Impressões sobre a lenda

IRACEMA EM GAME do designer de jogos Anderson Guedes: o imaginário secular da índia Tabajara em novas mídias
IRACEMA EM GAME do designer de jogos Anderson Guedes: o imaginário secular da índia Tabajara em novas mídias Reprodução

Após a edição bilíngüe (português e francês), da Editora da Universidade Federal do Ceará, comemorativa aos 140 anos da publicação do romance, no ano passado, “Iracema”, o canto nativista de José de Alencar, a “lenda do Ceará”, ganha hoje mais uma reverência preciosa: “Iracemas - imagens de uma lenda”

A edição contempla um sofisticado painel iconográfico em torno da personagem tabajara, além de textos, em diversas linguagens, sobre a trágica narrativa da filha de Araquém. O lançamento, do Governo do Estado, coincide com a inauguração do Parque das Jandaias, um espaço de eventos localizado no Centro Administrativo Bárbara de Alencar.

Cabelos negros... “Mais negros que as asas da graúna”. Sim, “os lábios de mel”, o sorriso “mais doce que o favo da jati” e outros telúricos detalhes fisionômicos tomaram o imaginário universal acerca da índia cearense, desde a publicação deste “poema em prosa”, obra-prima do Romantismo brasileiro, épica descrição do mito fundador do Ceará. Com estas referências, muitos procuraram ilustrar sua imagem, em 141 anos. Para esta edição, também. Outros trataram mesmo de desmitificá-la, em prosa e novos ícones. Nova América?

Xico Sá, por exemplo, traça um novo retrato, atual e insólito, da musa de Martim (veja abaixo). O mesmo o faz a radialista e escritora Natércia Pontes, em “Iracema deluxe”. Segundo a jornalista Cláudia Albuquerque, idealizadora do projeto e coordenadora do Memorial do Governo do Estado do Ceará, a intenção foi misturar linguagens. “O livro não pretende ser um apanhado acadêmico, embora conte com nomes ilustres da academia”. O trabalho demandou dois anos e não ficou pronto para os 140 anos, devido as entraves burocráticos da Lei Rouanet.

Entre seus achados, a Edição Maravilhosa, cedida pela Gibiteca de Curitiba, além da série completa de 12 “estampas Eucalol”, do Arquivo Nirez, em 1932 impressas para o famoso sabonete, convivem com ilustrações de artistas plásticos como Anita Malfati, Rubens Gerchman e Efrain Almeida, esta feita especialmente para o livro. E até reproduções de imagens de um game feito pelo paulista Anderson Guedes. A pesquisa também recorreu aos arquivos do bibliófilo José Mindlin, que proporcionou edições de “Iracema” em inglês e francês, além da Biblioteca Pública Menezes Pimentel e da Casa José de Alencar.

Cascavilhar o imaginário de Iracema, o que ela significa hoje, era a idéia. “Nunca se reuniu um material tão diversificado e tão rico, em relação a Iracema. Foi o levantamento mais apurado, embora não tenhamos tido a pretensão de esgotar o tema. Muitas imagens ficaram de fora, até por conta do projeto gráfico. Buscamos fazer algo mais leve, lúdico, que falasse mais ao imaginário das pessoas. A gente começou muito em cima da iconografia, mas depois vimos que não era só isso que a gente queria”, acrescenta a jornalista Cláudia Albuquerque.

Os acadêmicos consultados foram: Eduardo Diathay Bezerra de Menezes, Francisco Régis Lopes Ramos, Vera Lúcia Albuquerque de Moraes, José Aderaldo Castello, Maria Aparecida de Paiva Montenegro, José Borzacchiello da Silva e a primeira-dama Beatriz Alcântara. Na seara mais diversificada, textos ainda: do governador Lúcio Alcântara, do antropólogo Afonso Celso Machado Neto (Chefe de Gabinete do Governo do Estado do Ceará), dos jornalistas Lira Neto, Hélcio Brasileiro e Jackson Araújo e dos publicitários Daniel Arruda e Fernando Costa. Iracema de múltiplos olhares.

Tatiana Fauza, responsável pelo projeto gráfico do livro, considera a experiência “deliciosa”, tanto como é prazeroso passear pelas páginas do livro, trabalhadas com diversas texturas, do couché, ao verniz e relevo texturizados, entre outros acabamentos, em um projeto que acabou conquistando o reconhecimento do Prêmio Fernando Pini 2006, em que se tornou finalista na categoria livros culturais e de arte. “O pessoal do Memorial encontrou um número incontável de imagens. E a gente buscou mostrar essas diversas faces, nada era igual ao outro. Também tinha em jogo a qualidade do material, mas com essa diversidade de representações. E como tem muitos textos, a gente buscou uma identidade relacionada com eles. Cada crônica é um livro diferente”. Imagens e palavras que ajudam a (re) definir uma cearensidade e uma brasilidade que José de Alencar acalentou durante toda a sua trajetória literária.

SERVIÇO: Lançamento do livro “Iracemas - imagens de uma lenda” e inauguração do Parque das Jandaias. Hoje, 18h30, no Centro Administrativo Bárbara de Alencar (Av. Dr. José Martins Rodrigues, 150 - Edson Queiroz). Para convidados. O livro será doado para instituições culturais e bibliotecas públicas de todo o Estado e não será comercializado.

Henrique Nunes