Intérprete singular

Egresso da Massafeira, o cantor Lúcio Ricardo levará o blues de autores cearenses ao Festival de Guaramiranga

E vem ouvir um fox-trot diferente, diferente na TV... Trinta anos depois de sua participação na Massafeira Livre, a voz rascante de Lúcio Ricardo permanece como um convite à intensidade. Na performance de palco capaz de mobilizar as atenções dos públicos mais distintos. No timbre grave que remete a mestres do blues e do soul. Na mistura de influências herdadas dos pais - cantores do rádio -, dos colegas de geração aficionados pelo rock e pelo blues e dos compositores da geração do Pessoal do Ceará. Mas principalmente na forma peculiar de interpretar cada canção. Virtude por ele creditada principalmente ao desejo de compartilhar com o público a própria emoção ao cantar.

Lúcio Ricardo é atração da terça-feira de carnaval no X Festival Jazz & Blues de Guaramiranga. Apresentando-se ao lado de Abraham Carlos (guitarra), Marcelo Randemarck (baixo) e Daniel Alencar (bateria), o cantor, que no festival de 2003 subiu a serra com um tributo a Ray Charles, promete um show calcado principalmente no blues. Mas através de composições de autores cearenses. Desde ´Gosto mais é do swing´, de Lauro Maia, até criações como ´Cor de sonho´, de sua contemporânea Mona Gadelha, e ´Escolas nos varais´, de Joaquim Ernesto e Paulo de Tarso Pardal, com a qual venceu o Festival de Camocim, em 2001. Passando ainda por ao menos uma canção de sua autoria - ´Em cada tela uma história´, registrada no disco da Massafeira.

´Existe uma grande produção aqui, de blues, de jazz. Eu mesmo já gravei várias músicas de autores daqui, e vou mostrar isso em 90% do meu show´, adianta. ´Acho até que o festival vem incentivando isso, mais recentemente. É incrível como esse festival apareceu como uma coisa diferente, no carnaval, que é tão forte no Brasil, e se tornou esse espaço pra música´.

Pedras no caminho

Entusiasmado com o retorno ao evento, nem por isso Lúcio Ricardo mede palavras ao falar das dificuldades atravessadas em tempos mais recentes. Como o período em que, dada a escassez de apresentações, trocou momentaneamente palcos e microfones pelo batente em plena Praça do Carmo. ´Tava com uma barraca de bijuteria. Sempre fui uma pessoa muito ativa, arregaço as mangas numa boa, como quando morei fora, no Rio. Lógico que queria cantar de manhã, de tarde e de noite, viver do meu trabalho musical, mas isso nem sempre é possível´, justifica. ´Música é uma coisa muito maluca: você faz de repente três, quatro shows, depois passa um tempo sem fazer. Fortaleza não é o Rio de Janeiro, nem São Paulo. O mercado não é tão forte´.

Com o desapego de quem já caiu na estrada como aventureiro - ´Afinal, eu fui hippie, né? De mochila e tudo´ -, Lúcio relativiza o significado dessa empreitada pela sobrevivência, diante das dificuldades enfrentadas pela maioria dos músicos locais. ´Foi uma fase difícil. mas eu segurei bem essa onda. Eu tento transformar essas coisas numa lição, numa coisa positiva´, garante. ´Tenho um olhar muito investigador das coisas. Acabei ficando até popular na Praça do Carmo. Olha que coisa engraçada, né?´.

Novamente centrado na música, Lúcio prefere ver as pedras do caminho como fruto de uma opção. ´Nietzsche diz que se você quer manter determinadas coisas que são realmente autênticas, principalmente em arte, você tem que abdicar de muita coisa. Sou um artista, de certa forma, difícil de ser assimilado. O meu modelo não tá na mídia. Tem gente que não compreende´, divisa. ´Mas eu me sinto bem, porque passei todos esses anos sem fazer média, sem ser apadrinhado por ninguém, e mesmo assim meu trabalho é elogiado pelas pessoas mais maravilhosas do Ceará. Eu posso reclamar de alguma coisa?´.

LÚCIO RICARDO
Cantor e compositor

Entre memórias dos cantores de rádio e da cena rock no Ceará dos anos 70, acolhida pela Massafeira, Lúcio Ricardo aponta os caminhos de sua formação como intérprete

Quais influências você aponta como decisivas para a sua forma de cantar?

Minha mãe, Jane Moura, e meu padrasto, Gilberto Silva, eram cantores do rádio. Ele cantou muito na Ceará Rádio Clube, naqueles conjuntos, principalmente do Moreira Filho. Foi um dos primeiros a gravar Luiz Assunção, que eu cansei de ver chegar lá em casa, de ressaca, pra conversar. Na nossa casa ia muita gente do rádio, por conta do Gilberto. Mamãe cantava na Rádio Iracema. Muitos músicos moravam no Centro, o Evaldo Gouveia, depois o Fausto Nilo. Aquela região do Centro pulsava muito. Passei minha infância andando entre ali e Benfica. Então, eu já tinha aquele background da música brasileira, mas a minha geração negou um pouco isso todinha. Mas minha geração negou um pouco isso, claro, com toda aquela evolução do rock, a Jovem Guarda, o Tropicalismo, Jimi Hendrix e Janis Joplin.

Mesmo assim, apesar de certo preconceito, você, a Mona Gadelha e a banda Perfume Azul foram chamados para participar da Massafeira...

Fomos, pela turma toda, pelo Augusto Pontes. Eu sei o que eu passei pra cantar rock em Fortaleza. Era uma coisa horrível. Até preso a gente ia, porque a vizinhança chamava a polícia, vinha o camburão. Não perdoavam, achavam logo que tinha drogas pelo meio, essa coisa toda. O Augusto nos chamou pra entrar na Massafeira numa época que ninguém queria aceitar a gente, do rock, do blues. E fomos, e fui muito bem recebido quando fomos gravar o disco no Rio, numa boa - eu que já tinha ido antes, mas de forma muito mambembe. Participar de um movimento que teve tanta importância, gravar um disco... Fazer um show ao lado do Ednardo... Pra mim, foi um sonho. Todos que conviveram na Massafeira viram que éramos pessoas interessantes. Havia muito preconceito inicialmente, achavam que a gente era doidinho. Mas são conceitos que a gente vai mudando.

O que ficou e o que passou, desde aquela geração?

Acho que a coletividade é o que mais mudou. Hoje a coisa é mais individual. Nós éramos muito adolescentes, jovens, cheios de viagens na cabeça. A juventude permite isso. E foi muito legal, nunca mais se repetiu um movimento como a Massafeira. Hoje em dia tudo tá muito individualista. Essa coisa do coletivismo que teve com aquela geração hippie, ´flower power´, foi mudando muito. O Tropicalismo, o Cinema de Arte, as discussões, tudo era muito coletivizado. A arte perdeu muito esse caráter coletivo, hoje em dia.

Como foi o desenvolvimento dessa forma de interpretar?

Acho que foi uma coisa espontânea. Tenho uma relação muito emocional com a música. Quando vou fazer um trabalho desses, fico completamente tomado. Música, acho que tem muito a ver com teatro. Cantar uma música é representar. Você entra no palco e as pessoas que estão ali lhe ouvindo têm que sentir aquela mesma emoção que você está sentindo. Senão, você não cantou.

DALWTON MOURA
Repórter