E ele pula das páginas

Exposição resgata trabalho do quadrinhista cearense Luiz Sá, criador da célebre trinca Reco-Reco, Bolão e Azeitona


Vez por outra, Didi Mocó brincava com Zacarias, Dedé e Mussum chamando-os de Reco-Reco, Bolão e Azeitona. Se teve gente que não entendeu a piada, outros traziam na memória os três personagens de histórias em quadrinhos que circulou na primeira metade do século XX, na famosa revista “O Tico-tico”. Didi não se limitava a brincar com os nomes: era comum identificar nos episódios alguma cena ou anedota que traziam as três crianças como protagonistas, criadas pelo cearense Luiz Sá.

Um dos pioneiros do quadrinho no Brasil, o cearense acaba de ganhar uma exposição retrospectiva no ano de seu centenário. “Luiz Sá - 100 anos”, com curadoria do ilustrador Weaver Lima em parceria com os colegas do grupo Artz, tem abertura marcada para hoje, a partir das 19h, no Centro Cultural BNB, ficando em cartaz até dia 4 de novembro. A mostra congrega trabalhos de diversas linguagens, tendo em vista a versatilidade do autor. Além das páginas da revista, Luiz Sá inseriu os quadrinhos nos desenhos animados (infelizmente perdidos), no teatro, no cinema e, pasmem, no rádio, através de uma brincadeira com o auditório dentro do estúdio.

A resposta da curadoria para tantas facetas de um mesmo artista foi separar, nas paredes do Centro Cultural, cada expressão. “A gente acabou dividindo o trabalho dele por atividades. Os postais, os quadrinhos etc. Para o público entender as áreas de atuação, de uma forma bem didática”, explica Weaver.

Trajetória

Apesar da herança artística - o avô, de quem herdou o nome, participou da Padaria Espiritual, a mãe era professora de desenho - Luiz Sá foi desacreditado quanto ao futuro de artista. E, num período de vacas magras, debandou para a capital do país, à procura de um emprego. Era ano de 1929. Um trabalho aqui outro acolá, ele acabou por colocar seu nome no circuito de desenhistas da época, com a ajuda de Pacheco Queiroz, conterrâneo, também desenhista.

Dois anos depois da chegada ao Rio, a pedido de Adolfo Aizen, editor de “O Malho”, Luiz Sá dava início ao trio que o deixaria famoso: as trapalhadas vividas por Reco-Reco, Bolão e Azeitona. Em 1931 aconteceria também a primeira exposição individual, onde estariam trabalhos das séries “História do Brasil”, “História Universal” e outras. Mais exposições estavam por vir.

Muito embora o artista tenha se estabelecido no Rio de Janeiro, ele se formou no Ceará. E muitas das suas referências foram construídas aqui. “Ele tinha referências cearenses, e chega lá no Rio com todas essa carga. Os negros, aqui, por exemplo, eram chamados de azeitona, e no Rio, de jamelão. Ele prefere manter a denominação daqui”.

Particularidade

Luiz Sá causou impacto entre os colegas e o público com uma particularidade de seus desenhos. “Nessa época, os desenhistas tinham um traço mais clássico, influenciado pela escola francesa. Luiz Sá tinha um traço redondo, que deve ter sido uma surpresa grande. Daquela forma ninguém fazia no Brasil”, explica Weaver.

Tanto que, durante os mais de 50 anos em que esteve ativo e trabalhando, os jornais o mencionavam como “Luiz Sá e seus bonecos redondos”.

FIEQUE POR DENTRO

Lembranças de família

Ruy Bastos ainda não tinha entrado na história de Luiz Sá. Mas foi ele, numa observação pertinente, que lembrou ao grupo Artz do centenário de Luiz Sá, cearense que, do Rio de Janeiro, conquistou o país com seus personagens de histórias em quadrinhos. Estava lançada a idéia da exposição.

Claro que, entre as medidas a serem executadas, uma visita à família do artista estava prevista. ´A gente, como família, ficou muito orgulhosa´, conta Lana Araújo, sobrinha de Luiz Sá. Filha do irmão mais velho do artista, Francisco das Chagas Araújo Neto, Lana ainda traz na memória a imagem imaculada que o pai construiu do irmão artista. Ele sempre falava de Luiz Sá, quando via uma revista ou uma inserção no cinema: ´Olha, isso é do tio de vocês, um artista muito famoso´, lembra Lana, reproduzindo as palavras ouvidas do pai.

Depois de ter ido ao Rio com alguns recursos conquistados pelo irmão, Luiz Sá acabou por perder o contato com a família no Ceará. ´Isso durou mais ou menos uns 30 anos. Naquele tempo, a comunicação não era fácil como é hoje em dia´, continua Lana. ´Então, numa viagem a Niterói, fomos com o objetivo de encontrá-lo lá. Foi lindo o reencontro´. Daí, o laço familiar estava refeito, inclusive com a família carioca, que tinha uma herdeira, Jacira Sá. Luiz chegou a ficar hospedado uns três meses na casa do irmão, depois de ter sofrido um infarto, e voltou a passar uma temporada na casa da família quando Francisco morreu.

´Emprestamos ao Weaver, curador da exposição, todo o material que eu e meus irmãos temos guardado. A Jacira também disponibilizou todo o material que tinha´, explicou Lana. Embevecida, agora, de ver o tio famoso reconhecido na terra natal.

Serviço:
´Luiz Sá - 100 anos´, exposição do trabalho do desenhista cearense Luiz Sá, com curadoria de Weaver Lima. De 18 de setembro a 4 de novembro, no Centro Cultural BNB (Rua Floriano Peixoto, 941). Informações: 3464.3108

JÚLIA LOPES
Repórter