Força-matriz

José Leomar

“Imagino Maria no seu atelier usando as mãos- instrumento mais primitivo do homem. Com suas belas mãos potentes é que pega os instrumentos e imprime a heróica força humana do espírito, cortando e alisando e entalhando. E pouco a pouco os dormentes sonhos de Maria vão se transmutando em madeira feita forma. Esses objetos são tocáveis e, por assim dizer, estremecíveis. E delicados no seu grande vigor aniquilável. Objetos insólitos que por vezes clamam e protestam em nomes de Deus contra a nossa condição, que é dolorosa porque existe inexplicavelmente a morte”

Clarice Lispector, Jornal do Brasil, 1971

Maria Bonomi talha a vida na madeira. Dor e encantamento nos vazios e nos pretos que preenchem o papel. Ela comunga com os cordelistas nordestinos a poética presente nas gravuras. Uma das referências das artes plásticas no Brasil, a artista partilha sua experiência e presentencia o olhar do público cearense com sua participação na I Bienal Internacional Ceará de Gravura até dia 02 de fevereiro no Palácio da Abolição. Hoje, ela realiza palestra no CEFET-Ce. A visita a Fortaleza será completada com sua inserção na homenagem ao artista cearense Aldemir Martins, promovida pela Casa de Arte e Cultura Belchior.

Nascida em Meina, na Itália, a gravadora, cenógrafa e curadora tem trabalhos expressivos também no teatro brasileiro. Apesar disso, seus trabalhos de arte pública são os mais comentados. Isso porque são mais de quarenta obras em grandes dimensões em São Paulo, Manaus e Santiago do Chile. Na Escola de Comunicação e Artes da Universidade de São Pualo, realizou doutorado em Poéticas Visuais, que resultou no painel “Epopéia Paulista”, na Estação da Luz, na capital paulista.

Em entrevista ao Caderno 3, Maria Bonomi fala do intercruzamento das linguagens artísticas, da amizade com as escritoras Cecília Meireles e Clarice Lispector e do olhar, pouco comum, do gravador. “As pessoas precisam se machucar. A proposta da arte é dura e a da gravura é mais dura ainda”, adverte. Confira trechos do bate-papo.

Caderno 3 - Uma das faces de interesse do seu trabalho são as intervenções urbanísticas, os projetos de arte pública. Isso denota um diálogo das artes plásticas com a cidade. Como surgiu o interesse por essas intervenções?

Maria Bonomi— Eu sou basicamente gravadora. Minha formação é de xilógrafa e saí do país para me formar nisso. Sempre persegui a otimização da gravura. A minha primeira exposição foi em 1956, com 23 anos. Nessa época, eu comecei a me profissionalizar. De lá para cá meu trabalho se tornou não só a estampa, mas a matriz. A matriz que é uma das partes mais importantes, porque ela é única. Já a estampa é multiplicada. Fui muito influenciada pela percepção de Clarice Lispector, a primeira pessoa que me falou da matriz. Ela me levou a enxergar a matriz, o lugar onde você toca.O processo da gravura é você é abrir os espaços brancos e deixar os pretos. Isso é xilogravura. São os vazios comunicantes. Eles existem. A gravura contém o vazio.

- Na “Estação da Luz”, seu trabalho poderia ser acessado pelos deficientes visuais...

Maria Bonomi— Eu percebi que essa matriz poderia ser enorme. Ela poderia ser reproduzida. Graças ao concreto, que é o cimento armado, eu comecei a construir moldes. Eu passei a fazer uma gravura dentro da forma. Na Estação da Luz, que é feita em local aberto, temos que lidar com todas as formas de percepção. Eu me dei conta disso durante o doutorado que eu defendi em 1998 na USP. Abrimos a questão completamente. A arte pública não é feita no ateliêr. A arte pública tem uma gênese completamente diferente da arte normal. E vou mais além. Hoje, a partir do contemporâneo, a arte pública é quase o único caminho que se põe legitimamente atual e necessário. Os outros caminhos são discutíveis.

- Essa experiência com a arte pública é totalmente brasileira em sua trajetória?

Maria Bonomi— Sim porque nós temos a escala brasileira. O México tem a arte pública de grandes muralistas. Houve uma lei que obrigava as construções a darem um porcento para a existência de uma obra de arte pública. A busca do gravador é a transformação do olhar. Nós queremos sempre transformar. Não aceitamos a fotografia e o desenho como formas emotivas, emocionadas. A gravura é uma linguagem e não uma técnica. Ela é além. Tem a gravura, o cinema, a escultura, o balé ... A gravura é indesenhável. São essas questões que a gente lida em sua essência. Na “Estação da Luz” tivemos mais de mil mãos trabalhando. O tema, a composição e a concepção foram minhas, mas cada um fez um pedacinho. Essa era uma arte pública e coletiva ao mesmo tempo. Era importante que o poder público se importasse em destinar recursos para a arte pública. As pessoas precisam se machucar, se você acha tudo bonito e não questiona, não passa nada, não muda nada. A proposta da arte é dura e a da gravura é mais dura ainda. Estou chegando num tempo. O Ceará é uma região com alta presença da gravura, por causa do cordel. É uma manifestação espontânea, tradicional.

- Gostaria que a senhora falasse do intercruzamento da produção desses cordelistas com a sua produção e de outros gravadores renomados.

Maria Bonomi— A gente sempre acompanha, vivencia isso. E é permanente. A poética do cordel sai pela xilogravura.

- A senhora citou Clarice Lispector e também tem uma relação com a obra de Cecília Meireles. Você conviveu com essas escritoras?

Maria Bonomi— Eu tenho uma honra doída de ter ilustrado um dos últimos trabalhos da Cecília Meireles, um livro de crianças. Ela estava em São Paulo, se tratando do câncer. Cecília me dava os poemas e a gente ia discutindo. Com Clarice foi muito mais profundo. Clarice foi minha cumadre, madrinha do meu filho. Nosconhecemos quando estava estudando nos Estados Unidos. É uma história longa e pública. Ela me emprestou um vestido para eu ir a um jantar na Casa Branca. Ela tinha mais ou menos o meu tipo. Nessa época, por volta de 1958, o governo americano se preocupava com a fusão, a integração das nações. Eu era estudante e fui sorteada para visitar a Casa Branca. A Alzira Vargas (filha de Getúlio) foi ajeitar os estudantes e quando me viu disse que havia a esposa de um secretário (Maury Valente) que fazia o meu tipo. Ela ainda não era a Clarice Lispector consagrada. No dia seguinte, quando fui devolver o vestido, ela me chamou para tomar um café e daí nasceu uma grande amizade. Ela interferiu muito na minha carreira, porque ela tem um outro olho. Clarice Lispector também pintava e em breve o público poderá conhecer esses trabalhos dela, que serão publicados em livro. O nosso envolvimento foi tão grande que eu dizia : “eu talho as suas madeiras e você escreve os meus livros”.

- Isso é um exemplo do envolvimento de várias linguagens artísticas...

Maria Bonomi— É o olhar. O artista não é um cara que fica parado. Ele tem que viver, ter paixão senão não sai. Outro dia me perguntaram de onde a gente pega os temas. A arte tem um ponto em comum com a psicanálise. Eu pratico muito a escuta e o olhar e isso vira imagem.

- Você optou pela gravura porque a considera mais completa?

Maria Bonomi— Vi uma exposição do Lívio Abramo (gravador, 1903-1992) e fiquei impactada. Eu trabalhava com alunos monitorados pelo Lasar Segall. Eu de repente me interessei pela gravura. Naquele momento, Segall acompanhava a gente e eu fui fazer “carpintaria”. Ele dizia: “vai ser carpinteira”. O impacto do traço branco e preto me fez seguir a gravura.

- O que você acha da produção recente e da releitura da arte do século XX.

Maria Bonomi— A gente não tem distância histórica para a análise. Mas alguns mais centrados sabem quando uma obra permanece. Há algumas qualidades intrísicas que sabem e sentem onde vão dá. Você sabe se alguém é um iluminado, um grande artista. Isso também existe na arte. Sempre existe uma arte de moda, das galerias que querem manter um certo tipo de mercado. Existe uma forte influência da mídia no estilo. Essas obras não vão ficar. Uma releitura dos valores é correta e automática. Acho que Marcel Duchamp impregnou todos nós.

- A Bienal Internacional de Gravura talvez sinalize para um interesse pela arte pública...

Maria Bonomi— É um preciso passo. Mas a gente precisa de crítica de arte séria e de reflexão. Isso não se faz. Os jornais dizem que a arte não paga. Como não paga? Tudo ao nosso redor é desenhado. Só não são as árvores. Essa questão do cultural breve, meia sola, que se instalou é terrível. Os meios de comunicação precisam entender que a cultura é central, é o terceiro setor. Só a cultura permanece. O resto passa.

SERVIÇO: I Bienal Internacional Ceará de Gravura - Até 02/02, no Palácio da Abolição (Avenida Barão de Studart, 505 - Meireles). Visitação é gratuita das 8h às 17h. Na internet: www.secult.ce.gov.br

Oficina com a artista Maria Bonomi. Até sábado, das 9h às 11h, e palestra sobre “Gravura na Contemporaneidade” hoje, às 15h, no Cefet-CE (Rua Nogueira Acioly, 621 - Aldeota). Informações: 3452.9474 / 9411.

Edma Cristina de Góis