmo se tratando de momentos bastante distintos. Olhar que identifica o extraordinário no cotidiano, mesmo que este tenha se escondido sob o véu do cotidiano. Ele marca a escrita do autor, vai da leitura do universo de práticas e símbolos romeiros, na tese de Doutorado em Comunicação e Semiótica (PUC-SP), que virou livro sob o título “Madeira Matriz”; passa pela fortuna crítica do poeta (e não necessariamente da poesia de) Patativa do Assaré; e chega ao livro-reportagem com dezenas de retratos das artes do povo cearense (“Artes da Tradição”).

É este olhar inquieto, que faz do autor um descobridor de tesouros enterrados sob nossos narizes, que Gilmar de Carvalho empresta a seu leitor ao contar a trajetória do artista José Rangel. “Rangel Escultor: o artista que veio de Jardim” acaba de ser lançado, pelo selo Edições Leo, ligado ao Laboratório de Estudos da Oralidade - UFC/Uece.

O projeto de “Rangel Escultor” é tão simples quanto relevante: desvelar a figura de um artista que, não obstante sua criatividade e a difusão de suas obras, permanece ignorado no cenário das artes no Brasil e da cultura em seu estado natal. Ao invés de lamuriar-se por conta a injustiça cometida contra Rangel, Gilmar arregaças as mangas e vai a campo, procurando evidenciar as muitas marcas deixadas pelo escultor cearense em locais tão distintos quanto a Chapada Araripe que cerca a cidade de Jardim à capital argentina, Buenos Aires.

Um dos principais monumentos públicos de Fortaleza - a coluna do Cristo Redentor, na praça homônima localizada em frente ao Seminário da Prainha - é criação de José Rangel, mesmo que sua autoria seja ignorada da quase totalidade da população da cidade. Este detalhe, para Gilmar, é pequeno, se comparado ao todo da produção do artista.

O personagem

O talento de Rangel se manifestava em outras áreas, como o desenho e a pintura, mas foi a escultura a linguagem eleita. Ao invés de encerrá-la em galerias ou nas paredes de colecionadores, preferiu a arte pública, interferindo na paisagem, nas praças, igrejas e cemitérios. “Se manteve apartado do movimento modernista, sem todavia se transformar num mero macaqueador da tradição”, destaca o crítico de arte José Roberto Teixeira Leite, no prefácio do livro.

O texto de Gilmar de Carvalho não se ajusta a classificações como a de biografia, perfil biográfico ou livro-reportagem. Isto porque ao invés de reconstituir os principais momentos da vida e da criação de José Rangel, o autor prefere decifrá-lo de outra forma.

A rede e os fios que a compõem é uma imagem que se presta como analogia para explicar esta escrita. Mais que estabelecer uma biografia, a cronologia do que o boêmio José Rangel fez e por onde passou, Gilmar procurar identificar os fios que compõem o artista. Como num bordado, são fios e nós que compõem a imagem para se reconhecer e compreender.

Gilmar de Carvalho dá particular atenção ao lugar de onde o artista veio. O município caririense de Jardim, distante 542 quilômetros de Fortaleza, tem seus momentos de protagonista. Gilmar de Carvalho recupera as “etapas” do nascimento da localidade, cercada pelo verde e encravada entre as serras da Chapada do Araripe. Efemérides e personagens ilustres são destacados das crônicas históricas mais antigas e de uma série de outros documentos consultados pelo autor.

O escritor

O jornalismo de Gilmar é bem pouco óbvio. Se, por um lado, informa, dá conta do que se espera dele; de outro surpreende. No capítulo intitulado “Almanaque”, ele imita este gênero ao citar os “grandes eventos” do ano de 1895 - o mesmo em que nasceu o artista. Em outro momento (“O Artista”), o resumo da trajetória de José Rangel é complementado por um retrato espiritual do biografado - o zodíaco e os santos do Candomblé são evocados para dizer do escultor. Ao homenagear o filho ilustre de Jardim, Gilmar não esquece do presente da cidade, retratada na tradição viva da festa dos caretas.

O perfil, em que se imbricam vida e arte do escultor Rangel não é a primeira incursão de Gilmar de Carvalho pela arte. O trabalho do escritor é, em geral, associado à “cultura popular” - termo vago, abrangente, que o próprio autor prefere o uso no plural ou, em certos momentos, substituir por “tradição”. No entanto, seu interesse parece estar voltado para uma idéia bem mais ampla de arte, das criações do homem.

“Rangel Escultor” é exemplo desta percepção, que substitui a imagem da fronteira entre “erudito” e “popular” pela da ponte, de trânsito constante. E em ambos os sentidos.

"Rangel escultor"
Gilmar de Carvalho
R$ 15
88 páginas
2008
Edições Leo

DELLANO RIOS
Repórter