Eu, escritor

Único cearense presente na coletânea "Geração Zero Zero: fricções em rede", Sidney Rocha chamou a atenção da crítica nacional em 2009, como seu livro de contos "Matriuska". Nascido em Juazeiro do Norte e radicado em Recife (PE), o escritor falou ao Caderno 3 a respeito de sua trajetória, sobre a euforia (dos outros) em torno da internet e do desafio de escrever, cada dia, melhor

Primeiro, gostaria que contasse resumidamente de sua trajetória, desde a saída de Juazeiro do Norte, ao início na literatura.

Destes escritores que o Nelson de Oliveira pinçou para a coletânea ("Geração Zero Zero - fricções em rede"), certamente sou eu o que publicou mais cedo. Publiquei pela primeira vez em 1976, ainda em Juazeiro do Norte. Ganhei o Prêmio Osman Lins de Melhor Romance, com a minha novela "Sofia, uma ventania para dentro", em 1985, já em Pernambuco. Este romance já está na terceira edição, a última pela Iluminuras, editora a quem devo tudo quanto à projeção mais ampla do meu trabalho de escritor. Neste caminho, são 35 anos de aprendizado e de trabalho, de trabalho silencioso. Saí do Ceará na década de 1980. Construí a minha carreira sempre ligada ao mundo editorial. O amor ao livros me fez editor, e fui seguindo. Quando publicado pela Iluminuras, em 2009, com "Matriuska (contos)" é que o trabalho chegou de fato aos críticos mais atuantes. Entre eles, o Nelson de Oliveira. Então me considero sim, dessa "geração", mesmo que não concorde em tudo com o termo.

Hoje em dia há uma infinidade de blogs, é possível editar livros de forma independente, publicar em revistas literárias. Como você utiliza esses espaços? Qual a avaliação do alcance e utilidade das mídias alternativas?

Há muita gente escrevendo. É preciso escrever menos. Cada vez menos. Não estranhe o paradoxo que isto possa parecer. Mas detesto certa histeria e frigidez dos blogs. Não escrevo em blogs. Eles são ferramentas de marketing, vá lá, não mais que isso. Talvez, desses 21 autores da Geração Zero Zero eu seja o mais apocalíptico, ou o menos integrado, para usar mais ou menos os termos de Umberto Eco. Mas é inegável a força dos blogs para os novos autores, há gente que teve seu trabalho reconhecido a partir daí, etc, etc, mas as exceções são tão poucas que não se prestam a nenhuma regra. Já eu, "filho do carbono e do amoníaco", que fui da geração mimeografo, que passei por todas as etapas do cordel, dos fanzines, do livro, enfim, da produção independente, vejo que essas "facilidades" são também as responsáveis por certo descaso com a produção contemporânea, mesmo reconhecendo que há publicações sérias no meio digital. Mas a grande maioria do que se produz para ou na internet (e em papel também, ok) é uma perda de tempo.

A internet substitui o livro?

Você deve estar se referindo ao e-books, não? Tenho o tempo todo comigo um tablet e até leio, a partir dele, livros inteiros. Mas quando chego em casa, olho pras estantes e digo: ainda não inventaram nada tecnologicamente mais evoluído que o livro em papel. Agora, no ponto de vista de conteúdo - não falo de literatura somente - a internet de fato é uma ferramenta inquestionável. Não é à toa que vemos o jornalismo, entendido como era no século XX, ser incapaz de viver sem ela, basta ver a crise dos grandes grupos hoje no mundo. Mas, no Brasil, não seria adequado dizer que ela "substituiu" o livro. Ora, nunca fomos um país de leitores. De livros. Vamos enganar a quem? Então, o jovem leitor brasileiro sequer conheceu o livro propriamente. Agora, o que é preciso é formar leitores. Para mim, é assim: bons leitores reconhecem livros bons. E se chegam ao mercado produtos medíocres, um leitor experiente o reprova. Isto estimula a formação de críticos mais eficientes. Que publicam resenhas em jornais que circulam mais, e aí tudo segue. Então não é internet que substitui livro, como naquele joguinho de pedra, papel, tesoura. É o que nós colocamos na cabeça, que senso crítico temos, para "substituir" (aí, sim) tanta bobagem que a cultura de massa coloca nas nossas cabeças.

Qual o desafio de um jovem escritor atualmente? É publicar, distribuir, é ser lido? Como você se articula para difundir sua literatura?

Acredito que o grande dever de um escritor, de qualquer geração, é escrever bem. Aliás, é escrever melhor. Quantos autores você conhece que são bons? Dezenas? Centenas? Ora, os bons escritores passam dos milhares. Um escritor não pode querer menos senão superá-los. Este é o desafio. Ser lido é uma consequência. Lógico que há muita areia entre isto e aquilo, há o mercado, o marketing, etc, etc, não quero ser tão simplista quanto aos meios, mas um escritor não tem que se preocupar com isto. Tem que escrever hoje melhor que ontem. Para difundir a minha literatura, eu escrevo.

O que você achou da coletânea Geração 00? Você se sente parte real dessa geração?

O Nelson diz bem sobre ela: "é uma antologia dos melhores ficcionistas brasileiros surgidos no início do século 21". Não quer dizer que seja a melhor produção destes autores. Os caras estão vivos, em pleno "work in progress", como diria Joyce. É uma mostra, um tubo de ensaio. Não vão querer que ali estejam paridos os destinos da literatura contemporânea brasileira, né? Li a coletânea recentemente. Há textos de autores dos quais li livros anteriores à antologia, e que gostei, e que não me agradaram na antologia. Claro. E outros de quem jamais abri um livro e de quem corri à livraria pra comprar uma obra, porque gostei do que li na seleção. Alguns guardam alguma afinidade estética comigo. Outros, não. Aliás, outros acho que nunca. Mas estamos em fricções.

Você tem contato com novos escritores cearenses? Quem? Pode comentar algum aspecto, ou autores dessa literatura que surge de 2000 para cá?

Há escritores no Ceará que já há muito vem merecendo uma atenção especial. Marco Leonel, em Juazeiro do Norte, é para mim um dos melhores poetas contemporâneos. Ele publicou "Depois da capela tem um abismo", livro impressionante. Anchieta Mendes, com o romance "Círculo de giz", Lupeu Lacerda, com "Entre o alho e o sal"... Isto só pra ficar nos mais de perto. Tem o Pedro Salgueiro, que li primeiro noutra antologia, acho que na do Rinaldo de Fernandes, ele tem um livro chamado "Dos valores do Inimigos". Agora, eles são "novos´ escritores"? São geração zero-zero, zero-um, zero-mil? São escritores. Ponto. É só perguntar a um leitor maduro que ele dirá.

SIDNEY ROCHA, Escritor