Mudança turbulenta

Saída do CCBNB-Fortaleza do Edifício Raul Barbosa, no Centro, gera incertezas em artistas e frequentadores

Durante este mês, o processo de transferência do Centro Cultural Banco do Nordeste - CCBNB (que vem se arrastando há pelo menos um ano e permanece indefinido), começou a tomar corpo. No último dia 4 de outubro, artistas participantes da exposição "Perambular, experimentar e correr perigo", em cartaz no térreo do Edifício Raul Barbosa, desde o dia 14 do último mês de setembro, foram chamados pela gerência do centro cultural para antecipar sua desmontagem.

O terceiro andar do prédio, que por muitos anos abrigou a biblioteca do equipamento, foi requisitado pela Justiça Federal do Ceará, que, desde 2001, ocupa a maioria dos 15 andares do prédio. Assim, o espaço de exposições foi desativado para dar lugar ao acervo.

"Nossa exposição ficaria até o dia 20 de outubro, mas acabou sendo desmontada na segunda semana. É uma interrupção no processo de construção não só da arte, mas da cidade", destaca Júlia Lopes, uma das participantes do curso de 10 meses do Programa de Pesquisa do Centro de Artes Visuais de Fortaleza, que resultou na exposição. A insatisfação levou o grupo a organizar um debate em torno da situação do CCBNB-Fortaleza, que acontece na terça-feira (leia matéria abaixo).

Ruptura

Para alguns artistas, a falta de informações sobre a mudança é uma demonstração de descaso. "O pior é não saber do andamento das coisas. A sensação é de que não querem resolver. Não falta dinheiro, mas prioridade", opina o músico Amaudson Ximenes, presidente da Associação Cearense de Rock, que organiza há seis anos, em parceria com o CCBNB, o Rock Cordel.

Para ele, não se deve perder a dimensão do centro cultural como uma conquista importante para os fortalezenses. "É mais um equipamento que se perde. Não um lugar qualquer. Vários programas foram conquistados com o apoio do CCBNB, o próprio Rock Cordel, que dá espaço para bandas veteranas e novatas, os festivais de Música Instrumental, o Ponto.CE, o Forcaos, a Feira da Música.", avalia.

"Pensando sobre os equipamentos e as políticas culturais de Fortaleza hoje, que são tão precárias, dá pra ver que a perda desse espaço é, sim, significativa, e gera insegurança em todos", concorda Júlia.

De fato, no diálogo com os artistas, fica latente esta dúvida: até que ponto a mudança da estrutura pode significar o fim do centro enquanto instituição apoiadora de projetos? De todo modo, a expectativa entre eles é de que o equipamento não apenas continue existindo, mas que permaneça no Centro de Fortaleza.

Local

Mário Nogueira, 70 anos, é um frequentador assíduo do centro cultural. Ele se diz bastante preocupado com os rumos do projeto. "Ali no CCBNB, sou um dos usuários mais recentes da biblioteca, porque tenho amigos, também aposentados, que a frequentam há cinco ou seis anos. O local é praticamente um refúgio para essas pessoas, já que nós sabemos que Fortaleza não dá muitas opções de entretenimento para quem tem mais idade. Se ele for para um local no Centro, é uma boa. Mas depois da Praça do Ferreira, já não dá mais. Ali depois das 18h e nas imediações do Museu do Ceará é muito perigoso, embaixo do Cine São Luiz já virou uma favela", opina o aposentado.

Amaudson reforça o ponto de vista de Mário: "Se fosse confirmada a ida do CCBNB para o entorno do Dragão, entendo que o espaço ia ficar mais forte, criaria um circuito, dialogando com o outro equipamento, mas acho que ele devia ficar no Centro da cidade mesmo. O CCBNB é a cultura do pessoal que trabalha no Centro, que estuda por ali. Na hora do almoço ou depois do trabalho, sempre tem um show, uma exposição, um espetáculo, ali ao lado. Essas pessoas não vão poder se deslocar se for longe". E acrescenta: "O Centro de Fortaleza já está ficando mais pobre de cultura".

Outro incômodo que o processo tem causado aos usuários é a forma brusca como a mudança tem ocorrido. Ainda que o contrato de compra assinado pela Justiça Federal e pelo banco tenha estabelecido uma mudança gradual da estrutura, artistas e usuários do espaço afirmam o contrário.

"Foi, de certa forma, do dia pra noite mesmo, porque nos comunicaram na quinta-feira e, de sexta para sábado, tivemos que desmontar a mostra", revela Júlia Lopes.

Mário Nogueira concorda. "Está sendo muito rápido e aquele espaço de exposição é muito precário para abrigar a biblioteca, que, aliás, já merecia um lugar melhor do que o que tinha no terceiro andar. Aquele acervo tem raridades que não existem nem na Biblioteca Nacional. Como é que pode transferir tudo aquilo em 10 ou 15 dias? E se perdem alguma coisa numa mudança dessas?", questiona.

Artistas debatem indefinição do centro cultural

Na próxima terça-feira, dia 30 de outubro, os integrantes do Programa de Pesquisa do Centro de Artes Visuais de Fortaleza, autores da exposição "Perambular, experimentar e correr perigo", convidam a classe artística para um debate sobre a situação do CCBNB-Fortaleza.

Mostra "Perambular, experimentar e correr perigo": desmontagem antecipada no CCBNB


Segundo o coordenador do Programa de Pesquisa, Enrico Rocha, o debate tem como tema central a relação das produções artísticas com as instituições. "Não queremos fazer esta conversa apenas para avaliar a desmontagem da nossa exposição. Pelo contrário: queremos estender o debate para a sociedade, para pensarmos sobre o lugar da arte na construção da cidade e onde e como ela tem sido difundida", explica o coordenador. Para ele, as instituições culturais e escolas de formação que assim se intitulam possuem uma responsabilidade muito maior com o produto cultural do que simplesmente ceder um espaço. "Não se trata apenas de espaço físico ou de recurso financeiro. É lógico que sem essas coisas não há produto artístico, mas o que se espera das instituições é muito mais do que o físico, é o comprometimento. Então, o que vamos debater é esse grau de compromisso", ressalta Enrico.

Convidados

Entre os convidados para a conversa estão Silvia Bessa, coordenadora da Vila das Artes; Jacqueline Medeiros, coordenadora de artes visuais e gerente interina do Centro Cultural Banco do Nordeste; o cineasta Alexandre Veras, do Alpendre; Beatriz Furtado, professora da Graduação em Cinema e Audiovisual da UFC e ex-titular da Secultfor; e o artista Moacir dos Anjos, ligado à Fundação Joaquim Nabuco.

Mais informações:

Debate sobre o Centro Cultural Banco do Nordeste, terça-feira, dia 30 de outubro, às 18h30, no CCBNB-Fortaleza (Rua Floriano Peixoto, 941 - Centro)

IRACEMA SALES
REPÓRTER