Fragmentos de arte e pensamento

A revista coletiva "Avoante" e o livro "Os Mágicos Mascarados" serão lançados no Dança no Andar de Cima

A sobreposição de propostas, linguagens e suportes que saltam aos olhos da singela caixa em que é reunido o conteúdo do número único da revista "Avoante" chegam a dar vertigem em um primeiro contato - caótico, difuso e momentaneamente incompreensível. Duas baforadas profundas, ritmadas e a humilde opção por começar a leitura pelo editorial da revista. Eis o embarque em um belo e representativo mosaico da produção e discussão atual da arte produzida em Fortaleza.

A publicação será lançada, amanhã, a partir das 18 horas, no Dança no Andar de Cima, em "Evento de Lançamento" com exibição e apresentação de vídeos e demais trabalhos dos participantes, em uma ocupação artística do espaço. Além da revista, será lançado o livro "Os Mágicos Mascarados", de Eduardo Escarpinelli. No evento, haverá ainda apresentações artísticas do músico e performan Davi da Paz e da banda microleãodourado.

A revista quebra o ordenamento tradicional, impressa em um caderno de páginas destacáveis, somadas a adesivos, DVD, cartazes, cartões e até um santinho do Sagrado Coração de Jesus, assinados por 40 colaboradores, entre escritores, artistas visuais e cineastas. Nas palavras da editora e idealizadora do projeto, Mariana Smith, é "uma espécie de memória pontual do tempo presente, de modo a deixar vestígios das passagens, do cotidiano e do pensamento poético e político desenvolvido em Fortaleza nos últimos anos".

Os artistas

Entre os participantes estão os cineastas Ivo Lopes, Alexandre Veras, Marcelo Ikeda, Ricardo Pretti e Luiz Pretti (que assina uma seleção de vídeos publicados em DVD); os escritores Eduardo Rocha, Érica Zíngano, Eduardo Escarpinelli e Natércia Pontes; o músico Fernando Catatau; os artistas visuais Yuri Firmeza e Enrico Rocha; Solon Ribeiro, Euzébio Zloccowich; coletivos de intervenções urbanas como o Grupo Acidum e Coletivo Curto Circuito; além da própria Mariana e Zzui Ferreira, que assina o projeto Gráfico e a editoração.

"Eu chamo de revista, mas não tem um caráter de atualidade e sim de memória. É um memorial, um inventário de artistas", situa a Mariana. Ela explica que a ideia nasceu da necessidade de registrar o momento da produção artística que estava emergindo em 2010, com muitos trabalhos experimentais ganhando corpo e uma gama de artistas de diferentes linguagens interagindo, criando e lançando seus trabalhos.

"Era um clima de muita empolgação. Um momento que a produtora Alumbramento estava com sede no Centro, eu estava trabalhando lá, vários projetos paralelos acontecendo. Eu tinha um desejo de marcar essa época. Queria criar um link para unir essas pessoas e fazer com que essa produção circulasse um pouco. Que ela voasse", reforça.

Os textos incluem reflexões sobre o papel da arte, política cultural - como a importância de espaços independentes para a arte, no texto "Autonomia é preciso", de Mariana Smith; o papel dos recursos públicos e da arte que lança mão do mesmo (como é o caso da revista) em "Algumas questões imprecisas, nenhuma resposta necessária", de Enrico Rocha; e as singularidades da recente leva de produções independentes do cinema cearense, em carta de Marcelo Ikeda endereçada à editora.

A eles, somam-se nas páginas, cartões e folhas soltas, contos, crônicas, poesia, desenhos e outros registros que carregam um pouco de cada artista. "Pedi a cada um pedacinho do trabalho dele. Algo que fosse ele, que tivesse indício da presença de cada pessoa. Trabalhamos mais de cinco tipos de papel, formatos, tudo isso tentando adequar-nos à produção deles", conta.

Sobre a reunião dos trabalhos, mais um processo peculiar: a editora produziu a "Festa da Entrega", conseguindo reunir boa parte dos colaboradores. "A gente montou escritoriozinho. Ficava rolando a festa e as pessoas iam sendo chamadas. De uma por uma, a gente foi pensando as páginas", lembra.

A cidade

Fortaleza acaba por ser uma constante, uma liga entre os textos, vídeos, fotografias. Crônicas como a divertida "Raparigueiro", de Eduardo Rocha, narrando a saga de uma noite de sexta-feira, perambulando por espaços "alternativos", como a lanchonete "Disneylanches", na Avenida Duque de Caxias, no Centro, a noite vazia das ruas e praças do bairro, seus motéis e cinemas pornôs.

De São Paulo, a escritora Natércia Pontes carrega nos erres de sua nordestinidade em crônica sem nome, de 2009. A revista traz ainda registros escritos de experiências como o Livro Livre, de Alexandre Veras; a intervenção "TEMPORADA", de Marina de Botas, Simone Barreto e Waléria Américo; poemas, como os Jogos de Amar de Érica Zíngano. "O primeiro lampejo de desejo de fazer foi quando estava morando fora. Voltei para cá nesse desejo de guardar um pouco. De ter um retrato da produção artística, de como a gente vive a cidade, como a gente é ativista dela", encerra.

Livro

Também no "Evento de Lançamento" deste sábado, Eduardo Escarpinelli lança o livro "Os Mágicos Mascarados", assinado com o pseudônimo Eduardo Cardoso. Contemplada em 2010 no Prêmio Eduardo Campos, para obras de dramaturgia, do "Prêmio Literário para autor cearense", da Secretaria da Cultura do Ceará, a obra traz uma reflexão sobre a linguagem em forma de texto teatral.

Mais informações:
Lançamento da revista "Avoante" e do livro "Os Mágicos Mascarados", amanhã, 18h, no Dança no Andar de Cima (Rua Desembargador Leite Albuquerque, 1523 A, Aldeota). Contato: (85) 3032.8081

FÁBIO MARQUES
REPÓRTER