Encarnação, o amor trágico em Alencar

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O romance “Encarnação”, de José de Alencar, conta a história de um viúvo, Hermano, que mesmo casado com Amália, promove um culto obsessivo à lembrança da falecida mulher, Julieta. Essa trama é movida por uma energia psicótica, onde somente a revelação de um amor sadio pode oferecer esperança para um desfecho que não seja trágico. O livro faz parte da coleção clássicos da Literatura do “Diário do Nordeste”, promoção lançada no dia 16 de abril. Sempre às quartas-feiras, uma edição da coleção é vendida juntamente com um número do “Diário do Nordeste”, no valor de R$ 6,00 para não assinantes

Nesta edição, está acrescida uma apresentação da professora do Departamento de Literatura da Universidade Federal do Ceará (UFC), Vera Lúcia Albuquerque de Moraes.

O drama urbano abordado por José de Alencar é a manifestação de seu ecletismo temático. Dessa vez, não mais aborda a linguagem dos indígenas, personagens de obras anteriores, nem dos sertanejos e outros que povoaram a imensa obra literária do escritor cearense.

A tônica de “Encarnação”, vai muito além de complicação sentimental. A obra aborda um tema inédito na produção literária de José de Alencar, embora muito em voga no Século XIX: a mulher casada com um viúvo que cultua neuroticamente a lembrança da primeira mulher. A força da protagonista feminina, Amália, expressa o amor vital e sadio na tentativa de despertar em Hermano amor igual ao que ele sentia por Julieta.

É uma luta difícil, tal a carga afetiva desordenada de Hermano. “Julieta ainda tinha naquela casa um templo onde era adorada ainda ela dominava e possuía tão completamente o coração do marido que este, apaixonado por outra mulher a quem ia ligar-se eternamente e na véspera dessa união, não podia banir de si o passado e divorciar-se do primeiro amor”, relata o escritor em torno conflitos passionais de Hermano.

E acrescenta: “Era por isso, era para conjurar as recordações implacáveis que surgiam a cada instante; para iludir-se emprestando uma virgindade artificial a emoções já outrora sentidas, que Hermano recorrera calculadamente àquela diversidade dos objetos que deviam cercá-lo na fase nova de sua vida“.

A professora Vera Lúcia Albuquerque de Moraes, que a faz a apresentação do livro na Coleção Clássicos da Literatura do Diário do Nordeste, chama a atenção de que “o romance cultiva um certo clima de alucinação, de tragicidade e de morbidez, embora se encaminhe para uma provável conciliação final”.

Trata-se de um desnível, aliás, uma das molas da ficção do autor, seja no plano das condições sociais, seja no terreno psicológico. É esse tipo de diferença provocada por uma funda e radical disparidade de posições internas e de sentimentos que criará o abismo e a polarização entre os personagens: a adolescente de dezoito anos, que se apaixona pela primeira vez, e o viúvo beirando os trinta, traumatizado pela perda e pelo luto, preso ao seu antigo amor, e assim petrificado afetivamente.

Neste romance, escrito às vésperas da morte do autor, é o passado que comanda a narrativa, ou melhor, trata-se da luta entre o passado, representado pela esposa morta, e o presente, representado na luta travada no coração do obcecado e dividido viúvo.

Vera Lúcia verifica uma nítida contradição entre as pretensões realistas de Amália, antes de apaixonar-se, e a entrega romântica ao amor, depois do casamento, a ponto de anular-se totalmente, assumindo a personalidade e as características de Julieta.

O desenrolar da história vai mostrando que o lirismo cede para um embate de tanatos contra eros, em que o amor projeta para sucumbir à vontade imperiosa da morte. “Perdão, Julieta, perdão!, confesso que Amália me fascinou: mas o que eu amei nela foi unicamente a tua lembrança, a tua alma que às vezes eu ouvia em seus lábios, e via em seus olhos. O que era ela, e só ela, a sua beleza, essa eu a admirava mas enchia-me de terror. Resistia à tentação, refugiando-me em teu amor: e se tu não me amparasses, teria sucumbido! Salvei-me, preservei minha alma e ela está pura como a deixaste, e vai reunir-se à tua pela eternidade”.

Romances de formação

José Martiniano de Alencar nasceu em Messejana, no Ceará, em 1° de maio de 1829 e faleceu no Rio de Janeiro (vítima de tuberculose contraída na mocidade) em 12 de dezembro de 1877.

O escritor formou-se em Direito e teve uma brilhante carreira de advogado, jornalista, deputado, ministro da justiça, orador, dramaturgo e, sobretudo, romancista.

Embora não tenha sido propriamente o criador do romance romântico, título que cabe a Joaquim Manuel de Macedo, Alencar é considerado o maior romancista de nossa literatura e um dos nossos melhores escritores de todos os tempos.

Tinha um estilo poético lírico, livre, muito pessoal. Seus romances trazem os aspectos históricos da formação do nosso povo, da nossa gente. Através de sua linguagem, os costumes, o meio ambiente e a paisagem são valorizados e o ser humano aparece integrado a eles.

Seus romances podem ser catalogados e divididos em quatro grupos principais:

Romances Urbanos

Focalizam o meio social carioca da época (o Segundo Reinado). Criticam com rigor a idolatria ao dinheiro, os costumes burgueses, os conflitos sociais que se refletem no relacionamento homem-mulher. Obras: Cinco minutos (1856); A Viuvinha (1857); Lucíola (1862); Diva (1864); Sonhos Dóuro (1872); Senhora (1875); Encarnação (1877).

Romances Regionalistas

Exaltavam os valores locais e americanos. Obras: O Gaúcho (1870); O Tronco do Ipê (1871); Til (1872); O Sertanejo (1875)

Romances Históricos

Reconstituem nosso passado histórico, aspectos coloniais e o sentimento nativista. Obras: As Minas de Prata 1º Vol. (1865); 2º Vol. (1866); A Guerra dos Mascates 1º Vol. (1871); 2º Vol. (1873).

Romances Indianistas

focalizam os primeiros donos do Brasil e seu contato com a civilização portuguesa:.Obras: O Guarani (1857); Iracema (1865);Ubirajara (1874).