Morada da música

Encravada no burburinho do Centro, a Escola de Música Luiz Assunção guarda histórias várias do cenário musical de Fortaleza. E segue atraindo alunos, perto de 60 anos de atividades

Na rua Solon Pinheiro, número 60, bem em frente ao Parque da Criança, imprensada ali, entre o antigo prédio do IBEU, hoje transformado em estacionamento, e a ABCR (Associação Beneficente Cearense de Reabilitação), está a Escola de Música Luiz Assunção. O casarão foi construído em 1875 e está com tombamento provisório feito, através do decreto número 11.961, de 2006, pela Prefeitura de Fortaleza.

Em setembro, esse mesmo palacete completará 60 anos de portas abertas para a música. Bons tempos em que recebia a fina flor da burguesia fortalezense para celebrar a criação da Sociedade Musical Henrique Jorge, cuja finalidade precípua era manter a primeira Orquestra Sinfônica do Ceará.

E assim foi feito. De 1950 a 1979, as noites naquele pedaço de chão da cidade, às segundas, terças e sextas-feiras, eram tomadas pela elegância da música erudita, nacional e internacional, regida ao longo de 29 anos de resistência por nomes como Orlando Leite, Mozart Brandão, João Inácio e Cleóbulo Maia.

"Em 1982, quando assumi, fazia três anos que esse prédio estava abandonado, transformado em conventilho, com redes armadas por todos os lados, dejetos humanos nos salões principais", recorda Jairo Castelo Branco, até hoje diretor-presidente da Sociedade Musical. "A orquestra começou a fraquejar porque o dinheiro começou a rarear. Quem ajudou muito nisso aqui foi o ex-governador Paulo Sarasate, muito porque a Sociedade levava o nome do pai dele, o maestro Henrique Jorge. Depois a Universidade Federal do Ceará passou a doar dez mil cruzeiros por ano, mas depois suspendeu também. Mas vou continuar, eu não desisto, vou até o fim", diz Jairo.

E, pelo andar da carruagem, o fim pode não estar muito distante. Há pouco mais de dois meses, parte do teto do escritório onde estão as partituras da Orquestra Sinfônica, jornais antigos, fotografias antológicas e documentos históricos, não resistiu às fortes chuvas e, literalmente, desabou.

"Eu estava sentado aqui nessa mesa e uma aluna me chamou para mostrar algo lá em cima. Levantei, tinha dado dois passos depois da porta, quando ouvi o estrondo. O forro inteiro caiu justo onde eu estava sentado. Foi incrível! Agora levei quase tudo para casa, fiquei com medo de perder esses arquivos", relata o professor Jairo, apontando os entulhos do desabamento, ainda por toda parte.

E é para ter medo mesmo. Afinal, estão totalmente deterioradas as telhas do salão onde tantas vezes foram executados concertos de pianistas como Dinna Picininni, Mozarina Ciarline, Belkisse Vilanova e Maria Luiza Vasconcelos, acompanhados das sopranos D´Alva Stela e Elda Martins, e dos tenores Luiz Cardoso, Raimundo Arrais, Henrique Bluhm e do próprio Jairo Castelo Branco.

Ceará, cemitério da cultura

"O Ceará é o cemitério da cultura. É pior que isso. O Ceará nunca prestou, em matéria de arte. Mais ainda: o Ceará não vale nada", repete Jairo, com a voz de quem já lutou muito. Mas, embaixo de toda essa casca grossa, atrás desse cenário de destruição, e acima dos esquecimentos comuns em nossa cidade, muita vida ainda pulsa ali dentro. O público mudou, não resta dúvida. O repertório também, e muito.

Hoje, ao invés dos exímios músicos que tinham como meta executar Beethoven, Chopin ou Strauss, os jovens que frequentam a Sociedade de Músicos, transformada desde 1982 na Escola de Música Luiz Assunção, têm objetivos bem diferentes.

"Os que vêm aqui hoje aprender a cantar ou tocar ou são de igrejas evangélicas ou de bandas de forró", revela Edilson, professor de bateria da Escola há 15 anos. "Eles vêm de bairros como Pirambu, Serviluz, Bom Jardim, Eusébio. Procuram a Escola porque oferece preços baixos, mas o quadro de professores é muito bom. Muita gente pega uma base aqui e depois segue para o mundo".

Lembranças de Assunção

Mas é numa pequena sala do subsolo, equipada com gravador duplo deck, som três em um, gravuras cristãs e pagãs, piano Brasil de imbuia, garrafões vazios de água, e um aviso em letras garrafais: "Respirou bem, cantou bem. Respirou mal, cantou mal", que o atual presidente da Sociedade dos Músicos, "o barítono brilhante" Jairo Castelo Branco, exerce sua paixão: ensinar meninos e meninas a soltar a voz. A seu lado, uma garota de cabelos, olhos e tez pretos canta lindamente. "Olha aqui, ela está cantando como um pássaro, livre, a plenos pulmões. Sou tarado por voz".

E segue debulhando seu rosário de memórias. "Em 1992, decidi homenagear meu grande mestre e amigo Luiz (Gonzaga) Assunção (maranhense, compositor e entusiasta do carnaval cearense) colocando o nome dele na Escola. Tudo que canto devo a ele. Fizemos muitos concertos, ele ao piano, e eu cantando boleros, música italiana... Fui um milongueiro. Fiquei ao lado do Luiz até o final, inclusive quando ele não tinha nem o que comer. Porque, como já disse, o Ceará é a sepultura dos artistas. Todos são esquecidos. Ninguém aqui valoriza nada".

Entre as fotos de arquivo que guarda como tesouros invioláveis, retratos, por exemplo, do 77º aniversário de Luiz Assunção, em 1979, ao lado de dona Izaura Assunção, hoje com 104 anos, e Christiano Câmara, bem magrinho. Outra foto traz Ricardo Guilherme, trajado elegantemente com calça boca-de-sino quadriculada, paletó branco e sapatos bem engraxados, entrevistando Assunção no palco da Escola. Outra, a Orquestra Sinfônica Henrique Jorge, em 1954, em apresentação no Theatro José de Alencar com nove acordeonistas à frente, fazendo jus à moda de então.

"Fizemos um show artístico no Theatro José de Alencar, vendemos 232 ingressos, a Cr$ 30. Arrecadamos R$ 6.860", recorda Jairo, como se tivesse acabado de fechar as contas. "Compramos um piano e demos a Luiz de presente. Esse foi um dos momentos mais importantes de minha vida. Mas, agora, veja aí, estou esperando da Prefeitura. Muita gente vem aí, mas ninguém faz nada. Eu fico aqui, cuidando do patrimônio que me foi confiado pelos amigos. Não sei de nada", tergiversa Jairo.

E se passado de glória não paga dívidas, o presente quase miserável segue acumulando saldos negativos. De acordo com o e-mail respondido ao Caderno 3 pela assessoria de imprensa da Coordenadoria de Patrimônio Histórico e Cultural, da Secretaria de Cultura de Fortaleza, em nome de André Aguiar, a respeito do tombamento provisório do prédio da escola, não há projeto de restauro do imóvel.

"Os estudos para o tombamento definitivo foram concluídos, mas o litígio entre os proprietários (trata-se de um bem particular) comprometeu o tombamento definitivo. De acordo com a lei municipal 9347/2008, que dispõe sobre a proteção do Patrimônio Histórico-Cultural e Natural do Município de Fortaleza, os bens tombados serão mantidos em bom estado de conservação e por conta de seus proprietários, possuidores e eventuais ocupantes, os quais ficarão obrigados a comunicar à Coordenação de Patrimônio Histórico-Cultural da Secretaria de Cultura de Fortaleza (SECULTFOR), o extravio, furto, dano ou ameaça iminente de destruição dos mesmos bens, seja por ação ou omissão do infrator".

Lá fora, enquanto a vida continua ao som dos "rebolations" e outras pérolas do gênero, as buzinas e os berros dos vendedores competem com as notas ensaiadas no casarão antigo. Aulas de violão erudito e popular, violino, bateria, cavaquinho, bandolim, guitarra, canto, piano, teclado e outros instrumentos continuam assombrando as paredes altas. Agora, literalmente, ao alcance do povo.

MAIS INFORMAÇÕES:
A Escola de Música Luiz Assunção fica na Rua Solon Pinheiro, 60, em frente ao Parque da Criança, no Centro de Fortaleza. (85) 3252. 5282.


NATERCIA ROCHA
REPÓRTER