Lentes bem abertas

Exposição do fotógrafo paulista André Cypriano abre hoje, mostrando que as pessoas não fazem o que devem pelos quilombolas

Olhares, paisagens, expressões faciais, moradias, assim como a esperança, o descaso, o orgulho e também o cotidiano dos moradores de onze comunidades negras, remanescentes dos quilombos brasileiros, foram captados pelas lentes do fotógrafo documentarista paulista André Cypriano, que levou quatro anos para realizar o trabalho. Vinte sete fotografias das milhares feitas em negativo convencional e depois submetidas a tratamento digital podem ser vistas a partir de hoje, às 19 horas (para convidados; e amanhã, aberta ao público em geral), no Centro Cultural Banco do Nordeste. A exposição "Quilombolas - Tradições e Cultura da Resistência" fica em cartaz na cidade até o dia 29 de janeiro, e depois segue para Juazeiro do Norte.

Formado em Administração de Empresas, André Cypriano trabalha como fotógrafo freelancer em Nova York, mas está sempre envolvido em projetos sociais e culturais - sua mais recente causa é a recuperação da iconografia da Ilha Grande (RJ). O objetivo da exposição é divulgar a realidade daquelas comunidades negras brasileiras e incentivar o diálogo entre as populações afrodescendentes de cada região do País, dando-lhes reconhecimento, visibilidade e enfatizando as questões sociais, culturais e participativas.

O trabalho de Cypriano sobre os quilombolas começou em 2005 e teve parceria com o geógrafo e pesquisador Rafael Sanzio Araújo dos Anjos, professor da Universidade de Brasília (UnB). "Cada um dos dez quilombos que visitamos tem características bem próprias. E as peculiaridades têm a ver tanto com a origem e localidade territorial, quanto com problemas socioeconômicos. Alguns estão cientes da importância da preservação; outros, não. Um é cercado por urbanização, outro por tribos indígenas, outros pelo sertão, e alguns por fazendeiros roubando ou querendo roubar suas terras. Foi incrível ver como cada comunidade tem sua própria característica, seja cultural, hereditária ou de ensinamentos místicos, por exemplo", explica o fotógrafo.

Verdadeiro valor

Os quilombolas visitados pelo fotógrafo e o pesquisador foram Cafundó (SP), Itamatatiua (MA), Oriximiná (PA), Kalunga (GO), Mocambo (SE), Rio de Contas - Barra do Brumado (BA), Tapuio (PI), Curiaú (AM) e Mumbuca (TO) e Conceição dos Caetanos (CE). Em território cearense, Cypriano apontou suas lentes para os moradores afrodescendentes da comunidade que fica em Tururu, localizado a 168 quilômetros de Fortaleza, com 130 famílias, e práticas culturais distintas.

Terminado o trabalho, veio a constatação: "Descobrimos muitas coisas boas. Mas vimos também que as pessoas não fazem o que devem fazer pelos quilombos. A escravidão no Brasil é um passado recente, nós devemos nos sentir responsáveis até hoje e tentar reparar nossos erros, dar o verdadeiro valor aos negros, o valor que eles merecem. Eu me sinto culpado pela escravidão e acho que todo o Brasil deveria se sentir também. Temos que apoiar a cultura quilombola, dar condições de manutenção às comunidades. E não estou dizendo que eles têm que se urbanizar, se enquadrar na realidade urbana. Acho que eles são lindos como são, mas algo tem que ser feito. Um desenvolvimento com muito cuidado".

Com curadoria de Denise Carvalho, produtora cultural e diretora da Aori Produções Culturais - empresa realizadora do projeto -, a exposição que chega a Fortaleza já passou mais de 15 cidades brasileiras e outras seis da América Latina. O público que for ao CCBNB irá apreciar 27 fotografias em preto-e-branco, no formato 50 cm x 75 cm; sete fotografias panorâmicas, no formato 40 cm x 110 cm; seis fotografias em preto-e-branco 30 x 40 cm, dois mapas, cinco painéis de textos, e legendas. O trabalho foi transformado também em livro.

A mostra, que teve início em 2007, foi concebida inicialmente para passar por poucas cidades. No entanto, devido ao interesse de público e de órgãos institucionais de cultura, já circulou por cidades como Assunção, Buenos Aires, Montevidéu, La Paz, Lima e Bogotá. Desta nova fase, fazem parte as exposições no Ceará. Juazeiro do Norte abrigará a mostra entre 5 de fevereiro e 5 de março, no Centro Cultural Banco do Nordeste da cidade. Em Fortaleza, a exposição tem patrocínio da Petrobrás e apoio do Banco do Nordeste, Ministério da Cultura, Secretaria Especial de Políticas para a Igualdade Racial e Fundação Cultural Palmares.

FIQUE POR DENTRO

O quilombo cearense de Tururu

Liberto, o escravo Caetano José da Costa saiu de Pacoti, no Maciço de Baturité, em 1887. Por 200 mil réis, adquiriu as terras onde foi fundado o quilombo de Conceição dos Caetanos. Os poucos registros oficiais sobre a história do lugar e os "causos" contados pelos moradores mais antigos dão conta de que ele se instalou na região ao lado da esposa, Maria Madalena da Paz e dos 12 filhos.

As posses da família, além das terras, incluíam apenas um animal de carga, um tear e um caixão de madeira, onde era armazenada farinha de mandioca. Aos poucos, primos e outros parentes chegaram ao local. Os casamentos eram realizados entre primos e a presença branca praticamente nula.

Na Conceição dos Caetanos de hoje, as casas são cortadas por uma longa avenida de terra de batida. Há uma escola e uma creche, que servem também aos povoados vizinhos. Do tempo do quilombo, o pouco que resta se perde na memória dos moradores mais velhos.

Hoje vivem ali cerca de 230 famílias, que sobrevivem basicamente da agricultura de subsistência. Deste total, estima-se que em torno de 20% sejam de quilombolas "puros". O restante tem descendência quilombola, mas é fruto de casamentos de negros com brancos ou pardos. As misturas começaram a ocorrer em meados dos anos 70, com a migração de moradores para a capital e a consequente venda de propriedades. (LN)

Mais Informações:
Exposição "Quilombolas -
Tradições e Cultura da Resistência"
FORTALEZA
Abertura hoje, a partir das 19h, até 29 de janeiro
Local: Centro Cultural Banco do Nordeste (Rua Floriano Peixoto, 941 - Centro)
JUAZEIRO DO NORTE
Data: 05 de fevereiro a 5 de março
Local: Centro Cultural Banco do Nordeste (Avenida São Pedro, 337 - Centro)


LAURISA NUTTING
ESPECIAL PARA O CADERNO 3