Maracatu Rei de Paus

A RAINHA do Maracatu Az de Ouro, José Ferreira de Arruda, o Zé Rainha, começou a dedicar-se à arte cearense há 40 anos, no Maracatu Rei de Paus
A RAINHA do Maracatu Az de Ouro, José Ferreira de Arruda, o Zé Rainha, começou a dedicar-se à arte cearense há 40 anos, no Maracatu Rei de Paus Divulgação
Um maracatu atemporal desfila pelas ruas desertas do Centro de Fortaleza. As tochas dão um ar fantasmagórico. O batuque tem uma batida solene. O clímax do cortejo é a coroação da rainha. A procissão passa pela Rua das Flores, Rua Formosa e chega à Praça dos Mártires. A rainha é abanada por leques, sob o pálio de rendas

Sorte para a Avenida Domingos Olímpio. Há uma expectativa pela passagem do Az de Ouro. Tem sido assim, desde 1936, quando ele foi fundado por Raimundo Feitosa. Mas não venham com histórias de que o cortejo foi importado do Recife. Tivemos nossas irmandades de negros, igrejas de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos e coroações nas ruas do Crato, Icó e Aracati. Feitosa foi o elo perdido entre o século XIX e a cultura de massas, quando o maracatu saiu das senzalas para os aplausos e a emoção do carnaval, capaz de nos deixar tão arrepiados em meio à vitória de Dionísio.

O menino José Ferreira de Arruda, nascido em Lavras da Mangabeira, dia 6 de junho de 1933, nunca poderia imaginar que um dia faria parte de um cortejo, que desfila, solene, em memória de nossos ancestrais. Menos ainda que seria o centro desta procissão, sua rainha. Esta história de conto de fadas envolve tradição, etnia e carnaval, ingredientes de um relato de encantamento.

O filho de Júlio José da Silva e de Josefa Arruda da Silva, perdeu o nome de família porque foi registrado por uma tia “que não gostava muito dessa história de Silva”. A família era pequena: cinco filhos. Restam três: ele, Francisco e Miguel. O pai, agricultor, trabalhava as terras de seu Amâncio Leite, o sítio Tatu, mas a família morava na cidade.

Zé não estudou: “quando me entendi de vida, já foi para trabalhar”. Vieram para Fortaleza fugindo de uma seca. Ele diz que tinha entre doze e treze anos.

A viagem foi de trem e eles se fixaram em Otávio Bonfim, perto da Estação. O pai trabalhou como vigia numa oficina, à rua São Paulo, até morrer, aos sessenta e poucos anos.

A mãe “lavava roupa e cozinhava nas casas dos ricos, quando havia banquete”. Fazia chapéus de palha, que aprendeu quando era moça, em Lavras. Viúva, passou a morar na casa de uma irmã, e morreu em 1993.

CIDADE

Zé não teve muita escolha. Deu duro para sobreviver na cidade grande. “Trabalhei como jardineiro, copeiro, babá, tudo eu fui na vida. Não tinha estudo pra fazer outra coisa”, diz resignado.

Morava sempre nos empregos, quase todos no centro. Viveu uma Fortaleza muito pacata, com seus cinemas, famílias que saíam aos domingos para ver as vitrines, muita hipocrisia, irreverência e menos violência.

Um dos seus empregos mais duradouros, e que gosta de relembrar, foi o de “arrumador do Hotel Fortaleza”, de dona Olívia Cardoso, à rua Senador Pompeu. “Ela ainda vive, está só o caquinho”, diz, entre perverso e amoroso.

Achava os maracatus muito bonitos. Quem não acha?

Em 1943, quando ele tinha dez anos, uma Missão da Biblioteca do Congresso Norte - Americano esteve aqui registrando manifestações do folclore. O pesquisador, L.H. Corrêa de Azevedo, munido de discos de metal e de vidro, registrou coquistas, violeiros, pontos de macumba e loas de maracatu, cantadas por Raimundo Feitosa.

Nos anos 50, o maracatu “Az de Espadas” era uma apoteose. Levava muita gente ao corso. Depois vieram o “Leão Coroado”, o “Rancho Alegre”, o “Rancho de Iracema” e o “Rei de Paus”. O “Nação Uirapuru” desfilou apenas um ano, relembra, pensativo, Zé.

Chegavam a ter arremedos de carros alegóricos, como navios negreiros, casas de farinha, engenhos. Mas sem exigências absurdas de regulamentos de comissões julgadoras.

Zé não resistiu e, em 1963, “entrei pro ‘Rei de Paus’, onde fiquei vinte anos”. Começou como princesa. Em 1964, enquanto a cena política brasileira fervia, José Lisboa fazia uma eleição no programa de auditório “Fim- de- Semana na Taba”, da rádio Iracema, para escolher a nova rainha do “Rei de Paus”.

Eram três os concorrentes: Zé, Aderson e Vicente. Depois de muitos aplausos, claques, “fiu-fius”, venceu Zé, que a partir desse instante passou a ser Zé Rainha: “comecei na corte, vou morrer na corte”.

PERSONA

Curioso o maracatu cearense, com a participação dos índios, numa síntese de nosso caldeamento étnico e numa incorporação dos “caboclinhos”. Talvez, pelo fato de poucos sermos 100% negros, como estampa a camiseta que não se pretende racista.

Os negros constituem o núcleo central. O baliza abria o cortejo. A calunga, a boneca preta, encimava o pálio. As mucanas formavam alas. O balaieiro poderia agradecer à fertilidade da terra. O batuque, marcado pelos atabaques, zabumbas e pelo tinir do ferro dos triângulos. O casal de pretos-velhos reverenciava nossos ancestrais que padeceram açoites, foram amarrados ao tronco e vendidos em leilões e feiras. Não eram seres humanos, mas mercadoria, “coisa”, segundo a Igreja e a lógica mercantilista então vigente.

O carnaval enfatiza a corte: príncipes e princesas, o rei e a rainha. O rosto pintado de preto não macaqueia uma etnia. Não estamos diante de um desrespeito ou de uma fraude ( como a televisão que pintou o rosto de Sérgio Cardoso para viver ‘A Cabana do Pai Tomás’).

O rosto é pintado de fuligem de lamparina, abafada numa lata de querosene, ‘depois se raspa o pó que vai ser misturado à vaselina sem cheiro’. Como se pintam os rostos no teatro nô ou no kabuki. Tem algo de indicial e de ritual, de reverência ao ‘pretume’ que não temos, diluídos que somos na ideologia da mestiçagem cabocla.

Não provoca alergia, pelo menos em Zé Rainha. Aplicá-lo é um ritual dentro do ritual, depois de vestir a blusa e de colocar a peruca. Diante do espelho, o batom acentua a linha dos lábios e a mistura é aplicada com cuidado, como se compusesse uma máscara africana, daquelas que inspiraram Picasso para a invenção do cubismo.

Por isso, a rainha negra tem uma altivez. Durante muito tempo foi assim. Misógino, o maracatu recrutava homens, como no teatro elizabetano. Muitos eram estivadores, diz Zé Rainha, “aquelas negronas”. Depois entraram as mulheres, como a Bida, do Leão Coroado, que também era negra. Hoje, elas chegam a ser rainhas de alguns deles, como o do maracatu “Vozes d´ África”.

Outro ponto diferencial do nosso cortejo, em relação ao pernambucano, é que eles não se pintam, e se vestem com menos pompa.

Zé Rainha se queixa de que introduziu o “luxo” no cortejo. Antes as roupas eram brancas com detalhes pretos ou vermelhos, conforme mostram as fotos de época. Fez questão de brilho, exigiu brocados, lantejoulas, miçangas. Afinal de contas, como disse um filósofo brasileiro, “quem gosta de miséria é intelectual”.

FESTA

Zé Rainha sempre foi fiel ao maracatu, um compromisso para a vida inteira. Reclama que hoje as pessoas cobram para brincar. No começo, não era assim. Nosso carnaval anda em baixa. Investiram em apelos para tirar as pessoas de Fortaleza durante o chamado “tríduo momesco”. Elas obedeceram e vão para as praias ( ou dançam um carnaval fora de tempo). A cidade fica deserta. Pouca gente vai ver o maracatu passar. E eles já passaram pela Senador Pompeu, Duque de Caxias, Dom Manuel, Heráclito Graça, Aguanambi.

Quem vai tem uma emoção única. É indescritível o prazer de acompanhar aquele batuque plangente, “muito mais solene que o de Pernambuco”, chama a atenção Zé Rainha, que nunca foi ao Recife. Gostaria de participar da “noite dos tambores silenciosos”, homenagem aos que morreram ou foram torturados durante a escravidão. Mas se for, não pode desfilar aqui...

Conhece os maracatus pernambucanos que fizeram apresentações em Fortaleza e deita regras: “o daqui tem mais respeito, aquele ritmo mais lento, as pessoas mais bem vestidas”.

“Os blocos recebem pouco da Prefeitura, ainda fazem as fantasias, e se forem pagar as pessoas para fazerem parte, não dá dez reais para cada um...”.

Ele é daqueles que “vestem a camisa”. Uma vez brincou no cordão “Garotas do Sputinik”, em 1962, “coisas da juventude” e saiu na escola de samba “Império Ideal”, num enredo onde entrava um maracatu e ele era, como não poderia deixar de ser, a rainha.

Católico, devoto de Nossa Senhora da Conceição e São José, de quem tem “um vulto”, Zé Rainha é categórico ao negar a relação dos maracatus com os terreiros. Enfático até demais, como se fosse depreciativa a participação nos cultos afro-brasileiros: “o povo tem essa besteira, não tem essa ligação”, diz, contendo a irritação.

Fala de um pai-de-santo famoso, “Padrinho” Zé Alberto, que adorava maracatus e saía de príncipe, todos os anos, até morrer. Outro que “cantou e subiu”, Luiz de Xangô, tinha um maracatu e um terreiro de candomblé no Bom Jardim. Um brincante famoso foi Zé Tatá, que marcou época na noite de Fortaleza, no tempo dos bordéis, espécie de Madame Satã, em versão cearense, e que sempre saía de princesa.

Talvez Zé Rainha seja contra a associação automática, como se todo brincante fosse filho de fé.

E umbanda, candomblé se somam aos rituais indígenas, com transes, beberagens que provocam estados alterados de consciência (cauim, mocororó, jurema) e temos um caldo único de cultura, uma religião “das bordas”, que não precisa mais associar entidades e forças da natureza aos santos católicos, como forma de se preservar de punições e censuras.

Zé Rainha diz que não, mas há uma mistura de roupas de terreiro com carnaval e com a festa de Iemanjá, na Praia do Futuro. E qual o problema? O carnaval também não é um ritual dionisíaco? Não se baseia na subversão dos valores, na transgressão dos papéis, no “mundo às avessas”?

Não é à toa que José Ferreira de Arruda é Zé Rainha. Só que ele se recusa a viver a personagem apenas durante os dias da festa. Ele é Zé Rainha todos os dias do ano.

VIDA

Zé Rainha. Assim estava escrito em seu cartão de visitas, nos anos 80, quando tinha uma casa de cômodos à rua 24 de maio, 1094.

Hoje, ele mora em um labirinto de pequenos compartimentos, em Jacarecanga, espécie de cortiço, protegido dos olhares de quem passa. Condição de vida muito difícil para quem, aos setenta anos, não conta com uma aposentadoria, “por causa do protocolo, que é demais. Prometem para janeiro do ano que vem”, diz, sem muita esperança.

Enquanto isso, “vai levando”, como na canção popular. Faz biscates, conta com a ajuda dos amigos, do pessoal do “Az de Ouro”. Mas não faz “festival de miséria”. É altivo o bastante para não se vitimizar. Afinal de contas, quem é rainha será sempre majestade.

Quando soube que a Rainha Elizabeth II estava no trono há 50 anos, disse que teriam que providenciar um carrinho para ele desfilar, “igual ao do papa”, ri desconfiado.

Fala que a rainha precisa ter porte. Ela não canta as loas, mas sorri, acena, se embala docemente nas ancas de arame da saia rodada. Descarta as rainhas afetadas, diz que não é necessário o exagero. A rainha se impõe e “é preciso ter responsabilidade”.

Chegou a usar tamancos, mas se equilibrava mal, afinal de contas, a roupa pesa em torno de quarenta quilos. Hoje usa tênis, que chama de “sapato fanabô”( “é o novo”).

Nas relembranças, o auge da “Ispáia Brasa”, quando o modelo de escola de samba carioca estava sendo exportado para todo o Brasil, integrado pela televisão via satélite, como política cultural do regime autoritário.

Antes, existiam as escolas de samba “Luís Assunção”, “Prova de Fogo”, mas não era a mesma coisa, tinha até instrumento de sopro, e poucos sabiam sambar. Mais para trás, ainda, tivemos a escola de “Lauro Maia”.

A perversidade do novo modelo foi de querer tratar o maracatu como se fosse escola de samba. Teve que adotar um enredo (o enredo não é a coroação da rainha?), ter alegorias de mão e obedecer a outros quesitos de avaliação das escolas. Foi o tiro de misericórdia. Mas o maracatu tem sete fôlegos e renasceu, graças ao empenho de muita gente que acredita, investe nele, sabe que ele merece respeito.

Hoje o maracatu tem seu dia: 13 de maio, outra alusão à história oficial, como o 25 de março cearense. Mas existe o “Dia da Consciência Negra” (20 de novembro), que é muito mais importante que episódios de uma história factual e, se “todo dia é dia de índio”, pode-se dizer o mesmo dos negros, mulheres, homossexuais, nordestinos, e por aí vai.

EVOCAÇÃO

Os confetes choviam no ar, as serpentinas enlaçavam as pessoas e o cheiro de lança-perfume “Rodouro” não era proibido.

Airtinho fechava no “Meninas do Barulho”, Catita France arrasava no “Garotas do Sputinik”, no carnaval do pós-guerra tivemos o cordão das “Coca-Colas”, zombando dos yankees” que voltaram para casa, em boa hora.

Juca será sempre nossa referência de balaieiro. E a loa, nostálgica, embalava nossa idade da inocência: “Eu vou, eu vou / e você não vai / apanhar macaúba / do meu balaio” ou “boneca preta do maracatu”.

Zé Rainha diz que já ouviu falar de seu xará ilustre, personagem da política, Rainha de um outro grande maracatu, o dos “sem-terra”. Diz que, curioso, o viu na televisão, uma vez.

E já se prepara para o próximo carnaval, quando, apesar da crise, estará, mais uma vez, comemorando esta maravilhosa aventura de viver.