Metáfora do mundo

Jarbas Oliveria/Divulgação

Com o sertão encravado na alma, o cearense Ronaldo Correia de Brito vem rabiscado suas histórias. Causos de forte apresso regional, donos de uma geografia expressiva, mas impregnados de uma essência universal, que os faz ainda mais envolventes. Artista polivalente, o escritor, dramaturgo, letrista e roteirista deu as caras pelo cenário que transfigura e poetiza em suas letras. Respaldado pela autoria de peças singulares no manuseio do repertório ligado à tradição, o I Festival dos Inhamuns o convidou a realizar um passeio de reencontro à matriz de sua vida e sua obra. No regresso, ele deveria discutir as possibilidades expressivas da dramaturgia popular. A idéia ficou pelo meio do caminho. O motivo? Ronaldo se encantara com a movimentação cultural que encontrou nos Inhamus

Hoje, se arremata a realização do I Festival dos Inhamuns. Foram sete dias de arte em tempo de festa, aquecendo, ainda mais, o caloroso dia-a-dia do sertão cearense. Os picadeiros ainda estão armados, mas a edição primeira já se faz derradeira. Pelas ruas das cidades de Arneiroz, Crateús e Tauá já ecoam projeções para o encontro do ano que vem. No mote das conversas futuristas, uma avaliação rasteira do que teve de bom, também daquilo que não caiu muito bem, mas, principalmente, a certeza de que o espetáculo, como bem diz o palhaço, não pode parar. Tal e qual pensa o escritor cearense Ronaldo Correia de Brito, ilustre representante da região.

“Fui chamado para falar sobre dramaturgia popular. Terminei não falando. Quando vi essa meninada aqui, agitada em torno da realização desse Festival, preferi falar do quê essas cidades podem fazer com sua cultura. De como elas podem se contemporanei-zar com aquilo que já tem”, pondera. Ao propor essa peleja, Ronaldo Correia de Brito expõe, na verdade, aquilo que lhe acontecera. Revela, e o faz com a mesma magia com que escreve suas peças, músicas e contos, o processo que percorreu para se transformar num artista de projeção nacional e internacional, afamado por falar do mundo, o revelando como reflexo do universo onde vivera em tempos de fralda e de gaiatice de menino.

Antes mesmo de irromper nesse mundão de Deus, o autor já tinha seu destino traçado. No sangue que corre nas veias, estava garantida uma banda daquilo que viria a se constituir como metáfora de sua vida e sua arte. Filho de pai varzealegrense e mãe cratense, Ronaldo Correia de Brito, do berço, tem o Cariri embuído na alma. Faltava, pois, a metade que os Inhamuns viria lhe oferecer. Como que fruto de uma combinação, ele foi derradeiro dos herdeiros dos Correia de Brito a nascer na pequena Saboeiro. Aos cinco anos de idade, ele se muda, com toda a família, para cidade do Crato, onde nasceram seus quatro irmãos mais novos.

“Se não existissem o sertão dos Inhamuns e o Cariri na minha vida, não sei o quê teria sido de mim. Certamente, não teria sido escritor. Só escrevo porque os tive”, revela. E olhe que dos seus 54 anos de vida, só 17 foram vividos no Ceará. Do Crato, transferiu-se para Recife, levando, na mala, o compromisso de estudar, virar doutor, ganhar dinheiro e, assim, poder ajudar a família. Anos depois, se formaria médico. Nos corredores da Universidade Federal de Pernambuco, fez muitos amigos e viu sua arte florescer. Lá, protagonizou seu encontro com Ariano Suassuna, à época, diretor do Departamento de Extensão Cultural da UFPE, e muitos de seus pupilos, como os Antônios Nóbrega e José Madureira.

No despertar dos anos 70, o cearense iniciava sua carreira, desde o princípio alinhavada por um fio, bastante colorido, de ousadia. Em 1973, realiza o documentário “Cavaleiro Reisado”. Em 77, lança o longa-metragem “Lua Cambará”, desabrochando sua fértil parceria com Madureira. Com quem viria lançar a Trilogia das Festas Brasileiras, composta pelas peças “O Baile do Menino Deus”, “Bandeira de São João” e “Arlequim”, que foram transcritas em livros (recentemente relançados pela Editora Objetiva), discos e espetáculos teatrais. Já no começar de sua vida artística, um primeiro desafio: transitar pelo Armorial, sem vestir a carapuça do movimento encabeçado por Suassuna.

A ORALIDADE DOS INHAMUNS

“Quando Ariano viu meus filmes, queria que eu desenvolvesse um cinema armorial. Eu não queria isso. Eu não era, nem nunca fui, um armorial”, ressalta Ronaldo Correia de Brito, apesar de ter, com ilustres armorialistas, realizado trabalhos referenciais. É de sua direção, por exemplo, “Maracatus Misteriosos”, de 1983, primeiro sólo de Nóbrega, após o ciclo frutífero com o famoso Quinteto. O escritor cearense destaca que, apesar do interesse maior pelo popular, sempre tivera um olhar especial para o urbano, nunca se privando de experimentar o quê não carregava a chancela da tradição. “Nunca precisei dizer que não gostava de Bossa Nova, que não gostava de Bob Dylan. Adorava Janis Joplin, Jimmy Hendrix. Sempre fui um cuca aberta. Queria era encontrar minha própria linguagem. Linguagem essa que abarcasse o meu lastro cultural, toda a tradição oral que adquiri no Sertão dos Inhamuns e no Cariri”, argumenta.

Aos seis anos, a revelia do que sua condição social lhe impunha, Ronaldo acompanhava os Irmãos Aniceto pelas feiras e festas. “Eu era quase um fanático por eles. Não era um brincante, mas sabia que aquilo não era algo exterior a mim”, lembra. Do contato com as bandas de pife, com os reisados, os dramas, os autos populares, o autor fortaleceu o arcabouço de sua expressão. Apropriando-se desse repertório, ao passo que devorava Machado de Assis e José Alencar, os clássicos gregos e russos, passando pelo teatro de Shakespeare e Molière, ele firmou as bases onde depois viria a construir, inventar no melhor dos sentidos, um universo rico, que em muito dialoga com o sertão onde vivera.

“Minha literatura possui uma geografia, sim. Mas, a verdade é que essa geografia não existe. Ela é mítica. O sertão é um mundo imaginado. No final das contas, eu crio tudo isso”, explica. “Ou você acha que a Macondo de García Márquez existiria sem sua Aracataca, apesar de uma não ser, necessariamente, um retrato da outra?”, questiona o cearense, comparado o dilema de sua obra com a do escritor colombiano. Para Ronaldo Correia de Brito, os Inhamuns e o Cariri existem além de sua escrita. “Eu escrevo a partir desse universo, mas ele é independente de mim”, destaca. Fato é que ele foge das rubricas, não se reconhece como um “neo-regionalista” apenas por ser nordestino, mas não abre mão do mote que acompanha sua prosa.

O Sertão dos Inhamuns e o Cariri cearense podem ser, ou melhor, são, segundo o escritor-médico entendedor da alma humana, o centro do mundo. “Por que não aqui? Por que não contar daqui minhas histórias, se é a partir daqui que eu leio o universo? O sertão é um micro-sistema que têm todas as problemáticas do mundo”, considera. Justamente por pensar e agir assim, Ronaldo Correia de Brito caiu em graças com a movimentação que encontrou por essas terras tão conhecidas em sua essência, ao visitá-las durante o I Festival dos Inhamuns. Para ele, a cena cultural cearense demarca sinais de um novo tempo. Um momento em que o Ceará, enfim, parece lidar melhor com suas manifestações populares, sem esquecer de que é preciso, e importante, estar conectado a outras culturas. “O Ceará precisa, antes de estar aberto para o mundo, estar aberto para si próprio”, alerta. Pois, foi exatamente esse o norte trabalhado nesse primeiro encontro que reuniu a arte circense e bonequeira no coração do sertão do Ceará. Ao mesmo tempo em que recebeu artistas internacionais, de experiência mais contemporânea, o Festival dos Inhamuns foi palco para produções locais, como os reisados que foram apresentados em Arneiroz, por exemplo, aos quais assistira Correia Brito, em sua passagem pelo evento. Fugindo às tradicionais comparações que acirram a nada recente rixa cultural entre Ceará e Pernambuco, o escritor, que vive em Recife há 36 anos, considera que os cearenses estão, agora, atentando, como de fato se deve, às suas manifestações populares.

“Pernambuco, isso não há como contestar, percebeu isso há bastante tempo. Lá existe uma tradição antiga de valorização das expressões populares. Houve um investimento pesado do Estado nisso. Eu mesmo participei desse investimento. Mas, vejo, no Ceará, algo acontecendo nesse sentido”, avalia. “Olhe só o tanto de gente olhando o Reisado de Mestre Antônio aqui nessa praça, em Arneiroz, e nós aqui, perdendo”, comprova sua tese, Ronaldo Correia de Lima, arrumando um desfecho teatral para encerrar a entrevista. Antes, porém, não se furtou a fazer uma ressalva, que mais parece cutucão na letargia cultural que, em alguns momentos, insiste em afetar o Ceará.

Na credenciada opinião desse sertanejo que tem visto sua obra pipocar pelo mundo (em pouco mais de dois anos, a Editora Cosac&Naify publicou três livros do cearense, “Faca”, “Pavão Misterioso” e “Livro dos Homens”, todos bastante alardeados pela crítica), o Ceará não fica, em nada, a dever a lugar nenhum do mundo. “Temos um poeta como o grande Gerardo Mello Mourão. Temos um contista do porte do Moreira Campos”, pontua. “O que falta é a gente se curtir mais. Isso vale para tudo, não só para as artes”, adverte. Recado dado. Prosa encerrada. Como também o I Festival dos Inhamuns, que demarcou espaço e já deixa saudades.

Magela Lima
enviado aos Inhamuns