Maestro ao realejo

Arranjador e produtor, testemunha dos bastidores da música brasileira, o maestro Rildo Hora traz seu "realejo" a Fortaleza. A noitada do Fórum Harmônicas Brasil, no Anfiteatro do Dragão, tem ainda o paulista Rodrigo Eisinger e o carioca Rodrigo Eberienos

Um operário da música, com o maior prazer. Assim Rildo Hora se apresenta, celebrando com humildade e entusiasmo seu amor pela música, à qual costuma devotar cada dia, em intenso ritmo de produção, aos 70 anos de idade. Uma lida cotidiana responsável por colocar seu nome na pequena lista dos arranjadores brasileiros aplaudidos pela crítica e ungidos também pelo profundo conhecimento do mercado, convertido em sucesso com o grande público.

Pela manhã, acordar para tocar a gaita, que, lembrando as origens do chão natal de Caruaru, ele prefere chamar "realejo". Depois, trabalhar um pouco em um arranjo, dedicando umas duas horas a vestir um dos próximos sucessos de intérpretes populares, como Zeca Pagodinho. Mais tarde, uma conferida final nos arranjos para quarteto de cordas, destinados ao disco próprio na fila para ser gravado. Sem intervalo, a mente irrequieta parte para a empreitada da composição, seja na arte de encontrar a melodia para a letra de um parceiro, seja no esculpir de um concerto para gaita e orquestra sinfônica. Em seguida, quem sabe, um arranjo para um xote de um novo artista. E assim se vai mais um dia.

"É como se eu passasse do Municipal pra Feira de Caruaru", brinca o maestro, em entrevista ao Caderno 3, dizendo-se ansioso para chegar a Fortaleza e comer um peixe - "sem reclamações se vier com uns camarõezinhos em volta". "Gosto de trabalhar em várias frentes. Uma ajuda a outra a fluir melhor", afirma o músico, encarregado de fechar a noite de hoje no Fórum Harmônicas Brasil, em noitada que também reúne, no Anfiteatro do Dragão, os harmonicistas Rodrigo Eisinger (SP) e Rodrigo Eberienos (RJ).

"Vai ser uma festa, né? Vou encontrar aí os colegas, relembrar os tempos em que a gente tinha um programa só de gaitistas, domingo de manhã na Rádio Nacional, comandado pelo Paulo Gracindo", puxa Rildo pela memória afetiva que o liga ao instrumento. "Sei que tem muita gente boa, da turma nova, como o Diogo Farias, que tá me levando aí. Espero poder tocar com esses gaitistas novos. Se aparecerem uns cinco melhores que eu, vou aprender um bocado", ri-se, confraternizando desde já.

E prometendo uma apresentação bem informal, entre grandes clássicos da música brasileira - da "Sampa" de Caetano ao "Ovo" de Hermeto, passando pelo que mais vier à lembrança, no diálogo com músicos cearenses no palco. "Vou levar umas partiturazinhas minhas aqui, mas, como a gente gosta mesmo da improvisação, pode tocar qualquer coisa, dependendo do que a moçada quiser fazer. A gente pode criar em cima de tudo, como no jazz. Mas falo isso só como referência, porque vai ser mesmo música brasileira", delimita. E o blues, tão caro à harmônica? "Taí, pode ser. Se o pessoal quiser tocar um blues, eu posso até me meter também, porque eu toquei muito blues, quando era mais jovem", ressalta o músico, que de Fortaleza guarda recordações de uma passagem de há muito, quando veio como violonista de Elizeth Cardoso. "Vou ter oportunidade de voltar e quebrar um pouco essa cerimônia que as pessoas têm comigo, do ´maestro´. Tem nada disso! Quero é tocar com os amigos, e fazer novos".

Arranjo e criação

Entre abraços aos amigos cearenses Raimundo Fagner - de quem já foi produtor e que aponta como exemplo de conciliação entre qualidade musical e sucesso mercadológico - e Fausto Nilo - com o qual espera ampliar a parceria que já rendeu frutos como "Vida disparada" -, Rildo promete ainda para este ano um disco autoral. "Vai ser um trabalho em que eu vou cantar, ao lado da minha filha, Patrícia, as minhas músicas. Essa com o Fausto vai ser um dos destaques. Ele é muito bom, é um craque", reforça, revelando que, apesar de todo o reconhecimento como produtor e arranjador, é a composição que mais o seduz no universo musical.

"Gosto mesmo é de compor, o que não deixo de fazer, de certo modo, quando estou preparando um arranjo. É como se eu estivesse compondo também, só que em cima de uma música que já foi feita, por outra pessoa", define o arranjador do Prêmio da Música Brasileira - agora sem nome de telefônica. Em todo esse tempo dedicado à música, "O compositor é que possibilita todas essas outras funções".

Com tanta bagagem, Rildo considera que as mudanças no mercado fonográfico foram benéficas à música, estimulando o surgimento de novos artistas, com os quais diz gostar de trabalhar. "O nível da música no rádio, na TV, piorou, mas ao mesmo tempo muitos artistas excelentes estão hoje construindo carreiras sem nem ligar pro rádio. E quando as pessoas que não são da música deixam os músicos e os poetas trabalharem, aí a música cresce", sentencia. Com a propriedade de um maestro de saberes e simpatia.

DALWTON MOURA
REPÓRTER