Encontro com arte

O artista Waltercio Caldas e o crítico de arte Fernando Cocchiarale desvendam os segredos da arte contemporânea

A produção da arte contemporânea no Brasil, a partir da década de 1950, passando pelos movimentos concretos, neoconcretos, fotografias e artistas mais recentes é tema de discussão em Fortaleza. Como parte das comemorações dos 25 anos de atividades, a Galeria Multiarte promove o seminário "Arte contemporânea brasileira - dos anos 1950 aos dias atuais", que acontece na próxima quinta e sexta-feira, às 19h. A conversa será conduzida por dois convidados: o artista visual carioca Waltercio Caldas, que é também escultor, desenhista e artista gráfico; e o crítico de arte, curador e professor carioca Fernando Cocchiarale.

Obras do artista Waltercio Caldas, em cartaz na mostra "Arte contemporânea brasileira", da Galeria Multiarte

O encontro vai marcar também o encerramento da mostra "Arte contemporânea brasileira - dos anos 1950 aos dias atuais", inaugurada em maio, na Multiarte, reunindo 45 obras de 27 artistas das mais diferentes correntes. Na ocasião, será lançado o catálogo-livro da mostra, 140 páginas, com textos dos críticos de arte Mário Pedrosa e Fernando Cocchiarale, além da biografia dos 27 artistas que integram a exposição.

O seminário mostra ser possível a construção de diálogo entre um artista, Waltercio Caldas (1946), e um crítico de arte, Fernando Cocchiarale. É o que aposta o diretor da Galeria Multiarte, Max Perlingeiro, responsável pelo encontro dos dois artistas. O cenário é a exposição, que servirá de referência visual aos participantes, uma vez que a mostra promove uma visão panorâmica sobre o tema que será debatido.

Simpático e demonstrando disposição para falar quando o assunto é arte, em especial, a contemporânea, Fernando Cocchiarale diz que o seminário será muito curto. O fio condutor para falar sobre arte contemporânea será dado pelo artista convidado Waltercio Caldas.

Para facilitar a compreensão, o crítico entrevistará o artista carioca sobre sua experiência com a arte contemporânea. "Ele vai falar sobre as suas criações", completa o crítico. Um tema tão fascinante quanto abrangente, Cocchiarale promete enfocar sua fala no que caracteriza a arte contemporânea, que na sua opinião, "consiste na tentativa de reaproximá-la com a vida". Cita como exemplo desse tipo de arte, que deixa de lado as grandes questões, para tentar um diálogo com o mundo, com as pessoas, a "Arte Pop". Em outras palavras, quando Andy Warhol pegou as latas de sopa Campbell e as elevou ao status de objetos artísticos. Hoje, são ícones da arte contemporânea, essa manifestação artística que ousou sair dos suportes convencionais, alcançando a rua e usando por base objetos industrializados.

"É essa arte que deixa de tratar das grandes questões para usar imagens de objetos do cotidiano", esclarece Fernando Cocchiarale, que promete discutir o tema com o público cearense. Para falar justamente dessa reaproximação com a vida, a arte contemporânea lanço mão a outros suportes, diz.

Ela passa a ocupar o espaço urbano e o corpo do artista, afirma. Cita Hélio Oiticica, Lygia Clark, Antônio Dias, entre outros como os artistas brasileiros que iniciaram essa nova maneira de fazer arte.

"Eles estavam em sincronia", diz, fazendo referência ao que acontecia no panorama internacional da arte. Sobre o momento atual, o crítico acredita que "são desdobramentos dessa mesma questão", ou seja, a arte atual continua mantendo o desejo de interagir com a vida.

A arte saiu do seu pedestal, abandonou as molduras, visão que conservava até à arte moderna, analisa. A partir das décadas de 1950/1960 houve uma transformação. A arte passa a se integrar com a vida, perdendo o seu caráter puramente contemplativo. "Não é mais essa a sua função" , diz. Conforme o crítico, a arte assume uma postura "ético-política mais participativa". De Fortaleza, cita a experiência do coletivo Alpendre.

"A exposição é muito importante", diz Max Perlingeiro, diretor da Galeria Multiarte, justificando reunir figuras das mais representativas da cena das artes visuais brasileiras nos últimos 60 anos. Cita alguns nomes como: Amilcar de Castro, Hélio Oiticica. Lygia Clark, Mira Schendel, Cildo Meireles, Antônio Dias, além de nomes ligados à fotografia.

Max Perlingeiro festeja os 25 anos de funcionamento do equipamento cultural, afirmando ser "uma existência". Ao longo dessas mais de duas décadas de trabalho, a galeria sempre primou pela promoção da arte na Cidade, além de influenciar na formação de público.

O diretor da galeria Multiarte explica que será um momento único para os apreciadores das artes visuais de Fortaleza, fazendo referência ao seminário, que consiste em debate com o público.

Inscrições

As inscrições são grátis e devem ser feitas pelo email: galeriamultiarte@uol.com.br ou pelo telefone: 3261-7724. "As vagas são limitadas", avisa Max Perlingeiro, destacando que os convidados estarão à disposição do público presente.

De acordo com Max Perlingeiro, o artista visual Waltercio Caldas realizou seus primeiros estudos com o artista Ivan Serpa, no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro (Mam-RJ), em 1965, assinando, em 1968, cenários e figurinos para a peça "A lição", de Ionesco, encenada no Conservatório Nacional de Teatro. Um ano depois, o artista passa a trabalhar com artes gráficas, inaugurando a década de 1970, ensinando Arte e Percepção Visual no Instituto Villa-Lobos. Versátil, Waltercio Caldas, ainda nos anos 1970, foi co-editor da revista "Malasartes", integrando a comissão de planejamento cultural do Museu de Arte Moderna. Assina publicações no jornal "Opinião" juntamente com Carlos Zilio, Ronaldo Brito e José Resende, os artigos "O boom", o "Pós-boom", o "Dis-boom".

O artista participa da Bienal de São Paulo nos anos de 1983, 1987 e 1996; das bienais de Havana, em 1984; Mercosul, em 1997, 2005, 2007; Veneza, em 1997; Coreia, em 2004; Cuenca, em 2011; da Documenta de Kassel, Alemanha, em 1992; da Art/42 Basel, Suíça, em 2011, e da Arco, Feira Internacional de Arte Contemporânea, Madri, em 1997 e 2000, esta última com o livro-objeto Velázquez, com uma tiragem de 1.500 exemplares numerados e assinados. Em 1993, conquistou o prêmio Mário Pedrosa da Associação Brasileira de Críticos de Arte, para melhor exposição do ano, realizada no Museu Nacional de Belas Artes.

O crítico de arte, curador e professor Fernando Cocchiarale (1951) foi um dos pioneiros no uso do vídeo como forma de expressão artística. É graduado em Filosofia pela Pontifícia Universidade Católica (PUC- Rio), atuando também como professor da graduação e pós-graduação em História da Arte e da Arquitetura no Brasil. Além de integrar o corpo docente da Escola de Artes Visuais do Parque Lage, no Rio de Janeiro,sendo curador do Mam-RJ,no período de 2000 a 2008, bem como do Programa Rumos Itaú Cultural Artes Visuais entre os anos 1999 e 2003. Publicou diversos artigos e livros, entre outros, "Abstracionismo geométrico e informal" (Funarte, 1987), com Anna Bella Geiger.

O crítico escreveu, ainda, o texto de apresentação para o livro "Gonçalo Ivo pinturas e objetos" (Edições Pinakotheke, 2008). Assinou a curadoria da antológica mostra "Hélio Oiticica o Museu e o Mundo" e, atualmente, apresenta a exposição "Waldemar Cordeiro fantasia exata". De acordo com pesquisa do Itaú Cultural, realizada com as 19 mil exposições que contaram com artistas brasileiros, tanto no País quanto no exterior, desde 1987, Waltercio Caldas e Fernando Cocchiarale figuram com destaque. Waltercio Caldas aparece como o primeiro artista com o maior número em exposições, totalizando 314 mostras entre coletivas e individuais. Entre os curadores, o carioca Fernando Cocchiarale aparece no topo da lista, com 68 curadorias.

Mais informações

Seminário: "Arte contemporânea brasileira - dos anos 1950 aos dias atuais", com o artista visual Waltercio Caldas e o crítico de arte Fernando Cocchiarale. Dias 11 e 12, às 19, na Galeria Multiarte (Rua Barbosa de Freitas, 1727, Aldeota). Inscrições gratuitas:
(85) 3261.7724/ galeriamultiarte@uol.com.br

LIVRO

Arte contemporânea brasileira
Multiarte
2013, 140 páginas
R$ 30

IRACEMA SALES
REPÓRTER