Em novas aventuras

Um dos principais nomes do cartum no Estado, Mino prepara novos projetos para seu personagem mais famoso, o Capitão Rapadura

Historinhas, fábulas, textos, HQs, pensamentos, frases, quadros, murais, manias, vinhetas, ilustrações, contos, poemas. Esses são alguns itens da vasta lavra cultivada e colhida no universo criativo de um dos maiores cartunistas do País, nascido aqui em Fortaleza, Hermínio Macedo Castelo Branco, o Mino. Colunista do Caderno 3, ele publica aos sábados sua já tradicional The Mino Times.

Zanzão e Joli; Ranzinza, Ranaldo e Ranilda; Sapolino; Olalá, O gênio nacional; Zildete; Doutor Braz; Poeta Raimundo; Mimi, Chuvisco e Zé Catita; O rei e eu; Paulo, O coelho; ETúlio e ETília; Albert, Ondstais; Joaninha; Urubulino; Zarro; Emilho e Emilha; Iracema e Caubi; Miudinhas (as formiguinhas); Virgulino; Brinquedo; Goiabada; Dr. Mino; Madame Mina; Sei lá e Lassei; UG e BUG; Elvira, a mulher de mentira; Zé Piada; Sherezade e outros: grande parte dos 40 personagens criados por Mino estão na revista "Rivista". O título já vai na 113ª edição, com tiragem mensal pela Editora Riso e publicada pela Mino Produções. E o resultado não poderia ser outro. Entre as muitas atividades criativas elencadas pelo nosso fértil cartunista, ele faz uma revelação que merece destaque e atenção: Mino tem, nada menos, que 21 livros prontinhos, no ponto para serem publicados.

Mas, dentre todos os personagens criados por Mino, não há como negar, o Capitão Rapadura, o primeiro super-herói genuinamente cearense, é mesmo o mais popular. Por falar nele, onde estará aquela criaturinha que vem cativando admiradores desde 1973, quando chegou ao mundo através do episódio "Capitão Rapadura contra a Peba da Aldeota", sátira ao Bairro Aldeota que, na época (?), estava repleto de buracos.

Produção

"Produzo muito, todos os dias, sou disciplinado. Pela manhã, chego cedo e faço a agenda do dia, porque tem o escritório para tocar, tem a revista, depois começo a fazer os trabalhos de desenhos. Todos os dias faço uma tira do Capitão Rapadura, mexo com os personagens, faço revisão dos livros que quero lançar. Estou na fase de olhar o rebanho todinho para ver o que vai para o mercado. O Capitão Rapadura está pronto, mas tem alguns personagem com histórias a serem desenvolvidas. Os livros estão prontos, são 21, mas até agora só publiquei três pequenos: ´O menino iluminado´, ´A missão das cores´ e ´A luz de cada um´", conta.

Mino confessa que o super-herói sertanejo estava tirando um cochilo nas gavetas de seu escritório, que fica localizado ali no Bairro Papicu. Mas agora despertou com novidades alvissareiras, para alegria dos fãs e seguidores.

"Ele estava arquivado, mas, agora, reuni tudo do Capitão Rapadura. O importante é que estou fazendo um estudo de meu próprio trabalho. Deixei um pouco ele de lado, estava buscando o traço e encontrei o traço e o caráter. Ele não é violento, não dá soco em ninguém, as saídas que encontra são todas pela inteligência. O Rapadura é engraçado, ecológico, às vezes se transforma no Rapadura Negra e sai soltando os passarinhos presos por aí".

Manuseando as pastas organizadíssimas, onde separa o material que trará fôlego novo ao seu filho mais ilustre, Mino continua. "Pensei: o que vou fazer com Capitão Rapadura? Jogar fora? Acabou a história dele? Quanto fui ver, vi que não poderia fazer isso, porque tem muita coisa pronta, programação visual para chaveiro, lápis, bermuda, toalha. Ele é um personagem pronto para ser lançado. Ao longo dos anos, venho recebendo muitas mensagens, alguém sempre fala, diz que viu por aí, conhece, mas pouca gente já leu alguma revista dele. O Capitão Rapadura existe na cabeça das pessoas, ele é querido. Me empolguei e minha fase agora é cuidar dele", revela

Identidade visual

E a gente se pergunta: mas quem é esse homem por capaz de dar vida a tantos personagens engraçados e sábios, tudo de um jeito simples, só tirando e colocando graça de onde menos se espera? Na tarde em que recebeu o Caderno 3 em seu escritório, Mino falou longamente de sua trajetória.

"Em 1965, entrei para a Faculdade de Direito, peguei as passeatas, fiz parte do diretório, desenhei muito cartaz. Foi nessa fase que me lancei como desenhista. Também, aqui em Fortaleza, na TV Ceará, desenhava no programa ao vivo, era o repórter nacional da época, chamava-se Repórter Cruzeiro, quando começava a notícia, eu começava a ilustrar. Depois, em 1967, fui para o Rio de Janeiro e conheci o Ziraldo. Foi aí que ganhei o nome de Mino. Ziraldo quando viu meu cartoon disse: ´mas seu nome é muito comprido, Hermínio não é nome de cartunista, não tem um nomezinho mais curto? E eu disse que meu apelido em casa era Mino. Ele disse: ´pô, e você com um nome desse!´. Daí passei a assinar Mino. Deixei não sei quantos desenhos na Revista Cruzeiro e vim para cá, depois passei a colaborar um pouquinho com o Pasquim. Mandei desenhos para revistas da época, Fatos e Fotos, Status. Antes, eu trabalhava fazendo marcas, programação visual. Foi quando resolvi montar meu próprio ateliê, então, o que viesse, eu fazia. Era como uma loja, entrava e pedia o que queria, foto da mulher, ilustração do livro, marca da empresa: era desenho, era comigo. Passei uns 10 anos fazendo isso e me deu base porque, à medida que entrava no desenho mais técnico, quando voltava para o cartum, estava com o traço mais refinado", rememora.

The Mino Times

Semanalmente, Mino produz uma página semanal de humor, a The Mino Times, aqui, no Diário do Nordeste. O cartunista cearense já participou e foi premiado em diversos salões de humor nacionais e internacionais, fazendo parte, dentre outras, da antologia "Rússia-Brasil em defesa da natureza", da Exposição Itinerante da Aliança Francesa, além de um importante trabalho, "Os Peixes", publicado na Slapstick, periódico alemão de humor. Mino também é o responsável pelo grande mural Terra da Luz, localizado no Aeroporto Internacional Pinto Martins, em Fortaleza.

"Recebi influência de todo mundo. Nunca deixei nenhuma porta fechada. Se tivesse vontade de desenhar parecido com Picasso, fazia. O Ziraldo influenciou meu traço, Millôr Fernandes, Jaguar, e eu deixava livremente essa coisa acontecer. Uma vez perguntei como eu iria resolver esse problema, porque queria ter um estilo, mas meu desenho sempre estava agarrado a algum outro desenho. Aí o Millôr disse que eu estava esnobando, disse que o próprio Picasso admitia que um pintor imitasse outro pintor, mas nunca imitasse a si próprio, se repetisse. Fui tendo esses mestres e encontrando meu caminho na pintura. Juntei desenho com pintura e deu o mural do aeroporto, ali foi um estudo fantástico! Porque eu tinha formação do desenhista de história em quadrinho. Quando fui fazer a história do Ceará no mural, o Terra da Luz, pensei em fazer preto e branco, por causa do cordel e tal. Mas um dia estava na missa, lá na Catedral da Sé, e reparei naqueles vitrais coloridos e disse: vou colorir aqueles desenhos, o Ceará tem muita luz, as mulheres são coloridas, nossa natureza é colorida. Por isso fiz aquela estamparia toda, coloquei muitas cores, surrealista mesmo, tem gente de rosto verde, camaleão vermelho, tudo contando a paisagem cultural e natural do Ceará".

NATERCIA ROCHA
REPÓRTER