O biscoito fino da cultura

Novo livro de Sergio Cohn reconstitui a história dos periódicos artísticos e culturais brasileiros

Dentre os valores exaltados pelos futuristas italianos, comandados por F. T. Marinetti (1876 - 1944) nas primeiras décadas do século XX, dois se lançavam contra ideais que, por muito tempo, acompanharam as artes ocidentais. O dinamismo, o gosto pela renovação constante, ia de encontro às tradições sólidas, à reverência aos clássicos; e a velocidade, mais parecia o avesso da almejada imortalidade das obras.

As vanguardas que se seguiram à futurista se balizavam entre estes dois valores. Os artistas enxergaram na imprensa, no formato de jornais, mas, sobretudo, das revistas, um canal privilegiado. Mais eficiente, mais simples e mais barato de se produzir. A efemeridade que era própria aos periódicos seria usada a favor de seus autores.

Não é à toa que o período modernista foi escolhido pelo poeta e editor Sergio Cohn para servir de ponto de partida de seu "Revistas de Invenção: 100 revistas de cultura do modernismo ao século XXI". O livro é uma espécie de compêndio que lista, descreve e comenta uma centena de publicações culturais. Poucas são jornalísticas. A maioria trazia ilustrações, poemas, ficções, ensaios e críticas, experimentos e cartas de intenções dos movimentos artísticos.

Como o próprio faz questão de ressaltar, o modernismo não inaugura as revistas literárias no País. Contudo, é quando este gênero parece crescer em importância. Cohn não diz diretamente, mas seu livro mostra que é possível distinguir uma linhagem de revistas que ainda tomam o modelo dos modernos como referência. São elas, aliás, o fio condutor do livro - as tais "revistas de invenção", em que se privilegia o experimentalismo, a criação do novo.

"A revista é um veículo importante para jovens artistas, escritores, poetas e críticos", explica Sergio Cohn. "Pense no caso do cinema brasileiro, que tem vivido um período de efervescência. Ele tem sido acompanhado por jovens críticos. O melhor espaço para eles aparecerem são nas revistas. O livro ainda é difícil e, muitas vezes, eles não têm nomes consolidados que abram espaço na mídia tradicional. A revista é importantíssima para essa renovação, tanto de geração, quanto da linguagem", ilustra.

Os blogs, sites e revistas eletrônicas, reconhece Cohn, desempenham papel importante nesta renovação. Ainda assim, segundo o pesquisador, não se deve pensar numa substituição do formato impresso. "A memória é um ponto a ser colocado. No livro, você vê revistas de 90 anos, mas quanto tempo um blog vai estar disponível? Corremos o risco de que uma grande parte da produção cultural se perda em médio prazo", avalia.

Marco zero

"A verdade é que esse recorte não é tão justificável assim", confessa o autor. "Melhor seria ter tomado da vinda da Família Real (em 1808) para cá, quando foram instaladas as primeiras gráficas e tivemos os primeiros resultados de revistas brasileiras. No pré-romantismo, romantismo, simbolismo já tínhamos revistas literárias", explica.

Contudo, o ideal bateu de frente com a dura realidade da pesquisa histórica no Brasil. Sergio Cohn encontrou um sem número de dificuldades. A bibliografia específica foi, talvez, a menor delas. Difícil mesmo era encontrar exemplares e informações precisas sobre revistas menos conhecidas. Cohn explica que, diferente dos livros, as revistas não são facilmente encontradas nos acervos das bibliotecas públicas, o que obriga os pesquisadores a apelar pela boa vontade dos colecionadores particulares. O esforço do pesquisador, no entanto, salta aos olhos. Cohn não reduziu o País a seus centros editoriais. São Paulo e Rio de Janeiro até contam com mais publicações incluídas no livro, mas não faltam seus pares de diversos estados. Caso de Bahia Invenção, com poemas de escritores baianos; Norte, editada no Pará; e O Saco, do grupo cearense homônimo.

O empenho de Cohn não foi apenas profissional. Afinal, a pesquisa tornou-se, também, uma questão pessoal. "A pesquisa do livro tem duas motivações básicas: uma ligada ao projeto que realizei no Ministério da Cultura (quando Cohn foi convidado para pensar políticas de incentivo aos periódicos culturais e artísticos) e outra, pessoal. A primeira foi uma exigência minha: expliquei que não era possível pensar num edital para as revistas culturais sem pensar historicamente a questão e trazer isso a público", conta. A questão pessoal nasce de uma iniciativa de Cohn, que criou, em 1994, a revista Azougue e sentiu falta de referências para sua empreitada. "O vazio histórico atrapalha muito pensar as inovações. É como se você fosse criar tudo do zero. A partir daí, comecei a construir privadamente minha biblioteca de revistas. E me interessei de pensar a história delas".

LIVRO

Revistas de Invenção

Sergio Cohn

Azougue

2012, 256 páginas

R$ 68

Semana modernista de 1922 é tema de livro

Os 90 anos da Semana de Arte Moderna de 1922 renderam bem menos do que poderiam. Afinal, o marco do modernismo brasileiro ecoa até hoje nas criações, coletivas e individuais, de escritores, artistas visuais, músicos e cineastas.

Por conta da ocasião, a Boitempo colocou no mercado uma nova edição de "Semana de 22: Entre vaias e aplausos", estudo conciso e vigoroso de Marcia Camargos. E a Companhia das Letras saiu com um inédito: "1922 - A semana que não terminou", do jornalista Marcos Augusto Gonçalves, autor de "Cultura e Participação nos Anos 60" (com a crítica Heloisa Buarque de Hollanda) e "Pós-Tudo", sobre os 50 anos do caderno cultural Ilustrada, da Folha de S. Paulo.

Em "1922", Gonçalves escreve uma reportagem da história. Nela, se concentra na dita semana - tanto que seus recuos no tempo, para os anos anteriores a ela, costumam ser breves. O livro acaba não tendo o peso acadêmico que alguns leitores podem esperar, mas oferece detalhes pouco evocados, como a repercussão anterior e posterior à Semana. O autor faz o bom-jornalismo, ao recuperar as vozes das ruas, as manchetes dos jornais e as histórias de bastidores do levante modernista. E é este olhar aproximado, dessacralizante, o grande trunfo do livro. É por meio dele que Gonçalves relativiza o que muitas vezes é tomado por ousadia e mostra que, ainda que rebeldes, os modernistas souberam muito bem se cercar de protetores bem pouco progressistas.

LIVRO

1922 - A semana que não terminou

Marcos Augusto Gonçalves

Cia. De letras

2012, 378 páginas

R$ 49

DELLANO RIOS
EDITOR