Histórico, em todos os sentidos

Em quase duas horas de show, o Deep Purple mostrou, na última sexta-feira, na barraca Biruta, porque continua sendo uma das maiores referências em atividade no rock n´ roll. Mesmo com 43 anos de muita estrada e "alguns" excessos típicos de quem sobreviveu ao auge do sucesso, os músicos sessentões mostraram no palco um vigor invejável, colocando no chinelo muitas jovens bandas, que de apelo só têm o visual... E olhe lá!

SeSimples. Os ingleses não fazem questão de ostentar nem de inventar muito como fazem muitos grupos da atualidade. O Deep Purple comanda seu espetáculo sem aquela parafernália visual típica de alguns artistas - um artifício muitas vezes utilizado para mascarar/desviar a atenção do público do que é realmente importante: a música. Ian Gillan (voz), Steve Morse (guitarra), Don Airey (teclado), Roger Glover (baixo) e Ian Paice (bateria) surpreenderam até o fã mais xiita, que se contentaria em ver uma performance apenas "ok", ao cara que não conhecia muito do repertório do quinteto. Esses dois tipos de públicos sabiam que não era pouca coisa estar de frente desse ícone da música.

Personalizado

Nesta segunda escala da turnê brasileira, o grupo não se acomodou. O repertório não foi o mesmo da apresentação anterior, realizada em Belém (04/10) - que ironicamente aconteceu no Cidade Folia. Verdade seja dita, mexeram no programa de maneira discreta, trazendo poucas variações. Mudaram a ordem de quatro músicas e tocaram "Mary Long" no lugar de "Woman From Tokyo", que constava no set list paraense.

O show começou quente com a acelerada "Highway Star", por volta das 23 horas, seguindo a pontualidade britânica. E a sensação era essa mesma: pra quê perder tempo? Daí, emendaram umas quatro canções antes mesmo da tradicional apresentação do frontman. Ian Gillan falou pela primeira vez quando a plateia já estava em êxtase, que nem ligou para o fato de ele saudar São Paulo. "Vocês são maravilhosos", saudou o líder da banda. Conversar não é mesmo o forte dos roqueiros, mas, para compensar, tocaram o que o público queria mesmo ouvir: seus grandes hits. O feedback dos fãs vinha na forma de aplausos, parte deles no final das músicas ou durante a execução de algumas delas para dar ritmo, e também no coro da multidão, que cumpriu perfeitamente também o papel de backing vocal. O carisma do Deep Purple também transpareceu no momento em que fez um rápido medley de "Sweet child o´ mine", do Guns n´ Roses, "Purple haze", de Jimmy Hendrix, e "Aquarela do Brasil", música de Ary Barroso. Uma mostra de respeito e conhecimento pelo País que visitavam.

Virtuoses

O virtuosismo dos músicos também é algo que impressiona. Os solos de guitarra (Don Airey) e de baixo (Roger Glover), marca registrada do rock de arena popularizado nos anos 70, se fizeram presente para o delírio dos fãs. O carismático vocalista também fez bonito: apesar dos 66 anos, mostrou que ainda consegue dar longos agudos sem desafinar. "Yeah, yeah, yeah, Space Truckin!". Claro que, quando chegou a hora de "Smoke On The Water" (hit mais famoso), a 16ª faixa da apresentação, a comoção foi quase geral, não tanta como foi em "Black Night", a 19ª música, que arrematou o show. Emocionante quando milhares de pessoas cantavam "ôooooooo" durante toda a execução do hit.

Quando tudo acabou, quase duas horas depois, eles pareciam satisfeitos. É o tal do dever cumprido! "Obrigado. Nós amamos vocês. Vão com calma e tchau!", agradeceu Gillan, visivelmente feliz com a estreia de sua banda no Ceará. Pra gente, que ficou, a vontade era de mais um bis.

Set list

1. Highway Star

2. Hard Lovin´ Man

3. Maybe I´m A Leo

4. Strange Kind Of Woman

5. Rapture Of The Deep

6. Mary Long

7. Contact Lost / Solo de guitarra (Steve Morse)

8. When A Blind Man Cries

9. The Well-Dressed Guitar

10. Lazy

11. Knocking At Your Back Door

12. No One Came

13. Solo de teclados (Don Airey)

14. Space Truckin´

15. Perfect Strangers

16. Smoke On The Water Bis

17. Going Down (intro) - Hush

18. Solo de baixo (Roger Glover)

19. Black Night

JULIANA COLARES
REPÓRTER