Expansão da leitura

O ano foi marcado por alguns destaques - como a reedição da obra de Machado. A Bienal do Livro do Ceará foi irregular. Pesquisa indicou aumento de leitores no País

Diferente de outros textos retrospectivos, que vão listar os melhores livros de 2008, os destaques que enumero aqui vão para além da escrita literária. A literatura, da forma como é explorada nos jornais, é algo da esfera do livro e, de forma mais ampla, leitura. Portanto, nada mais coerente que apontar como o grande acontecimento na área os resultados da pesquisa ´Retratos da Leitura no Brasil´, promovida pelo Instituto Pró-Livro.

Os dados divulgados, no meio do ano, atualizaram nossa percepção dos problemas e potencialidades da leitura no País. A velha marca de 1,8 livros, lidos em média pelos brasileiros, deu lugar a um marco mais animador: 4,7 livros por habitante/ano. Dessa média, 3,4 livros por habitante/ano foram indicados pela escola, freqüentada por 60 milhões de pessoas de todas as idades. Os outros 1,3 livros per capita foram lidos fora dela.

Os ´Retratos´ foram lançados num momento em que as políticas públicas começam a ser lembrar que os livros existem. Vide o sucesso das bienais e feiras de livros que aconteceram por todo o País. No Ceará, é esta a bandeira do secretário Auto Filho. No entanto, a Secretaria da Cultura realizou uma bienal irregular, com o tema ´A aventura cultural da mestiçagem´. Sucesso de público por um lado (para alegria dos livreiros), ficou a desejar numa programação um tanto hermética, que não contribuía muito para os leitores em formação.

O ano ainda marcou o fortalecimento de novos mercados do livro. É o caso do formato áudio-livro, há muito explorados em outros países, que começou a marcar presença nas livrarias.

Promessas

Para não dizer que deixei de falar de livros (obras, na verdade), algumas publicações e iniciativas editoriais merecem ser mencionadas. É o caso de ´Chibata!´, álbum de histórias em quadrinhos dos cearenses Olinto Gadelha e Hemetério. Reconstituindo os episódios da Revolta da Chibata (1910), a dupla conseguiu emplacar sua produção para além dos limites do estado. Publicaram pela Conrad, uma das editoras brasileiras mais destacadas no meio dos quadrinhos. Vitória dos artistas, vitória da arte das HQs.

No lado da literatura, ´Inimigo´, livro de contos de Pedro Salgueiro, recebeu o merecido reconhecimento. Este entre os finalistas do Prêmio Jabuti, na categoria ´Conto´. A obra, lançada em 2007, já havia sido apontada pelo Diário do Nordeste como um dos destaques daquele ano.

Dons bons títulos que merecem ser lido, chamo a atenção para a produção em língua espanhola: ´Paris não tem fim´, do espanhol Enrique Vila-Matas; ´O despenhadeiro´, de Fernando Vallejo; e ´Nosso GG em Havana´, de Juan-Pedro Gutiérrez.

Como grande decepção do ano, cito a comemoração do centenário de Machado de Assis. A maioria das editoras aproveitou a data para lançar reedições básicas, reescrituras dos contos do autor e uns poucos textos críticos. A verdade é que a qualidade do material ficou aquém do se poderia esperar. A exceção fica por conta de alguns relançamentos: ´Machado de Assis´, reedição da coletânea de ensaios biográficos lançados por Alfredo Pujol, em 1917; e da biografia épica ´Vida e obra de Machado de Assis´ (em quatro volumes), de R. Magalhães Júnior; além da compilação de toda poesia do autor.

Melhor sorte teve outra efeméride: os 100 anos da imigração japonesa. Por conta dela, um punhados de bons livros foram lançados, em especial, aqueles escritos por Yasunari Kawabata e Natsume Soseki.

DELLANO RIOS
Repórter