Imagens de um resgate

Publicação reúne fotolivros de autores da América Latina e evidencia contribuições esquecidas

Resultado de uma extensa pesquisa que mobilizou fotógrafos, designers e editores em onze países, ao longo de quatro anos, o volume "Fotolivros latino-americanos" promove uma reunião inédita dos principais fotolivros da América Latina do século XX e do início do século XXI.

O projeto, o mais amplo já realizado de documentação sobre livros de fotografia no continente latino, mais do que trazer uma sequência de imagens, fortalece a composição do discurso fotográfico. A obra apresenta parcela significativa da contribuição da América Latina ao desenvolvimento da fotografia na prolífica, apesar de pouco estudada, produção desse gênero.

Coordenado pelo curador e historiador espanhol Horacio Fernández, com o apoio de um conselho de colaboradores (composto por Marcelo Brodsky, Iatã Cannabrava, Lesley Martin, Martin Parr e Ramón Reverté) e com a participação das editoras RM (México), Aperture (Estados Unidos) e Cosac Naify (Brasil), o trabalho elenca 150 publicações de nomes importantes da fotografia, a exemplo de Horacio Coppola, Claudia Andujar, Boris Kossoy, Paz Errázuriz, Sara Facio, Daniel González e Miguel Rio Branco.

Processo

A ideia de publicar o livro surgiu durante o primeiro Fórum Latino-Americano de Fotografia, realizado no Instituto Cultural Itaú, em São Paulo, em 2007. Dentre os assuntos debatidos durante o evento, os fotolivros foram discutidos como melhor modo de difusão da fotografia.

Outro tema abordado foi a falta de informação sobre o que já se publicou na América Latina nesse gênero. A pesquisa inicial desenvolvida pelo conselho de colaboradores do projeto detectou que os fotógrafos latino-americanos ignoram boa parte dos livros produzidos na região e até mesmo no país onde vivem. "Essa pesquisa procurou compensar esses silêncios com um resgate sistemático das obras de maior valor, o que permitirá que nosso conhecimento da história da fotografia se amplie de modo significativo", ressaltam os colaboradores na apresentação do livro.

O critério de seleção das obras ocorreu de forma simples. Levaram-se em consideração autores que tivessem nascido ou vivido na América Latina e que participaram de maneira decisiva da edição e desenvolvimento de seus livros. Também foram enfatizados a composição, a seleção dos materiais e o discurso fotográfico.

Em "Fotolivros latino-americanos" aparecem livros importantes, em geral esquecidos, secretos e originais, como os que reúnem artes visuais e fotografia. Ao leitor é possível, ainda, encontrar fotolivros da Argentina, Bolívia, Brasil, Chile, Colômbia, Cuba, Equador, México, Nicarágua, Peru e Venezuela, em uma trajetória que se inicia nas década de 20 e se estende até nossos dias.

Fotografia e arte

Um dos capítulos mais interessantes do livro é "Fotolivros de artista". Conforme o que consta no material, a partir dos anos 1960, generalizou-se o uso da fotografia entre os artistas visuais.

A causa foi motivada por diversos fatores: o abandono do formalismo e a recusa individual que classificam o abstracionismo, o interesse pela materialidade e a escolha do processo, a série ou a repetição diante da obra única.

São muitas as possibilidades que os artistas visuais dispõem quanto a aplicabilidade da fotografia em suas poéticas. Podem utilizá-las diretamente, sem alterações, para registrar ou documentar seus processos de trabalho, mas também como trabalho de arte final. Em certas produções conceituais, a fotografia possui a mesma importância que o objeto ou o texto.

Nesse volume, portanto, encontramos trabalhos interessantes que relacionam artes visuais e a fotografia. "Bares cariocas" (1973), do artista brasileiro Luiz Alphonsus, é um arquivo sistemático de imagens e textos que versa sobre um espaço de "onde emergem alegrias, tristezas, policias e croquetes", nas palavras do crítico de arte Wilson Coutinho.

"Cuerpo correccional" também chama atenção pela forma como seu autor, o chileno Carlos Leppe, expõem suas inúmeras performances, que tratavam das identidades sexual e local por meio de citações da história da arte e de sua própria biografia.

O livro reproduz registros em vídeo e fotografias de Jaime Villaseca, Francisco Zegers e Carlos Altamirano das atuações e instalações do próprio Leppe, e situa seu trabalho no cenário artístico de Santiago (Chile).

A obra também é importante porque, na época em que foi desenvolvida (anos 1970), revelou-se uma autêntica provocação por sua encadernação sólida, lombada firme, capas envernizadas, fotos bem reproduzidas sobre papel adequado e tipografia imprensa no lugar de máquina de escrever.

Assim, mais do que uma história da fotografia na América Latina, "Fotolivros latino-americanos" funciona como um panorama estético, social e cultural dessa região. Além de refletir sobre a relação da fotografia com a literatura, as artes visuais e as explosões políticas que marcaram a conturbada história dos países latinos nos últimos 100 anos.

LIVRO

Fotolivros latino-americanos
Horacio Fernández

Tradução: Gênese Andrade
Cosac Naify
2012, 256 PÁGINAS
R$ 149

ANA CECÍLIA SOARES
REPÓRTER