Espírito neoclassicista em vídeo

Centro Cultural Banco do Nordeste traz a Fortaleza a vídeoinsta- lação "O Legado da Coruja" de Chris Marker

Entre seis décadas de audiovisual, "O Legado da Coruja", do cineasta francês Chris Marker, foi um dos seus mais instigantes e menos conhecidos trabalhos. Originalmente exibido nas televisões francesa e inglesa, em 1989, como uma série de 13 episódios, os vídeos, que totalizam 5 horas e 30 minutos, foram filmados em cinco cidades em um período de dois anos e contam com 49 convidados.

A obra do francês Chris Marker é marcada pelo diálogo do cinema com as artes visuais


A proposta do vídeo é discutir conceitos e questões surgidas na Grécia Antiga que persistem como elementos organizadores do pensamento corrente no mundo ocidental. A coruja, animal que simboliza a busca por conhecimento, aparece como guia nessa jornada. Os temas abordados na série são: Simpósio, Olimpíadas, Democracia, Nostalgia, História, Matemática, Logomarca, Música, Cosmogonia, Mitologia, Misoginia, Tragédia e Filosofia.

A apresentação de "O Legado da Coruja" dá seguimento ao projeto Política da Arte, promovido em parceria com a Fundação Joaquim Nabuco. Para o projeto, a arte não é só a difusão de imagens, ideias e textos, mas o desafio a consensos e a construção de relações políticas.

Cada episódio é conduzido pelas falas de reconhecidos pensadores e artistas, permeadas por imagens que Chris Marker filma ou seleciona das mais variadas fontes e edita de modo original.

Conjuntura

Ao contrário, no entanto, de uma apresentação linear das opiniões, o que se vê na produção é um campo de disputa de posições e de conceitos, onde há lugar para o contraditório.

Com curadoria do pesquisador Moacir dos Anjos, a apresentação da obra se justifica não apenas por seu ineditismo no Brasil, mas serve de subsídio para se pensar a situação econômica e política da Europa contemporânea. "Exibi-lo em um momento de grave crise financeira, social e política na Europa o reveste de interesse particular. E é justamente na articulação entre o trabalho do artista feito em 1989 e a situação corrente do mundo que ele buscava entender a partir do legado cultural grego que se ancora a presente exposição", explica Moacir em seu texto curatorial. E acrescenta, não sem perspicácia: "É irônico, senão paradoxal, que justamente o país cuja cultura mais contribuiu para a ideia de um mundo que se quer proteger do colapso esteja sendo culpabilizado pela crise que se abate sobre ele hoje. E que seja por meio da adoção de políticas que levam à redução do crescimento, ao desemprego e ao desmonte de políticas de amparo social que se busque preservar uma ideia de coesão econômica, social e política na Europa inteira".

Montagem

No Centro Cultural Banco do Nordeste, a exposição é dividida em duas partes. Na primeira, as mais de cinco horas de vídeo, dos 13 episódios, são exibidas em sequência. Na segunda, um ambiente de pesquisa e debate é criado para dispor ao público informações sobre o artista e a crise atual na Europa. O espaço é composto por jornais, revistas, livros e outros vídeos.

Além disso, profissionais de áreas diversas do conhecimento serão convidados a fazer parte desse ambiente refletindo sobre a obra. "A exposição possui, assim, duas camadas distintas que se articulam: o trabalho de Chris Marker e o contexto específico em que ele é aqui oferecido ao público. Sem pretender criar uma ligação imediata entre um e outro, o que a mostra quer é ativar a importância de (re)visitar ´O Legado da Coruja´ a partir do sentimento de urgência que a crise europeia desperta", completa dos Anjos.

Mais informações

Vídeoinstalação "O Legado da Coruja", do artista Chris Marker, com curadoria de Moacir dos Anjos. De 31 de outubro, a partir das 18h, até 1º de dezembro, no Centro Cultural Banco do Nordeste (R. Floriano Peixoto, 941 - Centro). Gratuito. Contato: (85) 3464.3108. Horários de visitação: terça-feira a sábado, de 10h às 20h

MAYARA DE ARAÚJO
REPÓRTER