Fantasia e realismo

Biógrafo da cantora Maysa (1936 - 1977), o cearense Lira Neto comenta as distorções vistas na minissérie televisiva e fala de seu novo projeto, a biografia de Padre Cícero

Adaptações costumam envolver mais perdas que os admiradores da obra original estão dispostos a aceitar. Quando estréia um filme derivado de um livro ou HQ, a primeira pergunta do espectador curioso é: e ai, eles mexem muito na história? Esta mesma pergunta se converteu numa pedra no sapato “Maysa - quando fala o coração”, minissérie produzida pela TV Globo, que chega ao final hoje.

O embate da vez é com o livro “Maysa - só numa multidão de amores”, do jornalista cearense Lira Neto. Nos créditos da minissérie, a biografia não é citada como o texto adaptado (aparece sob o rótulo “pesquisa bibliográfica). No entanto, quem lê um e assiste o outro não deixa de comentar as semelhanças. “Há muitas semelhanças. O livro é o esqueleto da minissérie, mas o que ele é senão a vida da Maysa?”, comenta Lira Neto.

Diferente de quem vê injustiça na forma que o livro é creditado, Lira Neto diz que não se sente incomodado. Segundo ele, isto já estava previsto no contrato que assinou com a TV Globo e com o diretor Jayme Monjardim, cedendo os direitos autorais do livro para adaptações audiovisuais. “O Manuel Carlos [autor do roteiro da minissérie] optou por inserir elementos de ficção na história, o que acabou diferenciando o trabalho dele do meu. O meu livro é um trabalho de jornalismo. E nesta área fico com o Gay Talesse, o papa do jornalismo literário, que dizia: o realismo é fantástico”, avalia Lira Neto.

Em texto publicado na Folha de S. Paulo, na última quarta-feira, o autor analisou a minissérie. E suas críticas recaíram, sobretudo, no excesso de “licenças poéticas” que os produtores se permitiram. Alterações de datas, situações inventadas e supressão de personagens estão entre as liberdades tomada por Manuel Carlos e sua equipe. Dramaturgo que costuma romantizar a boa vida no Leblon, em novelas como “Laços de Família” (2003) e “Páginas da Vida” (2007), Maneco apagou da história a diva da bossa Nara leão. Era ela a noiva do músico Ronaldo Bôscoli quando este se envolveu com Maysa.

“Seria mais rica se eles tivessem contado a história dela da maneira que aconteceu. Da forma que está sendo contada, é até bom que não apareça como uma adaptação do livro. Eu não me sentiria a vontade”, comenta.

Em uma definição tão precisa quanto econômica, o filósofo Gaston Bachelard (1884 - 1962) trata a imaginação com uma imagem em ação, e que, portanto, se deforma. Compreendida desta forma, a imaginação passa bem longe do trabalho de Lira Neto. “Não tenho nenhuma imaginação. Eu nunca daria um bom romancista”, afirma.

Imaginação

Nem romance, nem conto, nem novela. Lira fez seu nome nas letras como biógrafo, que conta suas histórias na condição de repórter. “Tem gente que pergunta: ‘você acha que pode ficar assim, pulando de galho em galho, mudando de temas?’. Eu posso: sou jornalista, meu trabalho é esse. Quando se está na redação, hoje você entrevista o Governador, amanhã vai falar de buraco na ruas”, argumenta.

Ele já biografou quatro personagens, tão distintos quanto possíveis: “O poder e a peste”, sobre o escritor e sanitarista Rodolfo Teófilo; “Castello”, sobre o ditador cearense Humberto de Alencar Castello Branco; “O Inimigo do Rei”, sobre o escritor José de Alencar; além de Maysa. Na agulha, “Cícero”, que conta a história do santo popular do Cariri. O livro, segundo o autor, será concluído este ano e chegará às livrarias em 2010, pela editora Globo.

“Não recorro à ficção em nenhum momento, mas no meu texto emprego recursos literários. Não tenho intenção para escrever para meia dúzia de iniciados, ser hermético. Quero contar histórias que as pessoas gostem de ler”, explica.

Cícero

Concentrado em seu novo trabalho, Lira Neto conta que o Padre Cícero é seu personagem mais fascinante. “Se Carlos Castaneda e o García Márquez tivessem tomado um chá alucinógeno no deserto, ainda assim eles não conseguiriam inventar uma história tão fantástica quanto a vida do Padre Cícero”, exagera o autor Lira Neto.

O religioso morreu aos 90 anos e tem uma biografia repleta de pontos controversos, na condição de líder religioso e político e santo canonizado pelo povo à revelia da Igreja Católica. “Ele sempre me fascinou. Precisei de 10 anos para achar que estava razoavelmente pronto para escrever esta biografia”.

DELLANO RIOS
Repórter