Geraldo Barbosa foi escrever loas em outras avenidas

O velho Geraldo Barbosa da Silva foi criar suas loas no maracatu celeste. Partiu deixando um rastro de luz e tendo cumprido com maestria a promessa feita a sua centenária avô negra Maria Vitorino da Silva

Cuidou do Maracatu Rei de Paus durante 43 carnavais e como seu fundador e único presidente jamais permitiu ao grupo faltar a uma só festa popular. E para cumprir outra jura, nunca pintou o rosto ou usou fantasia. A família do seu Geraldo é de Aracati, berço de uma irmandade religiosa muito conhecida -a de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos de Aracati - gente dedicada aos festejos do Rei do Congo. Só mesmo muita promessa para fazer o neto de Dona Maria largar a vida boemia, o fox, o bolero e o samba-canção. Mesmo com sua pequena voz ele fez sucesso nos conjuntos ´Ases de Iracema´ e ´Boêmios Vocalistas´ e nem queria ouvir falar dos cortejos negros.

Na casa dos da Silva, maracatu era a festa dos ´índios´ Gilvan e Antônio, também baliza, seus dois irmãos que em 1959 brincavam no Maracatu Estrela Brilhante. No ano seguinte a dupla fundou o seu próprio grupo, o Maracatu Ás de Paus. Antônio já cantava as loas e Gilvan era porta-estandarte mas, em 1963, eles desrespeitaram uma determinação da Federação dos Blocos Carnavalescos do Ceará: todos os blocos foram proibidos de desfilar como forma de protesto pela não liberação da verba pela Prefeitura de Fortaleza. Os mulatos vestiram as fantasias, caíram na folia de rua e foram expulsos da Federação. Eles e a Escola de Samba Ceará Moderno, embrião da Ispaia Brasa.

Foi o próprio presidente da Federação, Hermes Abreu, quem pediu a seu Geraldo para colocar o maracatu na avenida. Era uma tarefa difícil. Do bloco anterior na quarta-feira só restavam cinzas. Ainda assim, no dia 22 de março de 1963, era realizada a rifa de um liquidificador para arrecadar alguns caraminguás. Tão poucos, que seu Geraldo não teve outra alternativa: sacou de sua caderneta de poupança, pela primeira vez, os recursos necessários para colocar de pé o Maracatu Rei de Paus. A partir daí ele passou a mentor, ou seria melhor dizer guia, mestre, conselheiro, e tutor, o protetor maior. Mais que isso, um Rei Congo no século XX: era sempre dele a decisão final. Do alfaiate Raimundo Pirulito, o Nego, então presidente do Maracatu Az de Ouro, comprou os primeiros instrumentos. E logo o seu cordão de baianas se apresentava na avenida com pano da costa feito de rendas da terra, bordado inglês e saias de cambraia de linho. Com certa tristeza ele admitia que hoje já não é mais possível tanta originalidade e luxo. Os homens também foram substituídos por jovens mulatas, menos afeitas as bebidas alcoólicas e mais disciplinadas.

Muita gente de carnaval começou a ´brincar´ no Rei de Paus. Luiz de Xangô, de 1962 a 1987; José Gomes Feitosa, o Neris, depois integrante dos maracatus Az de Ouro e Baobab e agora presidente vitalício da Escola de Samba Corte no Samba; Joaquim Pessoa de Araújo, o mestre Juca do Balaio, depois do Az de Ouro, e Raimundo Alves Feitosa, o Raimundo Boca Aberta, que cantou as loas do Maracatu Ás de Paus, e depois do Rei de Paus, de 1961 a 1969. O professor Onélio Porto foi presidente de honra durante muitos anos. Seu Geraldo acolhia a todos sem renunciar a sua autoridade. As baianas do seu grupo nunca deixaram de pintar o rosto com a mistura de pó de gás de lamparina e vaselina.

Com essa ´macumba´ o Rei de Paus conquistou, disputando com a Escola de Samba Ispaia Brasa, o título de campeão de carnaval de 1970 que seu Geraldo fazia questão de destacar como o maior de todos os triunfos. O canto era apoiado por dois surdos, três caixas, dois triângulos, dois ganzás e dois bumbos. Maracatus mais antigos, com outros instrumentos, seu Geraldo só lembrava do Az de Ouro, ´o antigo, do Alcides, que tinha uma cuíca´. Recordava também que naquele ano o Raimundo Feitosa (Boca Aberta) foi cantar no Az de Ouro, ´e o meu irmão mais novo, o Zé Bernadino, saiu pela primeira vez cantando a nossa ´macumba´ e fomos campeões´. Indagávamos então se o maracatu tinha nascido em um terreiro de macumba. O mulato Geraldo desconversava mas, com sua fala mansa, revelava que 45 pais de santo já haviam brincado no seu maracatu e ele mesmo, depois de freqüentar dois terreiros, foi ´bater tambor´ no de Gil Cardoso. ´E levei uma facada na matança de dois bodes´. Dizia também não saber explicar a inspiração para tantas loas. ´Essas coisas vêm na minha cabeça e eu não sei dizer como escrevo´.

Ao falar dos antigos carnavais seu Geraldo esclarecia a presença de índios nos maracatus cearenses. ´Lembro dos ´caboclos´ desfilando no carnaval de Fortaleza. Eram homens casados, com belas fantasias de penas de ema. Coisas bonitas. Depois eles foram para os maracatus e formaram os cordões dos índios´. De memória citava também as grandes rainhas. ´O professor Benoit, do Az de Espada, Zé Brás, do Rancho Alegre, Leão Coroado, Az de Espada, Az de Ouro e Rei de Paus, o Afrânio Rangel, majestade do Estrela Brilhante, Leão Coroado e Az de Espada, e o Zé Rainha´.

Foi uma trajetória de muitas alegrias e algumas tristezas. Seu Geraldo reclamava da maneira como os mais jovens desprezavam as tradições. ´Colocaram frutas de plástico no balaio e o Flávio (Peixoto, ex-presidente da Federação) nem ligou. O finado Assis botava até pedra dentro do balaio para brincar melhor.Os melhores balaieiros foram o Assis, do Rei de Espadas, o finado Tonhoca, do Az de Espada, e o Haroldo Rangel, do Estrela Brilhante.´ Ele também defendia a sombrinha redonda, ´girando e protegendo a Rainha´, e os abanadores e lanternas, substituídos por modismos levados por gente de fora do maracatu.

Agora chegou a vez dos filhos Pedro Paulo e Francisco José, que seu Geraldo fazia questão de apresentar como ´músicos de todos os instrumentos´, e do sobrinho Paulo Eduardo, levarem adiante a saga dos da Silva. Gente cujos ancestrais vieram de longe para plantar em Aracati os mitos e os ritos da Mãe África.

SÉRGIO PIRES
*Jornalista
* Sérgio Pires é autor do livro ´Ispaia Brasa. ´O bloco que foi escola´, dedicado a Geraldo Barbosa

A MAIOR VITÓRIA

É preto, é preto, é preto
É o preto Mané
Estes pretos vem cruzando
Na força do Candomblé
Tem sete orixás
Pra defender o Rei de Paus
Pra livrar das traições
Feitas nesse carnaval.
Nossos pretos pisam firme
E não têm nada a temer
Com as forças de Xangô
Podemos até vencer