Gaiatice cearense reeditada

Inventário do humor cearense, "Baú da Gaiatice", de Arievaldo Viana, ganha nova edição

Que já riu com as histórias de Seu Lunga, as aventuras do Bode Ioiô, de João Grilo e até mesmo os incontáveis personagens do mestre Chico Anysio, não tenha dúvida: só uma parte é mentira. Prova disso está no livro "Baú da Gaiatice", de Arievaldo Viana, que faz um mergulho no sertão cearense e resgata causos e narrativas em cordel de figuras ímpares quando o assunto é gozação. Traço recorrente do que seria a identidade do cearense, o humor gaiato age com toda sua sagacidade nas histórias contadas pelo autor.


Seu Lunga, personagem famoso do imaginário cearense; universo é explorado por Arievaldo Viana Fotos: Antônio Vicelmo (21/11/2007)/ Silvana Tarelho (04/01/2008)

O livro, lançado originalmente em 1999, ganha agora sua terceira edição, pela Editora Assaré, com uma versão corrigida e ampliada. O lançamento será neste sábado, dia 9, às 19h30, no Teatro Chico Anysio (Benfica) e conta com cerimonial do humorista Zebrinha.

"Tem causos, tem versos, crônicas. Material, por exemplo, que escrevi para a revista Varal, em parceria com o jornalista Tarcísio Matos. Eu sou uma espécie de organizador. Me encarreguei de tecer as tramas e ambientar os personagens", detalha Arievaldo Viana, que, em suas andanças pelo sertão, se encarregou de reunir e registrar causos engraçados e personagens dessa cultura da "fuleragem", explica.

Madalena, Itatira e especialmente Canindé, terra natal do autor, são exemplos das cidades onde destilam irreverência personagens como Broca da Silveira, Zuca Idelfonso, o profeta Zé Freire, o boiadeiro Zé Adauto Bernardino, que permaneciam no anonimato, e mesmo o canindeense Miguel Carpina - já imortalizado na obra "Sertão Alegre", de Leonardo Mota.

"A maioria desses matutos retratados já é falecida. São de uma época em que sertão tinha cantadores, chapéu de couro. Hoje qualquer lugar tem parabólica, garotos usam piercing. Esse que eu relato é o sertãozinho de antigamente", conta o autor. Ele lembra que muitos dos causos foram registrados durante uma temporada em Canindé, quando, acompanhado do poeta Pedro Paulo Paulino, costumavam frequentar os bares e anotar histórias que consideravam interessantes.

Tarcísio Matos, um dos parceiros de Ari no livro, considera a obra a própria personificação do autor. "O Ari tem de memória causos os mais engraçados, inteligentes, granjeados da oralidade, do repórter que bem o é. Claro que com o toque especial de quem sabe o Ceará moleque como poucos", destaca. Os personagens "carpinianos", acrescenta o humorista - em alusão às tiradas de Miguel Carpina - guardam o "jeitão próprio do fazer e do dizer da ´fulerage´ cabeça-chata".

Reedição

Estreia de Ari como escritor, com tiragem inicial de dois mil exemplares, "Baú da gaiatice" teve segunda edição lançada em 2002. "Ele esgotou no mesmo ano que foi lançado. Foi bem acolhido também pela crítica. Para ter uma ideia, eu não tinha sequer um exemplar. Tive que recorrer a um amigo para me emprestar para essa segunda edição. Em 2002 saiu a segunda tiragem, 2 mil exemplares, que rapidamente se esgotaram", recorda.

A nova versão do livro foi ampliada de 132 para 240 páginas, com novas histórias e cordéis, tendo ainda o texto revisado e ganhando ilustrações. "Essa terceira edição tem texto em parceria com meu irmão Klevisson Viana, com o Pedro Paulo Paulino e até um texto que fiz na década de 1980, com o Sílvio Roberto Santos. Tem ainda muitos desenhos meus, do Klévisson e xilogravuras populares", pontua o autor.

"Dei mais ênfase à poesias de minha autoria ou em parceria com outros poetas, como o Pedro Paulo Paulino. É um livro muito voltado para o público do Estado. Pode ser entendido em qualquer lugar do Brasil, mas é mais focado nessa coisa do matuto cearense", destaca Ari.

Entre os causos narrados no livro, Arievaldo resgata cenas como quando um enxame de formiga tomou a plantação de Zé Adauto Bernardino.

"Ele narrava a história de uma forma hilária. Que um dia tinha pego seu velho fusca para ver de onde vinha tanta formiga. Após um bom tempo na estrada seguindo o rastro, viu uma formiga com uma bandeirinha do Movimento dos Sem Terra. Perguntou: ´pra onde vocês vão, minha bixinha?´. ´Para fazenda do seu Zé Adauto´", narra Ari, entre risadas.

Outras que têm um fundo de verdade, conta, são as histórias de Zé Freire, matuto que teria casado 33 vezes. "Ele disse que agora casou com uma mulher bem levinha, que forra todo dia a cama dela com bolacha ´Cream Cracker´ e, no outro dia, não tem nenhuma quebrada. E ele vive fazendo brincadeiras com essas coisas de casamento", conta. Uma das histórias de Zé Freire está no cordel "O Homem que Casou com a Serpente", que faz parte do livro.

Mais informações:
Lançamento da 3ª edição do livro "Baú da Gaiatice", de Arievaldo Viana. Sábado, dia 9, às 19h30, no Teatro Chico Anysio (Av. da Universidade, 2175 - Benfica) Contato: (85) 3252.3741

LIVRO
Baú da Gaiatice
Arievaldo Viana
Editora Assaré
2012, 240 páginas
R$ 25


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