Eu e os meus fotogramas

O quase-artista plástico Solon Ribeiro lança hoje seu livro “O Golpe do Corte”, com imagens de filmes antigos

Eu não sou. Na verdade, eu sou um quase. Quase artista, quase cineasta, quase escritor. Quase amigo, quase companheiro, quase pai”. Esquivando-se da auto-definição -e ao mesmo tempo reafirmando-a - o quase-fotógrafo Solon Ribeiro faz de sua proposta estética uma prática levada ao cotidiano. Funde comportamento pessoal e artístico, e deixa margem para as mais diversas interpretações. “Acho que existem tantas possibilidades de invenção. É bacana isso”, declara. Ele lança o livro “O Golpe do Corte”, hoje, às 19h30, no Livraria Livro Técnico do Centro Dragão do Mar de Arte e Cultura. O livro é resultado de muitos anos de proximidade com os fotogramas que coleciona.

“São sempre os fotogramas. Eu e os fotogramas. É um processo de 70 anos” - anterior ao próprio Solon. A história começa com o avô do quase-artista, que comprava rolos de filmes e cortava cada imagem. O pai - que era ao mesmo tempo advogado, biólogo e professor - continuou a coleção. Os sete filhos homens não se furtaram. Era uma mania na família. “Essa coleção que eu herdei tem todos os clássicos: o primeiro beijo no cinema, todos os Tarzans. Tem tudo até pelo menos nos anos 70. O que falta na coleção é Charlie Chaplin. Ele nunca conseguiu”, lamenta.

Hollywood, uma constante nos fotogramas, está lá por um motivo específico. “Não só esse livro, não só a exposição (que aconteceu em 2005 e é parte desse projeto). Tudo se trata do fim do cinema, do fim do sonho do cinema. Eu tenho a impressão que antes de Hollywood o cinema era mais livre. Hollywood acabou com o sonho do cinema”, aponta. A decadência das relações, acredita, começou com a fotografia. “O homem da literatura passava duas horas falando das pessoas. Agora você não fala como, você mostra uma foto”.

O livro acaba sendo “um milésimo, do milésimo, do milésimo” de uma luta que artistas, aqui em Fortaleza, empreendem para recuperar o sonho e o cinema. “A minha idéia é montar um filme que seja impresso, não projetado. Isso é o comecinho do que daqui a dez, cinco anos eu vou realizar. Esse é um ensaio, com cerca de vinte fotogramas. Tudo está só começando: eu quero um livro com mais de 30 mil deles”. A idéia de ter um resultado final não angustia Solon. “Mas comigo tudo é um processo. Nada acaba”, esclarece o quase-professor.

Acompanhando o livro, um DVD com sete curtas que fizeram parte dessa exposição de 2005 no Centro Cultural BNB. E mais uma vez Solon descarta as definições fechadas e escolhe o “quase” para falar do DVD e do livro. “O livro é um cinema primitivo. É mais radical do que o que eu apresentei no Alpendre (dentro da exposição ‘Circuito Intensivo’, com outros cinco artistas). E é também cinema, porque são fotogramas de cinema. Mas não é vídeo. Ele é quase. Mas é mais quase cinema do que quase vídeo”. O importante é não se fechar em amarras.

Tanto que o quase-cineasta encontra em outra forma artística, a música, maneiras de encarar o trabalho que vem desenvolvendo, aproximando o que faz aos samplers e remixes dos DJs. “O que eu faço é igual os remixes dos DJs. É igual, igual, igual um DJ. Eu pego os pedaços, vou colando e dá outra coisa. Mas eu só copio e colo”, provoca. Em “O Golpe do Corte”, alguns outros pensamentos chegam para fazer parte dessa colagem. No livro, entrevista que Solon concedeu à jornalista Ethel de Paula e texto do professor Alexandre Barbalho. “O Golpe do Corte” pode ser também uma visão de vida, dos supérfluos e do que não merece tempo e disposição. “A todo minuto você tem que dar cortes na vida. Sem drama, sem estresse. Deixando como tem que ser”.

Júlia Lopes
Repórter

Mais informações:

Lançamento do livro ´O Golpe do Corte´, de Solon Ribeiro.
Hoje, às 19h30 na Livraria Livro Técnico do Centro Dragão do Mar de Arte e Cultura.
Contato: (85) 3433.9490