Moraes Moreira - Cantor e compositor

“Escrever esse livro foi como vivenciar tudo de novo”

João Gilberto mudou a música dos Novos Baianos para sempre. Este é apenas um dos pontos que Moraes Moreira deve repetir na noite de amanhã, no Nomes do Nordeste, em relação à conversa que ele teve com o Caderno3, por telefone, na última sexta. A seguir, outras considerações do velho Novo Baiano em torno do livro com suas músicas e a história do grupo.


O que te motivou a fazer esse projeto, contando sua trajetória e a dos Novos Baianos em cordel? Por que esse formato?

O formato em cordel, além de ser uma forma de expressão popular que permite humor, verdade, vivência, eu defini também porque o Galvão já tinha escrito um livro em prosa sobre os Novos Baianos. Achei que não faria muito sentido repetir. Como estou agora apaixonado pelo cordel, fiz estes 966 versos, todos obedecendo à métrica setessilábica do cordel. Fui com esse rigor do começo ao fim.


A tua visão diverge da contada por Luís Galvão?

Eu inclusive falo no livro que a minha intenção não é contestar o que já foi escrito, mas apenas contar do ângulo de quem viveu, sob a minha ótica. Pode divergir. Meu livro é cronológico, o dele são textos, histórias sobre os Novos Baianos. É questão de visão de cada um, mas em muitíssimos pontos, na essência, está tudo certo.


Na parte das letras, estão todas lá?


Não todas, as que têm importância de ligação com o público e que resistem ao papel. Além de ter colocado várias inéditas: “Sessentão”, “Poeta de Ouvido”, “Quase deserto”, “Sanatório ambulante”...


Por que não um songbook mesmo?

A intenção é mostrar a poesia, a música já tem no disco. Não quis fazer um songbonk, é um livro de poesia.


Como você escolheu os blocos, que não são lá muito rígidos?

O livro foi clareando, vinha pensando há uns dois anos, mas fazendo mesmo não tem nem seis meses. Cada bloco deu uma ligação.


Qual sua visão da dicotomia entre letra e poesia?

Eu acho que a poesia está na letra e a letra tá na poesia. Temos exemplos como o de Vinicius. Quis jogar um pouco a luz sobre o Moraes Moreira poeta, que sempre foi conhecido como compositor de música. É um lado que completa mais o artista Moraes Moreira. E como, em entrevistas, conversas, eu sempre contava oralmente a história dos Novos Baianos, a filosofia de vida, o livro meio que eterniza todas essas coisas. Quis compartilhar essa minha visão do Brasil dos anos 70 e da minha criação.


Como foi esse processo para contar a história do grupo, você recorreu a algum material?


Foi tudo lembrança, memória viva mesmo. Foi uma história muito forte pra mim, tá marcada mesmo em mim.

“Para sempre um Novo Baiano”...

Sempre ... Falo isso no final, faria tudo de novo.

Como foi, depois de escrever, selecionar os trechos e declamar aqueles versos?


Foi como vivenciar tudo de novo.  E no CD também foi forte. Muita emoção, exatamente o que vou fazer aí, vou narrar e vou cantar as músicas. Misturar declamação com canto, fazer esse livro. Faço a performance antes, e  depois de 50 minutos, abro para o público. No show, isso dá muito impacto, manifestações da platéia.


As referências que constam sobre a criação de algumas músicas são todas inéditas?


Muita coisa, quase tudo o público não sabia. São as entranhas da composição.

Por falar nisso, queria que me falasse de três poetas-parceiros: Galvão, Leminski e Fausto Nilo.


Fausto é um parceiro de muitos anos, um amigo, um irmão, continuamos exercitando nossa parceria. Pro próximo disco dele, fizemos uma que eu considero uma das melhores, um samba chamado “Eurídice”, que faz uma paródia com o “Doralice”, do Caymmi ... Passei o Réveillon aí, e fizemos outras músicas novas. Leminski foi um parceiro que conheci na Bahia, já admirava o trabalho dele como poeta. Ele vinha para a minha casa, em cada vinda a gente fazia... O único poema que musiquei foi “Leda”, antes da morte dele. Todas as outras fizemos junto. E Galvão, somos autores de 99% de músicas do Novos Baianos. Depois que saí, de vez em quando fazíamos uma música.

 

Dar esse depoimento ao BNB, no Nordeste, uma espécie de memória audiovisual comparável aos de arquivos culturais antes mantidos somente no sul, tem um significado especial?


É especialíssimo, além de ser no Nordeste, é em Fortaleza, cidade com que tenho uma ligação muito forte. É sobre uma coisa da cultura nordestina, Novos Baianos é nordestino. Pra mim é um momento que tem um peso muito grande.

Observando as letras e as referências,  percebe-se uma preocupação mais existencial, até religiosa, dos anos 90 para cá, até com referências ao “ser artista” e à “Filosofia”...


Com certeza, ainda bem que você viu. Isso é uma coisa que tem, esse lado mais místico, resultado de especulações existenciais, que a gente vai buscando. Tem uma fase ali da época do disco “Esse Brasil tem conserto” que isso estava bem acentuado. Sempre fiz diálogos com a Filosofia, a gente vai ficando mais velho... Tô ficando velho e fazendo prova, e virando poeta. A palavra escrita tem esse alcance.


Você tem outros projetos literários?


Tem um projeto de outro livro, mas não vou contar o que é...  Tenho escrito crônicas, poesias, um fato que eu veja... Agora mesmo, escrevi uma crônica sobre Ronaldo, o Fenômeno. É Fenômeno, sim! Termino desejando a ele, uma recuperação. Não vai ser surpresa se ele voltar. Já mandei para o O Globo. É uma coisa que gora estou fazendo com mais ênfase. A internet está meio que motivando a gente a fazer isso... Muita gente tem feito, e de alguma você está participando da vida do país.


Inclusive sobre política?


Política tenho um pouco de medo... Com tudo o que pode acontecer de ruim, que tem mesmo, a gente sabe, eu acredito no Brasil, num povo que tem um potencial grande, o mundo já olha para o Brasil de um modo diferente. Tenho críticas, mas também muitos elogios ao governo Lula.


Como foi a escolha do teu nome artístico?


Nasceu nos Novos Baianos, mas quando comecei a carreira solo, juntei os dois. Lá eu era uma peça de um grupo, era o Moraes. Galvão era o Galvão. Na carreira solo, o meu trabalho era mais pessoal, tinha que botar um título mais... Moraes Moreira tem um ritmo bom, uma musicalidade. E também marcava o início da carreira solo.

“Acabou Chorare” foi eleito o melhor disco brasileiro de todos os tempos (pela revista Rolling Stones - Brasil). A que você atribui isso, à sua síntese de linguagens -  samba, choro, bossa, rock?

Acredito que isso se deve a essa fusão, essa mistura, à brasilidade, à influência de João Gilberto e à execução. A performance nossa está excelente, em letra, composição musical. Sem falsa modéstia.

Por que nos outros discos o grupo não conseguiram dar continuidade a essa proposta com a mesma aceitação da crítica e do público?


É aquela história, a gente não faz dez “Acabou Chorare”. Teve  “Ferro na Boneca” e “Novos Baianos Futebol Clube” que considero bons demais, mas “Acabou” foi o momento  mais pleno.

A ligação com João Gilberto foi definitiva para a trajetória do grupo? E para a tua trajetória pessoal?

Definitiva... João chegou na nossa vida e virou nosso guru musical, mostrou um Brasil bonito, de Ari Barroso, de Assis Valente, de Herivelto Martins, de uma maneira moderna... E o grupo naquela hora chegou para o lugar certo. João é o produtor espiritual do “Acabou” e de depois, até hoje.  Agora está mais esporádico, mas mantivemos contato. Ele é uma  referência permanente pra mim e muita gente.


Paulinho Boca fez recentemente um disco de Bossa Nova...

Ele já foi crooner, cantava tudo. A intenção dele foi buscar esse crooner, que eu acho legal.


As piraçãos eram muitas nos Novos Baianos: aluguel, futebol, drogas, grana coletiva, uma verdadeira comunidade hippie. A chegada de Baby ao grupo foi decisiva para essa postura?


Decisiva... A Baby encarnava totalmente o espírito dos Novos Baianos, era a mulher brasileira representada ali dentro, a única mulher do grupo, com uma força impressionante, um canto e uma postura mesmo de Novos Baianos. Inclusive, era uma pessoa que puxava, transgressora, falando loucuras. A cara dos Novos Baianos...

Naquela época, havia muita gente seguindo aquele estilo de vida, vocês conviviam com outras comunidades?


Não, a gente estava vivendo a nossa comunidade, estávamos concentrados naquilo. Tinha outros amigos, que nos visitavam, mas para ir junto... Esporadicamente, a gente tinha relacionamento com outros artistas.


Quais as melhores recordações daquela convivência?


Muitas, o time era algo muito legal. Eu era artilheiro, centroavante. A gente praticamente treinava todo dia, e jogava contra os times da região, era um time abusado. E os caras não queria perder dos cabeludos. Apanhávamos e batíamos também.


Qual a relação entre vocês e os engajados e ainda com outros artistas e transgressores da época, como os escritores marginais, os Tropicalistas e os Mutantes, por exemplo?


Tudo isso, convivíamos com todo mundo. Com a turma do Pasquim... Éramos amigos, embora fôssemos diferentes. Nossa política não era panfletário, era na estética, no cabelo, no jeito de levar a vida.

O rótulo “desbunde” define bem vocês?

Sim, com certeza. Era desbunde mesmo. O mundo todo era isso, éramos uma resposta brasileira a esse movimento.


Com que contribuição mais brasileira?


Éramos uma solução super-brasileira, tínhamos até um time de futebol. Uníamos duas paixões nacionais, um retrato do Brasil e sempre antenado com o que vinha acontecendo no mundo, política e esteticamente.


Esse tipo de convivência fez ou faz falta às novas gerações? Os filhos de vocês nunca se preocuparam em se unir...


Não sei, era naquele momento político, histórico e artístico. Era uma resposta... Não sei se hoje... Pra nós foi muito bom... Resultou nos discos, nas gravações.. Hoje, os filhos não moram em comunidade, mas eles se sentem irmãos, eles contam a história. E outros artistas, Marisa, Titãs e outros...


Como foi a reação dos teus filhos ao teu depoimento?

Foi maravilhosa, todo mundo adorou e sentiu que era verdade, era isso mesmo, não houve nenhuma desaprovação, nem pelos Novos Baianos também. Fiz shows no Rio e na Bahia, em que Baby e Galvão participaram.


Você tem projeto de um novo disco?

Agora tô envolvido no livro, cheio de músicas novas... O próximo seria um DVD... Tenho já o Acústico MTV, mas estou sem pressa. A indústria está muito devagar... Isso vai acontecer. Tenho muita coisa nova minha só e coisas com Fausto e outros parceiros.


Seu depoimento no cordel é muito enfático, mas você poderia dizer mais objetivamente por que você saiu do grupo?


Cara, eu tinha já cinco anos no grupo. Uma convivência intensa como a nossa, em algum momento a gente vai bater de frente. Começava a ter algumas discordâncias do rumo, principalmente da coisa de ter que morar junto, eu já tinha dois filhos, a situação financeira era meio difícil, com crianças... Além dos anseios de fazer uma carreira solo, eu considerei isso. Qualquer coisa mais pra frente poderia parecer repetição. Minha decisão é norteada por estes sentimentos.


Sua saída foi bem catalisada?

Toda separação, não adianta dizer que é numa boa, mas foi traumática pra mim e para eles. Tive que recomeçar.... Foi um desafio enriquecedor.


Como ficou a relação entre vocês logo depois da sua saída?


Ficou um pouco estremecida, mas foi melhorando. Depois todo mundo fez carreira solo também...

Como foi recomeçar, então?

Foi um desafio muito grande em que usei para voar asas de um pombo-correio que me afirmou.. Deixei de ser apenas o ex-Novos Baianos.


A história da “Pombo-Correio” era inédita?


Não, eu já tinha contado, aqui e acolá... [No livro, Moraes conta que a música, composta 25 anos de seu lançamento, em 75, vinha de uma criação de Dodô e Osmar chamada “Double Morse”].


As criações do grupo nunca tenderam a ser ainda mais coletivizadas, com todo mundo se apropriando das músicas de vocês?


Quando aconteceu a volta, em 97, as músicas foram mais coletivas, mas a marca éramos nós, eu e Galvão. Mas não havia ciúme, todo mundo tinha sua função, naturalmente. Era o talento natural de cada um, por isso o grupo era homogêneo.


Quem você vem apreciando da nova geração a que pertencem os filhos dos Novos Baianos? Depois dos Tribalistas, você percebe ecos dos Novos Baianos em trabalhos como os da Orquestra Imperial ou os de novos sambistas  cariocas, por exemplo?


Tem muita gente boa, quando vi o Chico Science pela primeira vez tomei um susto e reconheci um pouco da gente ali, tradição e modernidade. E agora tem a Orquestra Imperial, tem alguns grupos que você percebe que o pessoal conheceu o que a gente fez.

Henrique Nunes
Repórter