Entrevista com Roberto Machado, filósofo e tradutor

O filósofo Roberto Machado é um dos convidados, para o primeiro dia, do II Ciclo Internacional de Diálogos de Antropologia e Imagem - antropologia, imagens e artes. Especialista no pensamento de Gilles Deleuze, Machado fala da interpretação do filósofo francês para a obra do irlandês Francis Bacon.

De que forma Gilles Deleuze direcionou sua pesquisa sobre a obra de Francis Bacon?

Todos os estudos de Deleuze, seja quando se trata de algum filósofo, literato, cineasta, ou pintor, dizem respeito à diferença e à representação. O tema importante e urgente ao qual ele sempre volta é como pensar libertando a diferença da representação, que para ele significa o privilégio da identidade.  Então é isso o que acontece com seu livro sobre Bacon. Se ele se interessa por Bacon, é porque sua pintura é a expressão artística de um pensamento que escapa da representação. É essa neutra-lização da representação que o leva a considerar Bacon um aliado no seu projeto de constituir uma filosofia da diferença, e a extrair conceitos filosóficos das sensações criadas pictoricamente por ele.

Dentre os elementos da pintura de Francis Bacon, quais interessam mais a Deleuze?

Em "Francis Bacon: lógica da sensação", Gilles Deleuze explica a composição dos quadros de Bacon defendo que, apesar das variações estilísticas dos diversos períodos, há três elementos invariantes em suas pinturas: a figura, o contorno e a grande superfície plana. Estudando esses elementos constituintes, e interpretando a relação entre eles como uma relação diferencial, uma relação que produz a diferença, Deleuze mostra em seu livro que, ao criar suas figuras, privilegiando as forças, a intensidade, a sensação, em vez de privilegiar a forma, Bacon evita o caráter figurativo, ilustrativo, narrativo da pintura. O livro é sobre a importância das forças, da intensidade, da sensação na pintura de Bacon.

O que há de singular na pintura de Francis Bacon em relação aos pintores com quem dialoga?

Deleuze aproxima Bacon principalmente de Cézanne. Vimos que um quadro de Bacon diz respeito à sensação. Pois bem, a relação entre pintura e sensação leva Deleuze a enaltecer Cézanne como aquele que privilegiou a sensação - "lógica das sensações" é uma expressão de Cézanne. Assim, o projeto de criar uma figura sem figuração, ou o caminho de ultrapassagem da figuração pela figura, que é o projeto de Bacon, segundo seu livro, leva Deleuze a pensar a pintura do irlandês como uma terceira via, diferente do abstracionismo de Mondrian e Kandinski e do expressionismo abstrato de Pollock. Pois, para ele, enquanto o abstracionismo reduz ao mínimo o caos, e no expressionismo o caos se desenvolve ao máximo, Bacon, como Cézanne, tem a experiência do caos, da catástrofe, mas lutando para controlá-la, mantendo em sua pintura uma figura que não é figurativa.

É possível comparar o Bacon criador e o Deleuze criador?

Diferentemente de outras correntes filosóficas como o neo-positivismo ou a filosofia analítica da linguagem, a filosofia de Deleuze se caracteriza por não distinguir a filosofia com relação às ciências e às artes por uma diferença de nível, isto é, ele não pensa que os outros saberes seriam criadores, isto é, produziriam conhecimento, e a filosofia, em vez de criadora, seria uma reflexão sobre esses conhecimentos criados pela ciência, pelas artes e pela literatura. Para Deleuze, a filosofia é criadora, e não reflexiva, como acontece com as outras formas de saber, sejam elas científicas ou não. Os conceitos são exatamente como sons, cores, linguagens ou imagens. Neste sentido, Deleuze se equipara a Bacon: ambos são criadores. Mas há uma diferença. É que o objetivo da ciência é criar funções, o objetivo das artes e da literatura é criar agregados sensíveis, sensações, o objetivo da filosofia é criar conceitos.

Quando escreve sobre Francis Bacon, Deleuze muda de papel? Ele se torna um crítico de arte ou permanece filósofo?

Deleuze permanece sempre filósofo em todos os textos que escreveu. Por quê?  Porque o objetivo principal de sua filosofia é elucidar o que seja pensar. E o pensamento não é exclusividade da filosofia: é uma propriedade de qualquer tipo de saber. Assim, vendo na filosofia o domínio do conceito, que é um dos instrumentos do pensamento, Deleuze elabora sua filosofia levando em consideração ou incorporando duas coisas: primeiro, conceitos provenientes de outras filosofias que ele situa no espaço da diferença; segundo, criando conceitos a partir do que foi pensado, com seus próprios elementos, ou instrumentos, em outros domínios. Como é o caso de Kafka, Artaud e Beckett no domínio da literatura. Como é o caso de Bacon no domínio da pintura. Deste modo, ao levar em consideração as ciências, as artes e a literatura, Deleuze está sempre realizando seu projeto filosófico de constituição de uma filosofia da diferença, sem que haja uma diferença essencial entre esses estudos e os estudos de textos tecnicamente filosóficos.

O mestre da "desfiguração"

Por mais que se procure palavras para explicar a pintura de Francis Bacon, não há nenhuma que possa abarcar a força de sua plasticidade poética. Vocábulos são pouco úteis diante de algo tão peculiar. Considerado um dos maiores artistas do século XX, Bacon produziu uma pintura crua e, ao mesmo tempo, sensível e vibrante.

Suas imagens são deflagradoras de ideias, primordialmente contaminadas pelo instinto. "É um instinto, uma intuição que me leva a pintar a carne do homem como se ela se espalhasse para fora do corpo, como se ela fosse sua própria sombra. Vejo-a dessa maneira. O instinto está misturado à vida. Tento aproximar o objeto o mais perto de mim e gosto desse confronto com a carne, essa verdadeira escoriação da vida em estado bruto", dizia o artista.

Pintura

Na obra de Bacon, é conferido aos humanos uma bestialidade sensual. Habitantes de um mundo sem religião, onde a animalidade rivaliza com os deuses. São todos eles, personagens retorcidos e feios, parecem retirados de um pesadelo. A deformidade é justificada pelo artista, não pelo simples prazer de deformar, mas por sua necessidade de transmitir uma realidade da imagem em seu estágio mais dilacerante.

A feiura era para o pintor, algo fascinante, o lugar onde a realidade abandona seus fantasmas. "Quando a maioria das pessoas julga uma escultura ´pavorosa´, não compreendem em que ela pode ser extraordinária. É uma questão de percepção, de cultura e sensibilidade. Na verdade, de instinto. Mas, repito, a maioria das pessoas não tem nenhum interesse por isso!", argumentava.

Segundo Gilles Deleuze, em "Francis Bacon: lógica da sensação", a singularidade de Bacon está no fato dele não representar objetos, histórias, personagens, mas fazer questão da figura não figurativa. O filósofo chama a atenção para o fato de ele ser um pintor de força. Além disso, defende que é por meio do grito que o corpo humano retorcido de Bacon se reduz a uma boca aberta em desespero flagrante.

"Retratista, Bacon é pintor de cabeças, e não de rostos. Há uma grande diferença entre os dois, pois o rosto é uma organização espacial estruturada que recobre a cabeça, enquanto a cabeça é uma parte do corpo, mesmo sendo a sua extremidade. Não que lhe falte espírito, mas é um espírito que é corpo, sopro corporal e vital", diz.

Amante do acaso, Francis Bacon é um experimentador à espreita do estranho e da novidade. Ele se entrega sem retenção a pintura, e não hesita em violentar a tela, pronto para destruí-la se o resultado não sair ao seu gosto. Em suas pinturas, geralmente retratos e autorretratos de grandes formatos e em trípticos, há passagens sempre intrigantes. Como as versões feitas a partir da tela Papa Inocêncio X (1650), de Velázquez: o olhar sisudo do cardeal se transforma na obra do irlandês em figura plena de agonia. Ou o tema tradicional da crucificação transposto para seus quadros a partir da imagem da carne pendurada nos açougues. "Não sabemos por que determinadas coisas nos tocam. É verdade, adoro os vermelhos, os azuis, os amarelos, a gordura da carne. Somos Todos carne, não é mesmo? A carne realmente fustigou todos os meus instintos. A carne pertence há muito tempo à história da pintura".

FILOSOFIA

Francis Bacon: lógica da sensação Gilles Deleuze

ZAHAR

2009

184 PÁGINAS

R$ 39,90

TRADUÇÃO: Roberto Machado (coordenador)

ANA CECÍLIA SOARES
REPÓRTER